A pandemia e o pandemônio

"Com a permanência de Bolsonaro no Palácio do Planalto as perspectivas são mais sombrias ainda, porque ninguém consegue vislumbrar, na linha do horizonte, um fio de esperança de alguma mudança a curto prazo", argumenta o jornalista Ribamar Fonseca

(Foto: Reprodução)
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Ribamar Fonseca

O Brasil está vivendo, ao mesmo tempo, uma pandemia e  um pandemônio. Com mais de 300 mil mortos pela covid o país se tornou o epicentro da doença no mundo,  enquanto o Presidente da República, cuja negligência no combate ao vírus é apontada como a principal causa do alto índice de mortalidade, se mostra empenhado em lançar a população contra governadores e prefeitos, provocando um verdadeiro pandemônio com ameaças de golpe, demissão de ministros e uma produção gigantesca de fake news que confunde a cabeça dos mais tolos. A confusão é tamanha, sobretudo depois da mudança nos comandos militares, que as vezes fica difícil saber o que é mentira e o que é verdade.  E o país  do carnaval e do futebol, assistindo à destruição de suas grandes conquistas,  das suas mais importantes estatais, o desemprego em massa  e o seu retorno ao mapa da fome, substituiu a alegria pelo choro, sofrendo a dor das milhares de  vidas perdidas.

Com a permanência de Bolsonaro no Palácio do Planalto as perspectivas são mais sombrias ainda, porque ninguém consegue vislumbrar, na linha do horizonte, um fio de esperança de alguma mudança a curto prazo. Mas – cabe a pergunta – por que o país chegou a essa situação  terrível? Existem vários responsáveis, mas os principais são a mídia corporativa, à frente a Globo, e a Lava-Jato. A Globo  desenvolveu uma raivosa campanha antipetista ao longo dos últimos dez anos, fazendo a cabeça de parte da população e preparando o terreno para Bolsonaro, que teve sua caminhada para a Presidência da República facilitada pelo então juiz Sergio Moro, que removeu o principal obstáculo à sua ascensão ao poder: Lula. E com seu discurso radical, que prometia metralhar os petralhas, sob os aplausos entusiásticos da multidão enlouquecida,  Bolsonaro conquistou os votos dos que se tornaram antipetistas. Mas, segundo uma máxima atribuída a Confúcio,”é possível enganar todo o povo durante algum tempo; é possível enganar parte do povo durante todo o tempo, mas ninguém  consegue enganar todo o povo durante  todo o tempo”.    

Até hoje Bolsonaro não governou, deixando o país  à deriva, sem rumo, perdendo as posições mundiais conquistadas nos governos petistas e tornando-se praticamente um pária internacional. Tem-se a impressão de que ele brinca de presidente, posando de pop star, deslumbrado com os aplausos. Ninguém pode contrariá-lo ou sequer dizer que ele é feio, razão porque troca ministros com certa facilidade. Na verdade, parece completamente perdido no poder, constituindo-se no maior adversário de si mesmo, provocando frequentes crises que o deixam enfraquecido. E agora,  isolado pelos militares da ativa depois de demitir os comandantes que não embarcaram no seu projeto ditatorial e sem o guarda-chuva do presidente norte-americano, procura equilibrar-se no escorregadio apoio do Centrão, cujos líderes seguram na gaveta as dezenas de pedidos de impeachment. Até quando ninguém sabe, sobretudo porque é cada vez maior a pressão interna e externa pelo seu afastamento diante da sua omissão no combate à pandemia, que a cada dia aumenta o número de vitimas fatais.

Além de todos os problemas que deixou acumular, que se  refletem na economia inclusive com o fechamento de fábricas de veículos, Bolsonaro também perde o sono com seu pior pesadelo: Lula, que recuperou os  direitos políticos e cresce nas pesquisas de intenção de votos.  Neste ponto ele se une a outros adversários do ex-presidente petista para impedir o seu retorno ao Palácio do Planalto. O ministro Edson Fachin, do STF, que surpreendeu todo mundo ao anular as condenações de Lula por incompetência da Justiça de Curitiba, já dá sinais de que se arrependeu, havendo a possibilidade de voltar atrás da sua decisão  na plenária da Corte Suprema do próximo dia 14, quando a questão será julgada a pedido da PGR. O plano de Fachin, na verdade, ao anular as condenações de Lula, não foi reparar uma injustiça mas esvaziar o julgamento da suspeição de Moro. Deu tudo errado, porém, porque Gilmar Mendes manteve o julgamento e o ex-juiz foi declarado suspeito. É possível que o plenário da Corte derrube a decisão de Fachin, com o voto dele mesmo,  mas se isso acontecer o Supremo se desmoraliza de uma vez, pois ficará caracterizado mais uma vez o  comportamento político  do Judiciário em todas as instâncias. 

Na verdade, as  forças que se mobilizaram para impedir Lula de concorrer às eleições presidenciais de 2018, com a decisiva participação de Sergio Moro, são as mesmas que voltaram a se mexer com a decisão de Fachin. E através do PGR Augusto Aras tentam manietar de novo o líder petista usando o Supremo Tribunal Federal como instrumento político, a exemplo do que fizeram com a Lava-Jato, mas ninguém acredita que o novo comandante do Exército repetirá o gesto de intimidação do ex-comandante Villas-Boas.  Considerando a surpreendente  posição antipetista de ministros  indicados pelos governos petistas, responsáveis em parte pelo afastamento de Lula das eleições passadas, parece difícil um prognóstico sobre o resultado do julgamento do dia 14,  mas qualquer que seja o veredito não há dúvida de que ele terá reflexos diretos na sucessão presidencial de 2022 e, consequentemente, no futuro do país. Os ministros da Suprema Corte, portanto, devem pesar com espírito patriótico as consequências do seu voto, pois a História os julgará caso Lula seja novamente impedido de concorrer, permitindo que o Brasil prossiga em sua marcha de caranguejo, andando para trás. 

O país, na realidade, está vivendo um impasse: se o Congresso não votar um dos mais de 100 pedidos de impeachment, mantendo Bolsonaro no Planalto, será preciso construir novos cemitérios para enterrar as vítimas da Covid e os mortos de fome; e se, finalmente, afastarem o capitão o general Mourão assumirá o cargo, o que aparentemente será o mesmo que trocar seis por meia dúzia, pois o vice só é diferente do titular no tamanho. A cabeça é a mesma. Pelo menos é o que ele sugere com suas declarações endossando todos os atos e palavras de Bolsonaro.  De qualquer modo, o Congresso e o Supremo precisam fazer algo para mudar essa situação dramática em que o país está vivendo, onde o Presidente da República, ao invés de assumir seu papel na condução da Nação, gasta o seu tempo negando a gravidade da pandemia e arengando com governadores e prefeitos. O Brasil precisa de um presidente de verdade, que defenda a vida e os interesses do seu povo, liderando, sobretudo, as ações de combate  a esta doença terrível que vem dizimando a população. 

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