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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A nova realidade tornou obsoleta a velha ordem

Iniciativa anunciada pela China recoloca em discussão organismos internacionais desenhados para um mundo que deixou de existir décadas atrás

A nova realidade tornou obsoleta a velha ordem (Foto: CGTN)
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As dificuldades enfrentadas pelas instituições internacionais não surpreendem estudiosos que, ainda na primeira metade do século XX, previram que a crescente integração econômica, tecnológica e humana exigiria formas mais amplas de cooperação entre os povos. As estruturas construídas em 1945 foram decisivas para evitar novos conflitos mundiais, mas passaram a conviver com limitações cada vez mais visíveis diante de uma realidade profundamente transformada. Entre os pensadores que anteciparam essa realidade, destacou-se Shoghi Effendi (1897-1957), cuja reflexão merece não apenas ser lida, mas continuamente meditada por todos os que se preocupam com o futuro e o bem-estar da humanidade.

Foi nesse contexto que a China divulgou, na quarta-feira (17), o livro branco Governança Global Mais Justa e Equitativa: Princípios, Propostas e Ações da China. O documento, publicado pelo Departamento de Comunicação do Conselho de Estado, apresenta a visão de Pequim sobre a reforma das instituições internacionais e defende maior participação dos países em desenvolvimento nos processos decisórios globais.

A iniciativa surge em meio a um ambiente de forte instabilidade geopolítica. A guerra na Ucrânia continua sem perspectiva de encerramento, o Oriente Médio vive novos focos de tensão e a disputa estratégica entre China e Estados Unidos se estende para áreas como inteligência artificial, minerais críticos, semicondutores e cadeias globais de produção.

No mesmo dia da divulgação do livro branco, os países do G7 anunciaram novas medidas para reduzir a dependência em relação aos minerais raros controlados pela China. O episódio demonstra que a competição econômica e tecnológica entre as grandes potências se tornou um dos elementos centrais da política internacional contemporânea.

O documento chinês sustenta que a ONU deve permanecer no centro do sistema internacional e que a governança global precisa refletir melhor a distribuição atual do poder econômico e demográfico. Segundo Pequim, as respostas aos desafios globais exigem consultas mais amplas, benefícios compartilhados e maior presença dos países do Sul Global.

A proposta está associada à Iniciativa de Governança Global, lançada por Xi Jinping em 2025. Autoridades chinesas afirmam que quase 160 países e organizações internacionais já manifestaram apoio à iniciativa e que mais de 60 países participam do Grupo de Amigos da Governança Global.

Durante a apresentação do documento, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, defendeu maior representação dos países em desenvolvimento nas decisões internacionais e advertiu que a humanidade atravessa um período de crises interligadas.

No Ocidente, a iniciativa é recebida com reservas. Governos e analistas enxergam na estratégia chinesa uma tentativa de ampliar a influência política de Pequim sobre a futura arquitetura internacional. Afinal, toda discussão sobre governança global também envolve disputa por poder, influência e capacidade de estabelecer regras.

Confesso que acompanho esse debate com crescente interesse, porque me parece evidente que as instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial chegaram a um ponto de esgotamento relativo. Elas foram fundamentais para preservar décadas de estabilidade, mas o mundo que lhes deu origem desapareceu. A economia mudou, a tecnologia mudou, a distribuição do poder mudou. As instituições, porém, continuam avançando em ritmo muito mais lento do que os problemas que deveriam enfrentar.

A composição do Conselho de Segurança da ONU permanece praticamente a mesma de oitenta anos atrás. África e América Latina continuam sem assentos permanentes. Organismos financeiros internacionais ainda refletem a correlação de forças do pós-guerra. Enquanto isso, pandemias, mudanças climáticas, fluxos migratórios e conflitos regionais demonstram diariamente que os grandes desafios contemporâneos já não respeitam fronteiras.

Também me parece impossível ignorar uma constatação cada vez mais evidente. A humanidade tornou-se interdependente muito antes de suas instituições reconhecerem essa realidade. Persistir em respostas exclusivamente nacionais para problemas globais produz apenas paralisia, frustração e crises sucessivas. O século XXI está expondo, de forma implacável, a distância entre um mundo cada vez mais integrado e mecanismos de governança concebidos para uma era que já terminou.

A discussão sobre a reforma da ordem internacional deixou de ser uma abstração acadêmica. Tornou-se uma necessidade histórica. A pergunta que realmente importa não é se a atual arquitetura global sobreviverá intacta. Ela não sobreviverá. A questão decisiva é outra: a humanidade será capaz de reformar essas instituições pela cooperação e pelo diálogo ou esperará que novas crises, guerras e colapsos façam esse trabalho de maneira muito mais dolorosa?

Não existe dilema verdadeiro diante dessa realidade. As evidências estão sobre a mesa há décadas. O que falta aos governantes do mundo não é informação nem diagnósticos mais sofisticados. Falta apenas a coragem de aplicar o velho e indispensável bom senso.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.