A negociação em Islamabade é uma vitória do Irã, que Israel pode inviabilizar
. Está nítido que os EUA não conseguiram alcançar nenhum objetivo concreto
Após revelar sua moral em estado avançado de putrefação, anunciando que iria bombardear o Irã até voltarem à idade da pedra, declarando também que iria exterminar uma civilização inteira numa noite, pois se tratava de animais e, por isso, não era um crime de guerra... Trump recuou e aceitou iniciar um processo de negociação, mesmo a contragosto do governo israelense. Nesse artigo, vamos analisar, em primeiro lugar, quais foram os motivos que fizeram o presidente americano mudar de decisão minutos antes do prazo estabelecido para que o Irã reabrisse o estreito de Ormuz no dia 07 de abril.
Vamos também avaliar os possíveis cenários que podem se desdobrar do processo de negociação que supostamente vai se iniciar no dia 10 de abril, em Islamabad, no Paquistão. Essa negociação conseguiu pausar a escalada da guerra momentaneamente, mas todo o processo diplomático está sendo costurado em pano frágil, e as forças sionistas presentes tanto no governo Trump como no governo de Netanyahu vão trabalhar para que um acordo de paz jamais se concretize.
Estamos com pouco mais de um mês de guerra aberta na região do Oriente Médio. Está nítido que os EUA não conseguiram alcançar nenhum objetivo concreto; pelo contrário, os problemas de toda ordem, tanto internos como externos, se aprofundaram. Isso significa que a resistência iraniana converteu sua força bélica e capacidade de tolerar a dor de bombardeios covardes em um processo de negociação que não estava nos planos dos psicopatas do Ocidente e sionistas radicais (Pete Hegseth, como secretário da guerra, planejou uma intervenção de resultados rápidos e falhou! Ficará no cargo?). Trata-se de uma incontestável vitória do Irã e do Sul Global, pois, ao contrário do que muita gente séria anda escrevendo por aí, os iranianos não estão sozinhos.
Por que Trump recuou e aceitou negociar?
Enquanto o mundo, em choque, via Trump anunciar que iria cometer um escandaloso crime de guerra, exterminando uma civilização inteira, especulou-se inclusive utilizar armas nucleares para alcançar essa meta. Na cabeça doentia dos líderes sionistas radicais, o dia 7 de abril seria uma noite de orgasmo e satisfação, mesmo que isso custasse a vida de milhões de civis inocentes. Mas acontece que o presidente americano foi obrigado a recuar, especialmente pelo nível de crises internas que se agudizaram e pelo isolamento diplomático absoluto que estava se formando. Assim, a ala do governo Trump, liderada pelo vice-presidente J.D. Vance, que está desde o início contra a escalada da guerra, foi o ponto de contato para que o governo paquistanês começasse a elaborar conversas diplomáticas para evitar uma catástrofe de dimensões bíblicas.
O fechamento do estreito de Ormuz e os danos nas estruturas petroquímicas, tanto do Irã como dos países do Golfo, provocaram uma alta do preço do barril de petróleo, que estava ultrapassando os US$ 110,00; consequentemente, o litro do petróleo nas bombas americanas começou a ficar impagável. A avaliação do governo começou a derreter dia após dia, os protestos da oposição crescem a cada edição do “No Kings”, com participações recordes; os republicanos já estão perdendo terreno em estados de eleitorado fiel, como também setores do movimento MAGA começaram a criticar publicamente as ações do governo americano e a postura do atual secretário da guerra e suas relações com o lobby sionista — o jornalista Tucker Carlson tem liderado esse movimento. A continuidade da guerra se tornou uma passagem direta para uma derrota dos republicanos na eleição de meio de mandato. Tal situação inevitavelmente acabaria por desmanchar qualquer sonho de J.D. Vance em se tornar presidente da República na próxima eleição presidencial.
Nas relações externas, a OTAN e países europeus se recusaram a formar uma aliança militar com os EUA para lutar contra o Irã. A Rússia e a China vetaram a resolução do Conselho de Segurança da ONU, que propunha uma intervenção militar de vários países para reabrir o estreito de Ormuz, consolidando um cenário de isolamento no qual o governo americano não conseguiu arrastar a Europa para uma intervenção contra os iranianos.
Somado a todos esses elementos, o prolongamento da guerra coloca em estado crítico as estruturas petroquímicas e as usinas de dessalinização das monarquias aliadas dos EUA na região. Os mísseis e drones iranianos são capazes de causar danos que podem inviabilizar a produção de combustível, fertilizantes e produtos para a fabricação de chips e microeletrônica, que se concentra em países como Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Consequentemente, é a riqueza gerada por essas monarquias que sustenta o sistema petrodólar e financia os planos de negócios das big techs americanas e sua corrida pelo domínio da inteligência artificial.
Essa situação abriu as possibilidades para que a ala do governo Trump, ligada às big techs e representada pelo vice-presidente J.D. Vance, passasse a prevalecer nesse momento, isolando os belicistas ligados ao complexo industrial-militar e os setores sionistas radicais, que, por motivos geopolíticos e sectarismo religioso, desejam a guerra até o Armagedom, algo que está se mostrando insustentável economicamente para o império.
Negociação de guerra no Paquistão: quais os cenários possíveis?
O Paquistão se prepara para receber as representações que estarão em negociações na cidade de Islamabad. A delegação americana será liderada pelo vice-presidente dos EUA, que estará acompanhado pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. Pela equipe iraniana, o presidente do parlamento do país persa, Mohammad Bagher Ghalibaf, estará à frente das negociações.
Dois elementos centrais são os grandes obstáculos para que um acordo de paz possa ser alcançado. Em primeiro lugar, a situação do Líbano pode inviabilizar o início do processo de negociação, já que, após o anúncio de Trump de acordo de cessar-fogo no dia 08 de abril, o governo de Israel atacou o Líbano com bombardeios que, segundo as estimativas oficiais, deixaram 300 mortos e mais de 1.150 feridos. Nessa manhã do dia 10 de abril, uma contraofensiva do Hezbollah atacou tropas israelenses, declarando agir em resposta às violações do cessar-fogo pelo regime israelense. A Casa Branca e Netanyahu deram declarações de que o Líbano não faz parte do acordo de cessar-fogo. O governo do Paquistão, que é mediador dessas negociações, afirma o contrário, ao mesmo tempo em que representantes do Irã vêm afirmando que, sem a inclusão do Líbano, as negociações não vão avançar e o estreito de Ormuz não será aberto.
O segundo obstáculo a ser superado são as pautas de reivindicações apresentadas por ambos os lados, que possuem pontos que dialogam muito pouco entre si. Pelo lado iraniano, os principais pontos são:
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Os EUA apresentaram uma plataforma de 15 pontos para iniciar o processo de negociação; entre as principais reivindicações americanas estão:
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Enquanto a pauta iraniana está focada em garantir sua soberania energética e sua segurança, a pauta americana quer restringir totalmente a capacidade dos iranianos de ter um programa nuclear e protagonismo militar na região. As relações de confiança estão muito fragilizadas, especialmente pelo fato de os EUA terem atacado o Irã durante as duas últimas mesas de negociações. A comunidade internacional está a favor do fim das hostilidades para restabelecer a normalidade econômica; vários chefes de Estado europeus estão exigindo a inclusão do Líbano no cessar-fogo — destaque para o presidente da Espanha, Pedro Sanchez, que vem liderando as críticas contra a postura do governo israelense.
Possíveis cenários:
- Os EUA conseguem enquadrar Israel, prorrogando o cessar-fogo e o processo de negociação, garantindo a abertura do estreito de Ormuz e um relativo reequilíbrio econômico. Essa situação poderá ser administrada pelo menos até a eleição americana de meio de mandato ao final do ano, com possibilidade da volta das hostilidades ou não, a depender do resultado eleitoral americano.
- O governo de Netanyahu continua sem controle, mantém a instabilidade na região em situação crítica permanente, as negociações fracassam, a ala belicista e sionista radical retoma a iniciativa no governo Trump, suspendendo o cessar-fogo e reiniciando os combates. Os desdobramentos desse cenário reforçam tendências de recessão global e instabilidade política em várias regiões do mundo, incluindo a deterioração da disputa política interna nos EUA.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
