A nossa sociedade doente e a Covid-19

(Foto: Amanda Perobelli/Reuters)
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Por Stefano Dumontet e Marco Mamone Capria

Seria importante lembrar que a nossa sociedade não sofre apenas de patologias no sentido médico do termo. Estamos doentes também por causa das informações distorcidas e propagandísticas, espalhadas por jornalistas, pretensos especialistas e até agências governamentais, cujos representantes se transformam em aparato inquisitório para impedir qualquer tentativa de retífica das notícias, lançando ataques ferozes contra os supostos promotores de "fake news" - o novo anglicismo utilizado para evitar entrar na matéria de fundo das críticas.

O resultado é um mal-estar informacional, que podemos chamar de "infodemia", que causa na população sintomas como desorientação, medo e vontade de aceitar qualquer “verdade revelada”, por infundada ou irracional que seja, para não ficar desconcertada no meio de uma descontrolada avalanche de notícias. 

Uma característica da infodemia é distorcer os resultados das publicações científicas, transformando hipóteses de trabalho em verdades absolutas. Estas hipóteses de trabalho, em um processo normal de desenvolvimento do saber científico, são regularmente confrontadas com outras hipóteses, teorias e resultados que podem até descrever realidades diferentes e às vezes opostas. A mídia corporativa opera uma seleção das pesquisas a serem avaliadas positivamente, a fim de permitir uma arbitrariedade completa na escolha das bases científicas nas quais apoiar os processos de tomada de decisão e de divulgação das notícias. Os resultados das pesquisas podem ser tratados como cientificamente rigorosos, quando for conveniente, e ridicularizados quando não se conformam à narrativa corrente. A ciência, pelo menos aquela descrita como a única fonte de verdade, é de fato administrada por supostos especialistas capazes de negar até as evidências, caso seja necessário. Tudo isso sem uma análise geral das evidências disponíveis e dos dados certos que permitiriam colocar os acontecimentos em uma estrutura interpretativa coerente e equilibrada.

A crise “Covid-19”

No gerenciamento da suposta emergência de saúde chamada Covid-19, os exemplos dessa situação são inúmeros. Eles vão desde as declarações apodíticas sobre a impossibilidade absoluta e cientificamente reconhecida que o SARS-Cov-2 poderia prejudicar a saúde pública, até a descrição do seu terrível poder patogênico (naturalmente difundidas pelo mesmo “especialista” permanentemente convidado nos talk-shows televisivos), das celebrações emocionais dos mortos (“ele teria feito cem anos daqui a algumas semanas”, sugerindo que essa pandemia cortou uma vida que poderia bater qualquer recorde de longevidade) ao ridículo sobredimensionamento das mortes atribuídas ao SARS-Cov-2 (que em Itália causou escândalo mesmo em representantes da Ordem dos médicos).

Essa premissa é necessária para entender como as estatísticas podem ser ignoradas, ocultadas, mal interpretadas ou até vergadas a interpretações de fantasia. Karl Marx atribuiu ao exército de reserva dos desempregados a função essencial de acalmar a negociação salarial em favor do sistema capitalista. Hoje nos deparamos com um “exército de reserva dos falecidos”, que pode ser exposto ou ocultado, consoante as necessidades. Em outras palavras, a nossa sociedade doente produz, por muitas e diferentes razões, uma enorme mortalidade, que pode ser destacada, se for necessário, atribuindo a causa ao que for mais conveniente no momento. Exatamente o que aconteceu com a crise Covid-19.

Infertilidade e poluição ambiental

Seria necessário relatar sobre a gravidade da situação de saúde pública devida a eventos atribuíveis às atividades humanas e não a organismos patogênicos. Vamos começar com um dos problemas mais agudos e dolorosamente sentidos pelos afetados, mas, ao mesmo tempo, base da lucrativa indústria da procriação assistida: a infertilidade. 

A espécie humana compartilha com muitos outros animais o problema da infertilidade, devido, em muitos casos, à ação de moléculas sintéticas que agem como “desreguladores (ou perturbadores) endócrinos”. O alarme sobre o perigo causado pela redução da fertilidade humana havia sido lançado por Phyllis Dorothy James, uma autora inglesa de best-sellers policiais, em um romance de 1992 intitulado The Children of Men, que tem lugar na Inglaterra do 2021, uma nação que compartilha o destino de um planeta onde nenhuma criança nasce em vinte e cinco anos. Rachel Carson hipotetizou, em seu livro Silent Spring de 1962, o advento de primaveras sem canto de pássaros, por causa da ação tóxica de poluentes orgânicos persistentes, como o inseticida DDT (diclorodifeniltricloroetano), que foi maciçamente utilizado, tanto para uso doméstico quanto na agricultura, e depois banidos por causa de sua alta toxicidade ambiental.

Aliás, o DDT é contado entre os desreguladores endócrinos capazes de causar infertilidade em seres humanos e a sua persistência ambiental é tal que, após sua proibição, que ocorreu na Europa em 1986, esse inseticida é ainda hoje presente nas áreas mais remotas do nosso planeta. O DDT é um poluente persistente, lipofílico e altamente tóxico, capaz de se acumular ao longo das cadeias alimentares e pode ser transportado por longas distâncias das normais dinâmicas ambientais.

Hoje, mais de 100.000 produtos químicos estão disponíveis comercialmente somente na Europa. Esse número está crescendo rapidamente à medida que novos produtos são introduzidos no mercado todos os dias. Há dez anos, estimou-se que 86% dessas moléculas nunca haviam sido estudadas para evidenciar suas características de toxicidade humana e ambiental. Mesmo a diretiva europeia  Registration, Evaluation, Authorisation and Restriction of Chemicals não correu o risco de agitar muito o mar da indiferença em relação à proteção da saúde, uma vez que exigia o estudo de apenas uma pequena fração dessas substâncias: 5.500 em mais de 100.000. Entre os produtos químicos em uso, há um número desconhecido de desreguladores endócrinos capazes de entrar em nosso ambiente interno e externo e poluir bacias hidrográficas, mar, solo e atmosfera.

Tanto James, uma escritora de livros policiais, quanto Carson, uma zoóloga, alertaram, a partir de ângulos diferentes, sobre a deriva descontrolada dos efeitos nocivos causados pela exposição a produtos tóxicos. A realidade está muito mais próxima do romance distópico da James do que se poderia acreditar. Nos países ocidentais foi registrada uma queda na contagem dos espermatozoides no sêmen humano de 113 milhões por mililitro em 1939 para 66 milhões por mililitro em 1990. Outros pesquisadores destacam uma diminuição de 59,3% na contagem de espermatozoides no sêmen de 1973 a 2010, em quase todos os países ocidentais, bem como uma deterioração progressiva na qualidade do sêmen. Esses fenômenos são conhecidos há algum tempo, tanto que o Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA observou, já em 1989, que nos países industrializados um em cada cinco casais apresentava problemas reprodutivos.

Em 5 de novembro de 2019, o professor Olle Johansson, por ocasião de um congresso realizado na Itália na Câmara dos Deputados, declarou que a fertilidade masculina está diminuindo exponencialmente e pode resultar em infertilidade irreversível em apenas 5 gerações. Danos à linha germinativa humana podem causar efeitos transgeracionais até a terceira geração. O dano não se limita à diminuição da fertilidade, mas inclui a feminização de bebês masculinos, desenvolvimento testicular reduzido, criptorquidia (falha dos testículos em descer para a cavidade escrotal), hipospádia (malformação do pênis), aumento do risco de tumores, deficit cognitivos, distúrbios comportamentais etc. Esses exemplos mostram que o termo “desreguladores endócrinos” é um eufemismo que mascara efeitos devastadores sobre a espécie humana de milhares de moléculas tóxicas que invadem o nosso espaço vital. 

A evidência de dano transgeracional levou a epidemiologista belga Adelheid Soubry a estudar os efeitos epigenéticos dos tóxicos contribuindo para o novo paradigma interpretativo chamado "Paternal Origins of Health and Disease" (origem paterna da saúde e doença). Soubry observa que a teoria epigenética (mecanismos hereditários não genéticos, como por exemplo a herança dos efeitos patogênicos da exposição a moléculas tóxicas) modificou o conceito original de gene como a única ferramenta para a herança das características dos pais. Portanto, viver em um ambiente não saudável, ser expostos a moléculas tóxicas, sofrer de má nutrição devida a produtos contaminados, ter estilos de vida em risco, traz efeitos negativos para a progênie, também através de alterações na gametogênese masculina, capazes de alterar a programação genética e aumentando o risco de doença na prole por mais de uma geração vindoura. Um resumo da literatura científica sobre os efeitos transgeracionais de desreguladores endócrinos conhecidos mostra que todos os estudos concordam com a possibilidade de que modificações epigenéticas induzidas por desreguladores endócrinos possam causar aberrações do fenótipo até a terceira geração. Não parece que este assunto seja levado diariamente à atenção da população, como deveria ser, considerando vista a gravidade da matéria. A sobrexposição mediática, científica e sanitária do SARS-Cov-2 é muito útil, entre outras coisas, para ofuscar problemas muito mais prejudiciais como esse. 

As vítimas da poluição atmosférica 

Estes são os efeitos sobre a fertilidade humana de moléculas tóxicas encontradas no meio ambiente, em nossos alimentos ou em nossas casas. A isso se deve acrescentar a morbilidade e mortalidade resultantes da exposição diária a poluentes atmosféricos. A lista de moléculas tóxicas às quais estamos expostos e a de riscos a saúde relacionadas é muito longa.

A incidência de patologias e mortes precoces devido à poluição do ar assume uma importância particular. O site da Agência Ambiental Europeia relata a porcentagem da população europeia exposta a concentrações de poluentes do ar superiores aos limites indicados pela Organização Mundial da Saúde. Em 2017 (últimos dados disponíveis) 77,2% dos europeus estavam em risco por exposição excessiva a PM2,5 (partículas finas com diâmetro inferior a 2,5 milésimos de milímetro), 44,4% a PM10 (partículas finas com um diâmetro entre 10 e 2,5 milésimos de milímetro), 95,9% ao ozônio (O3) e 6,5% ao dióxido de nitrogênio (NO2). O mesmo relatório da Agência Ambiental Europeia mostra o número extremamente preocupante de mortes precoces por poluição do ar. Na Itália, em 2016 (dados mais recentes disponíveis), 84.400 óbitos têm que ser atribuídos à poluição atmosférica. Destes, 59.500 são causados por exposição a partículas finas, 3.300 por exposição ao ozônio e 21.600 por exposição ao dióxido de nitrogênio. Os números são de longe os mais altos da Europa, também mais altos da Alemanha, um país com cerca de 83 milhões de habitantes, enquanto a Itália tem cerca de 60 milhões.

É apenas ignorando esses dados oficiais que a epidemia Covid-19 (cuja mortalidade provavelmente não tem apenas uma conexão, mas talvez uma importante sobreposição estatística, com doenças respiratórias causadas pela poluição do ar) possa ter assumido, aos olhos da opinião pública, as proporções aterradoras necessárias para justificar a imposição de uma regressão sem precedentes dos direitos civis e do controle democrático. Os óbitos por poluição são hoje um dos principais componentes do “exército de reserva dos falecidos”. Se nesses anos os números dos falecidos por causa da poluição do ar tivesse sido citado diariamente pela mídia corporativa, a limitação do uso de carros particulares seria aceito de bom grado pela população. Os benefícios teriam sido certos: menos poluição do ar, menos falecidos por poluição atmosférica e por acidentes rodoviários. Benefícios mais tangíveis do que o bloqueio da vida social e da economia decidido pelos profetas da desgraça que gerenciaram a suposta crise do Covid-19. Profetas da desgraça que não se importam com a saúde pública quando assuntos bem preocupantes estão em jogo.

As patologias: gestacional, respiratória, cerebral, cardiovascular

Os primeiros efeitos nocivos da poluição do ar podem ocorrer ao longo da gravidez durante o desenvolvimento do feto. Poluentes atmosféricos, em particular os particulados finos (PM2,5) e os gases de escape dos veículos, reduzem a circunferência média do crânio dos recém-nascidos e aumentam o risco de baixo peso ao nascer. Um estudo foi realizado em 12 países europeus pelo grupo de trabalho sobre os efeitos da poluição do ar (ESCAPE) e envolveu 74.000 mulheres que deram à luz entre 1994 e 2011. Os níveis médios de exposição à poluição atmosférica de gestantes variou entre 10 e 30 microgramas de PM2,5 por metro cúbico de ar. Os pesquisadores apontaram que para cada aumento de 5μg de PM2,5 por m³ de ar o risco de baixo peso ao nascer aumenta em 18%. 

A American Lung Association, em um relatório intitulado “Efeitos na saúde por exposição ao ozônio e a partículas atmosféricas”, indica os seguintes efeitos decorrentes da exposição a poluentes atmosféricos:

  • problemas respiratórios e cardiovasculares (incluindo derrames);
  • aumento da mortalidade em bebês e crianças;
  • aumento do número de ataques cardíacos (especialmente entre idosos e pessoas com doenças cardíacas);
  • inflamação do tecido pulmonar em adultos jovens e saudáveis;
  • aumento das admissões às salas de emergência para pacientes com distúrbios respiratórios agudos;
  • aumento da hospitalização por asma em crianças; 
  • maior gravidade dos ataques de asma em crianças.

Longas exposições a partículas finas causam coagulação sanguínea, hipertensão e reatividade vascular e os efeitos no pulmão estão associados a danos e inflamações celulares. Evidências crescentes sublinham que as espécies reativas de oxigênio (ROS) produzidas em células estimuladas, desempenham um papel importante nesses processos.

Já na década de 90 foi proposto um mecanismo de ação das partículas ácidas ultrafinas, características da poluição atmosférica, que causariam inflamação alveolar, alterações na coagulabilidade sanguínea e liberação de mediadores capazes de causar síndromes respiratórias agudas em indivíduos sensíveis.

A poluição atmosférica não causa apenas mortes por doenças que afetam o sistema respiratório. Estudos epidemiológicos mostram que um alto nível de poluição do ar pode aumentar o risco de incidência e mortalidade de doenças cerebrovasculares. Existe, por exemplo, uma correlação estatisticamente significativa entre a mortalidade por derrame e o nível de poluição do ar em Como (cidade na região da Lombardia), em relação à concentração de PM10 e dióxido de nitrogênio nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, o período típico da epidemia de gripe. A inalação de material particulado atmosférico ultrafino é responsável pela inflamação sistêmica e vasoconstrição, o que pode levar à superexpressão de citocinas pró-inflamatórias e a uma série de eventos que terminam em trombose. Uma síndrome também observada em caso de alguns pacientes afetados por SARS-Cov-2. 

A figura abaixo ilustra os efeitos globais da exposição prolongada a partículas finas segundo a agência estadunidense pela proteção ambiental (Environmental Protection Agency) 

Figura artigo


Os efeitos negativos que afetam os sistemas cardiovascular e respiratório estão associados à inflamação sistêmica e à indução de coagulação sanguínea, que causam efeitos trombóticos e tromboembólicos. Exatamente os mesmos efeitos descobertos graças a autópsias em “pacientes com Covid-19”. As autópsias foram realizadas por alguns médicos, apesar da “dissuasão cortês” exercida pelas autoridades do Ministério da Saúde italiano (os “advogados de defesa” do governo apontaram que a indicação contida em duas circulares ministeriais em abril e maio de não fazer autópsias e cremar imediatamente os corpos não era uma “proibição” mais apenas uma “sugestão”). Os resultados das autópsias contribuíram para uma mudança na estratégia terapêutica à qual devemos, muito mais que ao distanciamento social, a diminuição dos acessos à terapia intensiva e a diminuição dos óbitos. 

A Covid-19 é uma doença inédita?

Um dos tópicos mais debatidos hoje é a suposta novidade das manifestações patológicas causadas pelo vírus SARS-Cov-2. A gravidade da infecção foi sublinhada por praticamente todos os analistas, que relataram como o vírus pegou os médicos “de surpresa”, enquanto capaz de causar uma nova doença da qual nada se sabia. Até o início de março de 2020, não havia indicações terapêuticas claras. O mecanismo patogenético do vírus é assim descrito em um documento de uma associação de médicos italianos:

“O principal mecanismo de morbidade e letalidade da SARS (lembramos que a SARS foi também uma pandemia causada em 2003 pelo SARS-Cov, um vírus muito parecido com o SARS-Cov-2) é a chamada síndrome da dificuldade respiratória aguda, segundo a qual, após a infecção do epitélio do trato respiratório inferior mediado pela interação da proteína de superfície do vírus com o receptor ACE2 é desencadeada uma inflamação aguda violenta dos pulmões, que leva à formação de uma camada de fibrina nos alvéolos pulmonares, impedindo assim as trocas gasosas”. 

Parece bastante claro que, se esse é o diagnóstico, seria inútil ventilar pulmões nos quais a coagulação do sangue impede as trocas gasosas. Toda a polêmica sobre a falta de respiradores nas unidades de cuidados intensivos ganha a sua verdadeira dimensão: uma discussão inútil. Não todos os pacientes necessitam de ventilação. Ademais, um grupo de trabalho europeu, que analisou os determinantes dos óbitos em unidades de terapia intensiva em pacientes com influenza nos anos 2009-2017, destacou que o risco de falecimento aumentava em 4 vezes no caso de pacientes ventilados, mais não no caso de pacientes que recebiam somente oxigênio. Michael Cox e seus coautores fazem uma interessante observação, em um artigo de 2020, sobre os perigos da ventilação forçada. Pacientes com Covid-19 são mantidos geralmente em ventilação mecânica invasiva por um longo tempo (em média 9,1 dias). Isso aumenta as chances de adquirir infecções bacterianas pulmonares, mesmos fatais. Os mesmos autores lembram que a maioria dos óbitos, causados pela gripe de 1918, foi devida à infecção bacteriana subsequente à infecção viral, particularmente causada pela bactéria Streptococcus pneumoniae. Muitos dos óbitos da pandemia de gripe H1N1, em 2009, também foram associados a co-infecções bacterianas. Uma estimativa sobre a importância das coinfecções  na atual pandemia de Covid-19 aponta que cerca de 50% dos pacientes com Covid-19 morreram com infecções secundárias de origem bacteriana. Este assunto, até hoje, é muito poco estudado. 

Em um artigo de 2019, “Severe influenza: overview in critically ill patients”, Cristina Sarda, Pedro Palma e Jordi Rello relatam que a mortalidade na insuficiência respiratória aguda, nos casos de pacientes em estado crítico, é de cerca 20%, independentemente do tipo de vírus gripais envolvido. A infecção bacteriana secundária ocorre em 20% dos casos graves. As bactérias Streptococcus pneumoniae e Staphylococcus aureus continuam sendo os patógenos prevalentes. 

Do “position paper” da Sociedade Italiana de Diagnóstico Vascular e da Sociedade Italiana de Medicina Vascular retomamos algumas das patologias encontradas no caso da infecção por SARS-Cov-2 e as comentamos à luz do que a literatura científica nos indica há muito tempo.

1) Inflamação como causa de coagulopatia. A correlação entre inflamação e coagulação é amplamente demonstrada dado que um processo inflamatório pode causar uma alteração da coagulação através da ativação de citocinas inflamatórias, entre outras coisas. Se voltarmos até a década de 90, descobriremos que uma revisão bibliográfica da literatura científica já indicava o possível papel negativo desenvolvido das citocinas no sistema hemostático e na trombogênese e que o mecanismo que liga a inflamação e a coagulação foi estabelecido além de qualquer dúvida. Alguns anos depois foram bem descritas as fases da interação entre inflamação e coagulação, o início da coagulação, a diminuição da atividade dos mecanismos anticoagulantes naturais e os danos ao sistema fibrinolítico. Dado que as citocinas inflamatórias são os principais mediadores envolvidos na ativação da coagulação, existe um círculo vicioso entre aumento da inflamação e aumento da coagulação, o que, por sua vez, reforça a inflamação. Os mecanismos anticoagulantes naturais não conseguem controlar este processo e assim a inflamação aumenta. Isso sugere que os anticoagulantes podem representar um tratamento eficaz no caso de síndromes inflamatórias agudas deste tipo.

2) Sinergia entre coagulopatia e infecção viral. Essa síndrome é conhecida desde pelo menos 1967, ano em que McKay e Margaretten publicaram um artigo intitulado “Coagulação intravascular disseminada em doenças virais”, que indicava a coagulação intravascular disseminada como causa de hemorragia devida a infecções virais e sugeria uma adequada terapia anticoagulante para diminuir a morbilidade e a mortalidade. Existem vários artigos científicos, desde a década de 90, que indicam uma ligação entre infecção viral e coagulopatia, entre eles o trabalho de Yuen et al. Do 1998 publicado no The Lancet, entre as revistas médicas mais lidas do mundo. Os autores descrevem o caso de um menino de 3 anos com infecção causada pelo vírus gripal A H5N1 e hospitalizado com sintomas de pneumonia. O memino sofreu de dificuldade respiratória aguda, Síndrome de Reye (encefalopatia infantil rara causada pelo ácido acetilsalicílico em pacientes com infecção viral) que resultou em falência de vários órgãos e coagulação intravascular disseminada. Yuen et al. descrevem e comentam também vários tipos de efeitos patológicos causados pelo vírus da gripe A H5N1, incluindo pneumonia, dificuldade respiratória aguda, coagulopatia, hemorragia pulmonar.

Em resumo, a partir das informações disponíveis, parece que as manifestações patológicas causadas pelo SARS-Cov-2 não são “inéditas” e também “desconhecidas”. Apesar disso, há um esforço claro, que queremos sublinhar, que acompanha a superestimação dos casos de morte pela Covid-19: a tentativa de destacar a novidade absoluta dos achados clínicos devido ao vírus e a impossibilidade de estabelecer meios adequados para se defender contra sua agressividade. Em um artigo de Amy McKeever, publicado em 1 de junho de 2020 no site italiano da National Geographic, intitulado “Inflamações cerebrais, erupções cutâneas, derrames: é por isso que os sintomas mais estranhos do coronavírus estão surgindo apenas agora” e com subtítulo “Esses sintomas assustadores eram previsíveis. Eis o que os cientistas sabem sobre os '‘novos efeitos’' do coronavírus”. O título do artigo permanece, com a ambiguidade usual na apresentação dos fatos, dentro da narrativa catastrófica. “Inédito” e “assustador” são os dois adjetivos que caracterizam toda a matéria, mesmo que lendo atentamente se saiba que os coágulos “misteriosos” atribuídos ao SARS-Cov-2, de que McKeever fala, não eram então tão novos: na verdade, eles já eram conhecidos há cerca de 160 anos, graças às pesquisas de Rudolf Virchow, o fundador da patologia celular.

Conclusões

A tentativa que todas as informações e todas as várias notícias que circulam há meses, na mídia e em artigos científicos, têm por objetivo fazer com que o SARS-Cov-2 seja percebido como uma ameaça mundial e possivelmente perpétua. Ouvimos e lemos sobre um mundo que nunca mais será o mesmo. Um editorial da edição italiana de Morning Future nos informa que “a tempestade passará, mas viveremos em um mundo muito diferente”, no qual teremos que escolher entre vigilância totalitária e responsabilização dos indivíduos, ou entre isolacionismo e solidariedade global. É introduzida uma nova abordagem ética, não resultante de um livre confronto, mas imposta pela realidade da crise sanitária. Em outras palavras, foi decidido que evitar a disseminação de um agente viral (inofensivo para a grande maioria das pessoas afetadas e, como vimos, que tem tudo menos manifestações sem precedentes) constitui uma prioridade ético-política que pode prevalecer sobre qualquer outra. Se não formos capazes de responder a esse desafio, seguindo as prescrições da Big Pharma e de suas organizações de fachada (entre as quais os ministérios e agências de saúde nacionais e internacionais devem ser agora compreendidos) teremos que nos resignar a uma “vigilância totalitária”. Sempre para o nosso bem, é claro. Gordon Lichfield, diretor da MIT Technology Review nos lembra que “Para enfrentar o coronavírus, teremos que mudar radicalmente quase tudo o que fazemos: como trabalhamos, socializamos, compramos, cuidamos da nossa saúde, educamos nossos filhos e cuidamos de nossos familiares”.

Tudo isso por causa de um vírus que, na Itália, tinha causado uma mortalidade de 0,06%, em acordo com a superestimação dos óbitos, e uma mortalidade do 0,01%, de acordo com os cálculos decorrentes dos dados oficiais da mortalidade geral. A este propósito, vale a pena lembrar que os dados oficiais do Istituto Superiore di Sanità italiano mostram que os óbitos totais (todas as tipologias) na classe de idade acima de 65 anos, da estação gripal 2016-2017 foram 44.569, enquanto os óbitos do mesmo período 2019-2020 foram 47.369. Tudo isso em plena crise Covid-19. Então, a diferença do número total dos óbitos entre a estação gripal 2016-2017 e a estação gripal 2019-2020 foi de 2800. Esta pequena diferença, que fica amplamente dentro das normais flutuações anuais dos óbitos, justificou o lockdown, todas as medidas subsequentes, as notícias assustadoras espalhadas pela mídia, que todo o mundo circulasse com máscara e a certeza de que a “pandemia vai voltar”.

Parece que toda a energia usada para fazer com que uma influência, por mais virulenta que seja, se torne a maior crise de saúde da história humana deve ser paga de volta. Do ponto de vista da saúde, estaríamos em uma situação completamente nova (mas descobrimos que não é esse o caso, tendo em conta que as evidências clínicas da Covid-19 já são conhecidas há décadas) e do ponto de vista do tributo à vida humana, enfrentaríamos uma tragédia de proporções nunca vistas (mas descobrimos que os mortos contam apenas quando há interesse em expô-los. Nunca soubemos nada das dezenas de milhares de mortes devidas a complicações geradas por gripes e síndromes semelhantes à gripe, poluição atmosférica, doenças infecciosas contraídas em hospital etc.). Então, não vamos ter muitas ilusões, a pandemia voltará e nem será necessário modificar um patógeno em laboratório. Apenas invente um. Funcionará da mesma maneira.

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