A nova economia espacial avança e o Brasil permanece fora da equação
O país transforma potencial em atraso e transfere para outras nações o controle de tecnologias essenciais ao seu próprio desenvolvimento
Há um dado que, à primeira vista, deveria nos constranger muito mais do que nos orgulhar. Brasil, Rússia, Índia, China e Estados Unidos formam um grupo raríssimo de países que combinam território continental, população acima de 100 milhões de habitantes e Produto Interno Bruto superior a US$ 1 trilhão. É uma elite objetiva da geopolítica contemporânea. No caso brasileiro, porém, essa condição tem servido menos como alavanca de poder e mais como álibi recorrente para justificar a ausência de decisões estruturais. Somos grandes nos números e pequenos nas escolhas.
Recordo a frase de Ozires Silva, fundador da Embraer, gravada na entrada do Centro Espacial do ITA: “o Brasil é grande demais para sonharmos pequeno”. A frase, frequentemente celebrada, revela hoje um contraste incômodo. Transformou-se, ao longo do tempo, em uma espécie de retórica de conforto — repetida com orgulho, mas desmentida pela prática. Porque, ao observarmos as últimas duas décadas, o que se impõe não é apenas a perda de ritmo, mas a consolidação de uma cultura política que naturaliza o atraso como se fosse inevitável.
Enquanto China e Estados Unidos estruturaram programas espaciais contínuos, com investimentos anuais que alcançam dezenas de bilhões de dólares e integração direta com suas estratégias industriais e militares, o Brasil seguiu um caminho errático, marcado por descontinuidade, contingenciamentos e ausência de visão sistêmica. Entre 2000 e 2023, a China investiu cerca de US$ 100 bilhões em seu programa espacial e realizou mais de 500 lançamentos orbitais, consolidando uma infraestrutura que combina soberania tecnológica com capacidade de influência global.
No mesmo período, o Brasil destinou aproximadamente US$ 1,5 bilhão ao setor, somando AEB, INPE e DCTA. Quando se observam os números anuais recentes, a assimetria torna-se não apenas evidente, mas estrutural: os Estados Unidos investem cerca de US$ 70 bilhões por ano; a China, entre US$ 14 e 18 bilhões; Rússia e Índia orbitam entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões; o Brasil mal alcança US$ 50 milhões. Não se trata de atraso circunstancial, mas de uma escolha política reiterada, persistente e, sobretudo, cara em suas consequências.
Não se trata apenas de números. Trata-se de consequências concretas e cumulativas. O agronegócio brasileiro, altamente competitivo, depende cada vez mais de dados orbitais para monitoramento climático, gestão de safras e logística de exportação. A preservação da Amazônia exige sistemas sofisticados de observação da Terra e capacidade autônoma de processamento de dados. Sem investimento consistente, terceirizamos inteligência estratégica e aceitamos, de forma tácita, uma dependência tecnológica que limita nossa soberania e estreita nosso horizonte de decisão.
Quando se está atrás em uma corrida tecnológica, insistir em replicar o estágio anterior costuma ser a forma mais eficiente de permanecer atrás. A história recente da inovação mostra que saltos de paradigma são frequentemente realizados por quem reconhece cedo a obsolescência do modelo dominante. No campo espacial, isso já se desenha com clareza: arquiteturas baseadas exclusivamente em foguetes balísticos tendem a ser substituídas por sistemas híbridos, modulares e potencialmente disruptivos, como elevadores espaciais e plataformas omnidirecionais. Iniciativas como Sandaerospace e Sandaerovator indicam uma mudança de lógica — do lançamento episódico para o acesso contínuo e escalável ao espaço.
Nesse cenário, Conversando recentemente com um amigo especialista em assuntos aeroespaciais, ouvi algo que considero sábio: tecnologias ainda vistas como periféricas no Brasil podem adquirir centralidade estratégica. Microfoguetes, frequentemente tratados como soluções limitadas, podem ser integrados como módulos de sistemas maiores, compondo arquiteturas flexíveis e adaptáveis. Conceitos como estruturas cubo-esfera ou cubo-diamante, baseadas em materiais avançados como o aerografeno 3D-H2 Sandaero-Unimat, apontam para uma engenharia de massa extremamente reduzida, com implicações diretas na eficiência energética e nos custos operacionais. Não se trata apenas de lançar satélites, mas de reconfigurar a própria economia do acesso ao espaço.
As implicações dessa mudança vão muito além da engenharia e já começam a delinear uma disputa concreta por poder e recursos no século XXI. Sistemas modulares e de nova geração não apenas ampliam capacidades: reposicionam países na hierarquia tecnológica global. Operações como captura e eventual mineração de asteroides, hoje ainda em fase experimental, já mobilizam agências e consórcios privados que entendem o espaço como extensão da economia terrestre. A construção de infraestrutura orbital permanente deixou de ser hipótese — é agenda em curso. E mesmo propostas mais ousadas, como plataformas habitáveis em Vênus, entre 50 e 60 quilômetros de altitude — onde pressão e temperatura se aproximam das condições terrestres —, já migraram do imaginário para a pesquisa estruturada. Esse meu colega fez uma síntese incômoda: “quem dominar a logística do acesso contínuo ao espaço não apenas lidera — define as regras”.
Ignorar essa inflexão não é prudência; é autoexclusão deliberada da próxima fronteira econômica e estratégica do planeta.
O espaço, hoje, não é mais fronteira simbólica nem palco de disputas ideológicas da Guerra Fria. É infraestrutura crítica, tão essencial quanto redes de energia ou sistemas financeiros. Países menores, com menos recursos e menor escala econômica, já compreenderam essa mudança e priorizam o setor como vetor de desenvolvimento tecnológico e inserção internacional. O Brasil, entretanto, segue oscilando entre a retórica da grandeza e a prática do subfinanciamento crônico, como se ainda pudesse adiar indefinidamente decisões estruturais.
Nesse contexto, a distorção interna de prioridades torna-se ainda mais evidente. Enquanto o país destina valores irrisórios para áreas estratégicas, o Congresso Nacional ampliou significativamente o volume de recursos direcionados por emendas parlamentares de execução pouco transparente, conhecidas como Emendas PIX. Trata-se de dezenas de bilhões de reais alocados sem conexão clara com um projeto nacional de desenvolvimento. Não é apenas uma questão fiscal; é uma escolha política que desloca recursos do futuro para o presente imediato, reforçando uma lógica de curto prazo que inviabiliza qualquer estratégia consistente.
A percepção desse descompasso torna-se ainda mais aguda quando confrontada com experiências internacionais. Quem já teve a oportunidade de visitar a China ou acompanhar de perto sua dinâmica produtiva percebe que não se trata apenas de investimento em escala, mas de coordenação entre Estado, indústria e academia. O contraste com o Brasil não reside apenas nos números, mas na capacidade de execução, continuidade e alinhamento estratégico. É a diferença entre planejar décadas à frente e administrar crises sucessivas.
Diante desse cenário, a própria arquitetura de governança global revela sinais de anacronismo. A configuração do Conselho de Segurança da ONU, ainda baseada em um equilíbrio de poder do pós-guerra, já não reflete a distribuição real de capacidades econômicas, demográficas e tecnológicas do século XXI. A presença de países como Brasil e Índia nesse seleto grupo de grandes nações reforça a necessidade de revisão desse arranjo, sob pena de aprofundar a desconexão entre legitimidade e poder efetivo no sistema internacional.
A questão deixou de ser tecnológica há muito tempo. Tornou-se um teste implacável de lucidez histórica e de coragem política.
Persistir no subinvestimento não é erro — é decisão consciente de permanecer periférico.
E nenhuma nação do tamanho do Brasil tem o direito de escolher, deliberadamente, a irrelevância.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

