A ofensiva contra o STF em pleno ano decisivo lembra Lava Jato
Uma estratégia conhecida ressurge às vésperas da eleição: desgastar o Supremo para minar a democracia e reabilitar o método que afastou Lula em 2018
O Brasil entra em mais um ciclo eleitoral carregando feridas que nunca cicatrizaram. A Lava Jato, desmontada juridicamente e exposta moralmente, deixou um rastro de destruição institucional, perseguição política e manipulação judicial que marcou a história recente. Agora, às vésperas de uma nova disputa presidencial, surge um movimento que lembra — e muito — o roteiro de 2018: a tentativa de transformar o Supremo Tribunal Federal em inimigo público, desgastando ministros específicos para fragilizar a instituição como um todo.
Primeiro, o alvo foi Alexandre de Moraes. Agora, a artilharia se volta contra Dias Toffoli. A ofensiva é coordenada, ruidosa e amplificada por setores da mídia corporativa, parlamentares da direita e redes bolsonaristas. E, para muitos observadores, não há como ignorar o contexto: pesquisas mostram Lula em posição favorável, e a máquina de desinformação volta a operar com intensidade.
Enfraquecer o STF para minar a democracia
A crítica legítima faz parte da vida republicana. O que se vê agora, porém, é uma campanha de corrosão institucional. O objetivo não é fiscalizar ministros — é deslegitimar o Supremo como árbitro constitucional.
A tática é conhecida:
- transformar ministros em alvos pessoais,
- criar um clima de suspeição permanente,
- desgastar a imagem do tribunal,
- mobilizar a base radicalizada,
- pressionar decisões judiciais
- e, sobretudo, preparar terreno para contestar o ambiente eleitoral.
A "Caixa Amarela" e o pânico dos operadores do lawfare
A ofensiva contra Toffoli cresceu justamente após ele autorizar a apreensão da chamada “caixa amarela”, contendo gravações e documentos que podem comprometer figuras centrais da Lava Jato, incluindo Sergio Moro e Deltan Dallagnol. A coincidência temporal não passou despercebida.
A caixa apreendida em Curitiba contém centenas de horas de gravações clandestinas, documentos e mídias que podem revelar práticas ilegais atribuídas a Moro e procuradores da Lava Jato. O material inclui:
- conversas gravadas sem autorização,
- orientações políticas,
- manipulação de processos
- e indícios de espionagem ilegal.
A simples possibilidade de que esse conteúdo venha à tona provocou uma reação imediata. A máquina de ataques se voltou contra Toffoli com intensidade incomum. Não se trata de defesa da moralidade — trata-se de defesa da narrativa.
A Lava Jato, mesmo desmontada, ainda é o pilar simbólico de setores que dependem dela para justificar seu projeto político. Se a caixa expuser o que muitos suspeitam, o castelo desmorona de vez.
Ano eleitoral: o momento certo para o golpe narrativo
Com pesquisas indicando vantagem de Lula, a ofensiva contra o STF ganha contornos ainda mais claros. A estratégia busca:
- reacender o antipetismo,
- criar instabilidade institucional,
- desgastar ministros que enfrentam a direita bolsonarista ou não,
- reduzir a credibilidade de decisões judiciais
- e tensionar o ambiente político para influenciar o processo eleitoral.
Não se trata de prever resultados — trata-se de observar padrões. E o padrão é conhecido: quando Lula cresce, cresce também a pressão sobre o Judiciário.
Foi assim em 2018, quando a Lava Jato impediu sua candidatura. Há sinais claros de que há quem tente repetir a fórmula.
Moraes e Toffoli devem explicações
A ofensiva contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli segue o mesmo roteiro:
- vazamentos seletivos,
- insinuações sem prova,
- ataques pessoais,
- pressão midiática,
- linchamento digital,
- narrativa de “crise institucional” fabricada.
Se existem elementos sobre condutas envolvendo Alexandre de Moraes e o Banco Master — incluindo o contrato milionário atribuído ao escritório de sua esposa e filhos —, Moraes tem o dever político de esclarecer. O mesmo vale para Dias Toffoli: se há questionamentos ligados ao Resort Tayayá, cabe esclarecimento e atuação das instâncias competentes.
Denúncia se faz à Justiça. O que não se admite é transformar rumor em condenação da instituição. A máquina corporativa e as redes bolsonaristas não querem apurar: querem julgar sem prova, sem rito e sem defesa. E o Brasil já viu esse filme. Teve nome e consequência eleitoral: Lava Jato. Foi nesse clima de caça política, com apoio midiático industrial, que Lula foi preso por 580 dias e afastado da eleição de 2018, abrindo caminho para Bolsonaro — embalado no cinismo histórico do “sem provas, mas com convicções”.
Se existirem irregularidades, que sejam tratadas como manda a lei. O Brasil não precisa de ministros intocáveis — mas não pode aceitar a volta do método que substitui Justiça por tribunal de imprensa e pelotão de fuzilamento moral em rede social.
O roteiro revisitado de 2018
A semelhança com o passado é clara. Em 2018, a Lava Jato operou como força política, com apoio midiático, para retirar Lula da disputa. Hoje, a ofensiva contra o STF reaparece justamente quando o tribunal revisita abusos da operação. A estratégia de transformar ministros em inimigos públicos volta a ser usada para tensionar o ambiente democrático. A máquina de desinformação opera com a mesma lógica: destruir reputações para destruir instituições.
Quem ganha com um STF fragilizado às vésperas de uma eleição?
A direita, o Centrão e o que resta do bolsonarismo não querem um STF “melhor”. Querem um STF dócil. E, se não puderem domesticá-lo, tentam destruí-lo pelo desgaste, pelo pânico moral e pela chantagem permanente. O ataque a Moraes e Toffoli não é sobre indivíduos: é sobre o lugar do Supremo quando, mesmo com contradições, impõe limites ao avanço autoritário.
O Brasil tem duas saídas diante dessa ofensiva: consolidar a responsabilização do golpismo e impedir sua volta sob nova máscara, ou aceitar sua reabilitação como se fosse “normalidade”. Em 2026, a disputa não será apenas por um governo. Será pelo direito de o povo escolher sem chantagem, sem milícia digital e sem ameaça permanente de exceção.
No fim, essa campanha não é sobre “liberdade”. É sobre poder. É sobre impor a regra não escrita do autoritarismo moderno: quando o povo escolhe contra os de cima, a democracia deve ser “corrigida”. E toda vez que essa lógica venceu, o país ficou mais injusto, mais dependente, mais violento. E a democracia paga o preço de existir.
O método lavajatista não pode voltar
O Brasil já pagou caro demais para aceitar, novamente, a transformação da Justiça em arma política. A Lava Jato não foi um erro isolado. Foi um projeto de poder. Um projeto que manipulou provas, destruiu reputações, interferiu no processo eleitoral e entregou o Brasil ao extremismo. Um projeto que rasgou garantias constitucionais em nome de uma cruzada moral que nunca existiu — e que, hoje, tenta renascer travestido de “indignação seletiva” contra ministros do STF.
É preciso dizer com todas as letras: o método Lava Jato não pode voltar. Não pode ser tolerado. Não pode ser normalizado. Não pode ser reciclado pela mídia corporativa nem reembalado pelas redes direitistas e bolsonaristas.
O que está em curso não é fiscalização — é guerra política. Não é busca pela verdade — é tentativa de fabricar crise. Não é defesa da moralidade — é ataque à democracia. O alvo imediato pode ser Toffoli ou Moraes, mas o objetivo final é outro: destruir a autoridade do Supremo para enfraquecer o processo eleitoral e reabilitar o projeto político que nasceu do golpe jurídico de 2018.
O Brasil não pode cair novamente na armadilha do “sem provas, mas com convicções”. Não pode aceitar que suspeitas virem sentenças, que rumores virem manchetes, que linchamentos digitais substituam o devido processo legal. Não pode permitir que a máquina de destruição de reputações volte a operar como se nada tivesse acontecido — como se Lula não tivesse sido arrancado da eleição de 2018 por um juiz parcial, como se o país não tivesse sido empurrado ao abismo por uma operação que se acreditava acima da Constituição.
A democracia brasileira não sobrevive a uma segunda Lava Jato. E é exatamente por isso que a ofensiva contra o STF precisa ser compreendida pelo que é: uma tentativa de reabrir a porta para o mesmo método que já devastou o país.
Se há irregularidades, que sejam investigadas. Se há dúvidas, que sejam esclarecidas. Se há crimes, que sejam punidos.
Mas o Brasil não pode — não deve — aceitar que a Justiça volte a ser sequestrada por interesses políticos, econômicos e midiáticos.
A história já mostrou o preço desse erro. E não há país que sobreviva duas vezes ao mesmo golpe.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
