A nova realidade das disputas político-eleitorais

A candidatura Marina surfou no emocional, por algum tempo, e sobre a intensa campanha mantida pela mídia contra Dilma, seu governo e sobre o PT. À campanha de Marina só resta insistir no apelo emocional da “nova política”

Os partidos de oposição ainda não se deram conta da nova realidade da disputa política, inaugurada nestas eleições. O progressivo avanço recente de Dilma Roussef nas pesquisas eleitorais, principalmente sobre o público eleitor mais esclarecido e de maior renda, é a mostra dessa nova realidade, particularmente quando vemos que esse ascenso veio em decorrência de um debate cujos fundamentos não são emocionais, mas consistentemente políticos e racionais. Ao se dar conta do fenômeno Marina, a campanha de Dilma inicialmente reagiu apelando por compará-la a Collor e Jânio, um apelo emocional. Mas esse caminho logo foi abandonado e a campanha passou a debater a criminalização da homofobia, independência do Banco Central e a conquista de maioria no Congresso. Colocar o debate nesse patamar foi uma ousadia da campanha que conseguiu reverter tendências neste momento, a ponto de jogar para segundo plano toda a campanha envolvendo a delação premiada sobre a Petrobrás – cujo caráter é centralmente emocional. Atônitos, os jornalistas da mídia comprometidos com o combate à candidata Dilma, saíram em busca de um norte: passaram a defender Marina contra o que chamaram a "agressividade" do PT, e gastaram muita tinta buscando desfazer os argumentos de Dilma sobre a independência do Banco Central.

A reação da campanha petista está apoiada na postura incisivamente forte que a candidata assume em defesa das suas propostas, mostrando amplo domínio de todos os temas de governo, e defendendo com absoluta racionalidade suas ações e perspectivas, mostrando que cada ação está articulada com um plano estratégico mais amplo. É particularmente ilustrativa do seu estilo a entrevista desta última sexta feira ao jornal O Globo (veja aqui). O profissionalismo da presidenta espantou os entrevistadores acostumados a ouvir os ecos das próprias palavras, e os deixou na mais completa defensiva em todas as questões, inclusive quando se tocou no "escândalo Petrobrás". Alí ficou evidente que o governo Dilma Roussef inaugurou uma nova prática e um novo conceito de gestão, cujas características são marcadas por um profissionalismo de quem domina todas as áreas de ação do governo e opera sobre um projeto que tem fundamento, lógica interna, perspectiva de desenvolvimento e que é permanentemente testado.

É verdade, no entanto, que não se trata de uma política elaborada nas estruturas partidárias, mas resultado de uma prática liderada pela presidenta. Esse seu estilo implantado no governo federal foi construído desde 2005, quando Dilma assume a Casa Civil em meio à profunda crise que se abateu sobre o governo Lula, reerguendo um governo que estava em grande medida à deriva num mar agitado de boas intenções. Sua eleição em 2010 aprofundou sua prática particularmente porque Dilma elegeu-se sem precisar, ela mesma, assumir compromissos políticos de todo tipo, típicos dos nossos processos eleitorais. A partir daí, a presidenta se fechou em copas, passou a impor essa racionalidade republicana que lhe interessava a tudo que estava ao seu alcance, até começar a enfrentar críticas do próprio PT contra a falta de diálogo. 

Esse estilo de gestão traz para o país uma nova realidade em que o público eleitor é colocado frente a questões que envolvem a independência do Banco Central, o financiamento de campanha, a lógica das coalizões, a entender de onde virão recursos para os investimentos propostos etc. Os partidos de oposição não se deram conta dessa nova realidade. O PSDB, tradicionalmente colocado como a marca da competência técnica e do profissionalismo na gestão pública, está mostrando, ao contrário, a mais completa incompetência em disputar os rumos das políticas sociais e das linhas de desenvolvimento econômico. Não é preciso dizer que o próprio capital representado pelo PSDB já desembarcou da candidatura Aécio. As candidaturas à esquerda sofrem de um doutrinarismo que as coloca todas à margem da disputa política real porque não incidem sobre o debate do que está efetivamente posto: simplesmente aproveitam o espaço publicitário para divulgação de suas propostas estratégicas. Todas terminam soando estranhas e distantes.

A candidatura Marina surfou no emocional, por algum tempo, e sobre a intensa campanha mantida pela mídia contra Dilma, seu governo e sobre o PT. À campanha de Marina só resta insistir no apelo emocional da “nova política”, porém sabendo que ela estará se defrontando – principalmente num segundo turno em que só as duas estarão frente à frente – com uma candidata que tem uma postura de estadista na construção e defesa de suas propostas de governo. Se o emocional da campanha de Marina será capaz de vencer a racionalidade do programa proposto por Dilma, essa será a medida do avanço da politização de diferentes camadas da população a ser estudada, e, por decorrência, de uma nova realidade política no país.

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