A nova Marina e a agenda da velha direita

A nova Marina, agora já revelada, não representa o aprofundamento das conquistas obtidas nos 12 anos de PT, representa, isto sim, o caminho contrário

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É estarrecedor o processo de mutação ideológica pelo qual vem passando a candidata Marina Silva. Fundadora do PT e militante histórica da esquerda brasileira, Marina entrega-se, dia após dia, para o espanto dos atores políticos do campo progressista nacional, ao discurso e ao projeto daqueles que ela combateu por tantos anos: os representantes da elite econômica.

Enquanto Lula, em 2002, aceitou caminhar mais ao centro forjando uma coalizão que unia campo popular e setor produtivo, relativizando, mas não abandonando a agenda histórica do PT, Marina mergulha de cabeça no oceano do conservadorismo econômico e político da direita nacional, construindo uma candidatura que tem como base de sustentação, de maneira semelhante ao ocorrido com FHC em 94 e 98, parte da classe média e o setor financeiro, além da mídia empresarial sempre disposta a tirar um governo menos ortodoxo do poder, como tentou em 1954 e como conseguiu 10 anos depois. A nova Marina abraçou a agenda da velha, mas renovada direita.

Explico.

As eleições desse ano ocorrem em meio a uma das maiores crises econômicas da história do capitalismo, provocada pelo hiperliberalismo econômico, hegemônico nos países centrais. A supremacia do sistema financeiro que caracteriza esse modelo hegemônico compromete as conquistas sociais do Estado de bem estar, além de enfraquecer a legitimidade da democracia na medida em que faz dos governos meros espaços de aclamação dos ditames financistas em detrimento das conquistas sociais da maioria da população. Como resposta a essa realidade eclodiram importantes manifestações de rua nesses países. Os indignados, jovens e trabalhadores em geral, protestaram e protestam por mais democracia, mais direitos e menos poder para a turma insaciável de Wall Street.

No Brasil, Lula e Dilma, apesar de não mexerem na intocável divida pública, deixando assim de encarar o problema da apropriação de boa parte de nossa riqueza pelos rentistas, negaram-se a tratar os efeitos da crise com a ortodoxia europeia. Não comprometeram a geração de emprego nem suspenderam o aumento médio do salario, tampouco atacaram as politicas sociais, como ocorreu na Europa. Isso não é pouco. Mesmo assim a população, ano passado, ávida por respostas mais rápidas diante do acumulo histórico gigantesco das desigualdades no Brasil, foi às ruas também por aqui exigindo mais direitos que aqueles conquistados durante o período petista, num fenômeno que ficou conhecido como "jornadas de junho".

Marina colocou-se prontamente, especialmente para os jovens, como essa alternativa de mais direitos. Ledo engano. A nova Marina, agora já revelada, não representa o aprofundamento das conquistas obtidas nos 12 anos de PT, representa, isto sim, o caminho contrário. A sua candidatura incorpora a linguagem difusa das jornadas de junho tentando canalizar a esperança de parte da juventude para a realização de um projeto reacionário camuflado pela imagem de "outsider" que tenta chegar à presidência para "mudar" a política. Prometendo mais direitos, Marina entregará mais neoliberalismo. Essa candidatura, portanto, como resposta aos entraves que nos separam do bem estar social e do aprofundamento da democracia, agenda premente do país, nada mais é que uma farsa. É curioso que no caso do Brasil, e isso diz muito sobre os governos Lula e Dilma, a candidatura do governo seja justamente a mais avançada na busca pela ampliação de direitos, entre os candidatos com chances de vitória. É Dilma que propõe a renovação da política ao ser a única a encarar o congresso e defender o plebiscito popular pela reforma.

É Dilma que representa a "democratização da democracia" quando defende abertamente a democratização da mídia a partir da regulação econômica, o fortalecimento dos conselhos populares e das conferencias nacionais. É Dilma que representa a garantia da centralidade do Estado na condução da economia em busca de mais espaço para politicas sociais, para a garantia do emprego, da renda e do combate às desigualdades. A nova Marina, em direção contraria, apresenta o programa que propõe as respostas mais conservadoras. Bradar em favor da independência do Banco Central, defender a radicalização do sacrossanto "tripé macroeconômico", jogar no ar a possibilidade do  fantasma da terceirização, insinuar a desregulação do pre sal, propor um conselho de responsabilidade fiscal composto por "técnicos" para controlar o orçamento público, não enfatizar a importância da integração latino-americana, além de pôr em duvida as conquistas da CLT representam o que de mais ortodoxo há no cardápio eleitoral desse ano.

Representa importar a resposta reacionária e predatória dos governos europeus que sangram os trabalhadores e a juventude por lá. E ela propõe tudo isso a partir de um conceito de "nova política" conservador que deseduca, despolitiza e desmobiliza ao negar a dimensão do conflito como elemento transformador da política e estabelecer a disputa fantasiosa entre o bem e o mal, entre os bons técnicos e os maus políticos. 

A Marina líder dos explorados da floresta abre espaço agora para a Marina dos insaciáveis da Avenida Paulista. A Marina sucessora política do líder popular Chico Mendes abre espaço para a nova Marina herdeira do político profissional Eduardo Campos. Sai de cena a liderança forjada pela teologia da libertação e pelo comunitarismo e surge a candidata dos fundamentalistas da teologia da prosperidade que reduzem o mistério da transcendência e a conquista da paz social ao puro êxito econômico individual. Sai de cena a líder partidária coerente e surge a política de carreira sem identidade partidária disposta a ajoelhar-se diante do altar do deus mercado em busca de guarida eleitoral.

Marina mudou de lado. E a euforia do mercado financeiro a cada nova subida dela nas pesquisas fala algo sobre isso. A nova Marina não é mais enigma. É talvez o caso mais relevante e evidente de mutação ideológica da historia recente do país. Caso vença, poderá ocupar lugar na historia como a liderança que reconduziu a direita nacional ao poder realinhando nossa política à ortodoxia dos países centrais, interrompendo assim um ciclo de inclusão jamais visto na historia da nossa República. Esperemos, para o bem do Brasil, que a farsa não encontre chances de se transformar em tragédia.

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