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Kayuã Girardi

Graduado em Ciências Sociais e mestre em Desenvolvimento Regional pela FURB. Doutorando em Geografia pela UFSC, com pesquisas voltadas ao desenvolvimento regional e urbano, formação socioespacial e dinâmicas econômicas. Integra o Grupo de Pesquisa Formação Sócio Espacial: Progresso Técnico e Desenvolvimento Econômico (GEOTDE/UFSC) e o Grupo de Estudos sobre China (GECHINA), vinculado à UnB

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A nova escalada imperialista na América Latina: Venezuela como epicentro de um novo pretexto geopolítico dos Estados Unidos

A ofensiva dos EUA contra a Venezuela revela a tentativa de preservar o petrodólar, conter a multipolaridade e reafirmar sua hegemonia histórica

A nova escalada imperialista na América Latina: Venezuela como epicentro de um novo pretexto geopolítico dos Estados Unidos (Foto: TeleSur)

Em mais um ataque à soberania dos países latino-americanos, os Estados Unidos sequestraram o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, demonstrando, mais uma vez, como se colocam no direito de intervir na política interna de uma nação soberana. Esse comportamento, de caráter hegemônico, ao infringir a soberania venezuelana, viola o direito internacional e ameaça a paz na América Latina e no Caribe.

A Venezuela é um país que, com a Revolução Bolivariana, deixou de se curvar aos interesses econômicos do imperialismo mundial sobre o seu petróleo (as maiores reservas do mundo). Iniciada no final do século XX e consolidada no século XXI sob a liderança de Hugo Chávez, essa revolução transformou a Venezuela de um país periférico no cenário latino-americano em um epicentro de avanços sociais e de políticas radicais no sentido da melhoria da qualidade de vida de seu povo. Desencadeada por eventos como o “Caracazo” (1989), ela não apenas reconfigurou as forças internas do país, mas também se tornou um dos eventos mais significativos da região no novo milênio, resgatando e atualizando o projeto de integração de Simón Bolívar e o legado socialista da Revolução Cubana. Ao introduzir novamente os conceitos de socialismo e luta de classes após a queda da União Soviética na América Latina, o chavismo organizou um grande movimento de contestação da dominação burguesa e imperialista, retirando a esquerda da defensiva imposta pela hegemonia neoliberal.

Durante os governos de Hugo Chávez, a Venezuela registrou um período de crescimento acelerado, impulsionado pela forte atuação estatal na exploração do petróleo, que chegou a patamares próximos de três milhões de barris por dia. Essa capacidade produtiva viabilizou políticas redistributivas de grande escala, resultando em aumento real da renda das camadas mais pobres ao longo da primeira década do século XXI. Em 2005, a UNESCO declarou a Venezuela território livre do analfabetismo, um marco social relevante no contexto latino-americano. No mesmo período, o Índice de Desenvolvimento Humano do país avançou de 0,695, em 1999, para 0,771, em 2013, refletindo melhorias em renda, educação e expectativa de vida. Após a morte do líder bolivariano, teve início uma escalada sistemática de intervenções e pressões externas lideradas pelos Estados Unidos. O cerco econômico e político imposto à Venezuela não tem como objetivo o combate ao narcotráfico nem a defesa abstrata da democracia, mas sim a contenção de um projeto soberano que contrariou interesses estratégicos no sistema energético e financeiro internacional.

Seu sucessor, Nicolás Maduro, foi reeleito presidente em 2024 com 51,20%, o que representa mais de 5 milhões de votos, garantindo seu terceiro mandato e a continuidade do projeto chavista. A vitória, uma das mais difíceis, ocorreu após um período de intensa crise econômica, agravada por um rigoroso bloqueio e sanções dos EUA, que o governo enfrentou com políticas de controle de preços e programas sociais como os CLAPs (Comitês Locais de Abastecimento e Produção). A oposição, desorganizada e com sua principal líder, María Corina Machado, inelegível por irregularidades administrativas e corrupção, apresentou um candidato de unidade, Edmundo González, mas falhou em consolidar propostas concretas para além de um discurso genérico de mudança.

A campanha de Maduro, baseada em seu plano “7 Transformações” e na forte mobilização popular por meio das comunas e da estratégia “1×10”, soube capitalizar uma incipiente recuperação econômica, com a queda da inflação e a estabilização do bolívar, fatores que garantiram sua reeleição de forma legítima, apesar de todas as agressões e do isolamento político sofridos. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) indica que, em 2025, o PIB venezuelano cresceu 6,5%, ficando atrás apenas do explosivo crescimento da Guiana (15,2%). Além disso, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) classifica o país como um caso de resiliência no combate à fome, tendo reduzido a taxa de subnutrição em 11,7% entre 2022 e 2024, retirando 3,3 milhões de pessoas da fome. Esses avanços foram conquistados mesmo em um contexto de emigração significativa e sob o peso de mais de mil sanções, que formam um bloqueio econômico, impedindo a Venezuela de vender seu petróleo livremente no mercado mundial há mais de uma década.

O que está em disputa não é apenas o controle da maior reserva de petróleo do planeta, mas a sustentação do sistema financeiro internacional baseado no petrodólar. Em 1974, a Arábia Saudita, principal liderança da OPEP, firmou um acordo estratégico com os Estados Unidos que estabeleceu a venda do petróleo exclusivamente em dólares. Na sequência, os demais países da organização adotaram o mesmo modelo. Esse arranjo criou artificialmente uma demanda permanente pela moeda estadunidense, permitindo aos EUA se autofinanciarem a custos reduzidos, manterem juros mais baixos e operarem déficits fiscais e comerciais crônicos sem provocar colapsos internos. Historicamente, qualquer país que tentou romper com esse sistema sofreu retaliações severas. O Iraque de Saddam Hussein foi golpeado após anunciar a adoção do euro nas transações de petróleo, assim como a Líbia de Muammar Gaddafi após propor uma moeda pan-africana lastreada em ouro. Nesse contexto, a recuperação econômica recente da Venezuela não é um detalhe irrelevante: mesmo sendo barrado na adesão ao BRICS+ pelo Brasil, o país passou a driblar os bloqueios econômicos comercializando cerca de 80% do seu petróleo com a China, utilizando o renminbi (yuan), além de transações em rublo e euro, desafiando diretamente a lógica do petrodólar.

No último ano de Maduro no poder, a Venezuela demonstrou uma retomada econômica com a tentativa de se recuperar de um embargo econômico sem precedentes promovido pelos EUA. Entre 2014 e 2025, o país foi vítima do cerco estadunidense por meio de um embargo amplo (Lei 113-278), da ordem executiva 13692, da ampliação de sanções contra setores econômicos venezuelanos e de sanções energéticas severas à PDVSA (estatal petrolífera). Para se ter noção do impacto desse cerco econômico, pode-se comparar o PIB total em 1999, que era de 115 bilhões de dólares, chegando a 258,9 bilhões de dólares em 2013 (período de Hugo Chávez), e a 119,8 bilhões de dólares em 2024, aproximando-se dos patamares pré-chavistas após mais de uma década de embargo.

No século XXI, os EUA continuam a interferir na política interna de diversos países, o que frequentemente gera crises institucionais e convulsões sociais. Nos países onde a democracia liberal está institucionalizada, torna-se mais fácil uma intervenção com viés político e econômico a partir do momento em que seus governos deixam de servir aos interesses do imperialismo. Por isso, o golpe na Venezuela não está sendo fácil: mesmo com Trump sequestrando Maduro, o povo venezuelano está nas ruas, com apoio da Força Armada Nacional Bolivariana e da vice-presidente Delcy Eloína Rodríguez Gómez. O histórico demonstra que irão intervir direta ou indiretamente em cada nação que dê qualquer sinal de reação ou independência. Existem diferentes formas de intervenção no século XXI: sanções econômicas (Venezuela, Cuba, Nicarágua), guerra jurídica (lawfare) (Brasil, Equador, Argentina), financiamento de oposição via ONGs e fundações (NED, USAID, IRI), golpes brandos ou parlamentares (Honduras, Paraguai, Bolívia), operações de inteligência e cibernéticas, guerra midiática e desinformação.

Por trás do pretexto discursivo de combate ao narcotráfico, restauração democrática e crise humanitária, encontra-se, na verdade, a tentativa de conter a influência russa e chinesa no “quintal” tradicional do império, bem como o esvaziamento da integração autônoma, com o enfraquecimento da UNASUL e da CELAC. Isso deixa a América Latina permanentemente vulnerável à ingerência externa. A Venezuela é a amostra mais visível desse processo sob três eixos principais: 1) controle de recursos, para reaver influência sobre as maiores reservas de petróleo do mundo; 2) confronto geopolítico global, para enviar um sinal claro à Rússia e à China de que os EUA não tolerarão esferas de influência rivais em seu hemisfério; e 3) reafirmação da hegemonia regional, para reverter o ciclo de governos de esquerda e projetos de integração autônomos (como o bolivariano) que desafiaram sua liderança.

Essas intervenções têm sempre o objetivo de se apropriar de setores estratégicos, recursos e do controle territorial, além de expandir o sistema neoliberal que impede o desenvolvimento econômico e a autodeterminação nacional. Essa lógica acarretaria o fim da independência e da soberania, perpetuando o colonialismo e a servilidade. As intervenções militares e os golpes orquestrados estão diretamente ligados às políticas econômicas neoliberais e a um domínio cultural que estrangula qualquer reação contrária. Diante disso, é fundamental pensar em um modelo econômico latino-americano baseado no desenvolvimento, na justiça social e na soberania nacional, integrando os países para um pleno desenvolvimento.

Trata-se de rejeitar um sistema político e econômico criado em outra realidade, que tem como objetivo a eterna exploração de uma nação sobre outra. A Venezuela é o exemplo disso: desde a Revolução Bolivariana, nunca se curvou aos interesses dos Estados Unidos, não implementou medidas neoliberais em sua economia e não permitiu que empresas estrangeiras explorassem seu petróleo. Sua trajetória de resistência e seus planos de desenvolvimento, iniciados sob a liderança de Hugo Chávez, são um exemplo a ser seguido por toda a esquerda latino-americana, pois demonstram, mesmo com todas as contradições, que uma América Latina soberana e independente é possível.

A Doutrina Monroe está de volta, e a Venezuela hoje é o principal campo de batalha dessa nova fase, na qual os princípios históricos de hegemonia estadunidense foram reativados e modernizados para os desafios enfrentados no século XXI. A América Latina e o Caribe encaram novamente o dilema histórico entre autonomia e dependência. Esse cenário de pressão imperialista contra a Venezuela inflama feridas históricas não curadas e promove a desestabilização do continente. O Brasil, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é um dos atores centrais para a formulação de uma política externa latino-americana ativa, que defenda a soberania e a não intervenção como pilares principais. Buscar seu lugar nessa nova ordem multipolar emergente, com destaque para o protagonismo no BRICS+, é um caminho estratégico para alcançar o pleno desenvolvimento e a soberania para o povo latino-americano e caribenho.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.