A parceria entre UFPE e o Exército Brasileiro: não esqueçam da prisão de Miguel Arraes e das torturas de Gregório Bezerra

Dois percursos dariam uma grande contribuição à sociedade brasileira em geral na necessária tarefa de compreender uma parte (inglória) do nosso exército

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(Foto: Divulgação)


Acabo de me deparar com uma notícia publicada no dia de ontem (7 de abril de 2022), às 10 horas e 14 minutos, pela Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, com um título que me causou um profundo estranhamento, para dizer o mínimo: “UFPE recebe comitiva do Exército Brasileiro para discutir parceria no projeto Memória Militar com o Centro de Informática”.

Pelo que consta da matéria que me foi enviada por uma querida amiga que, como eu, leciona na instituição, o projeto do EB “tem como objetivo disseminar a prática do Turismo Militar enquanto segmento do turismo cultural”, apresentando "à sociedade os bens culturais relacionadas à história brasileira, através da criação de um roteiro histórico-cultural na Região Metropolitana do Recife”.

Confesso aos meus raros leitores que li e reli a notícia e não consegui entender por que cargas d’água uma iniciativa vinculada às áreas da História e do Turismo não conta com a participação dos Departamentos de História e de Hotelaria e Turismo da Universidade – pelo menos, não há referência alguma aos dois departamentos na matéria em questão –, mas sim do Centro de Informática.

Seja como for, gostaria de sugerir aos envolvidos no projeto dois percursos fundamentais, os quais poderiam ser percorridos in loco com o acompanhamento de monitores devidamente formados pelos nossos cursos de História e de Hotelaria e Turismo, ou, de maneira virtual, com o suporte técnico dos qualificados profissionais do Centro de Informática da UFPE, como já o fazem inúmeros museus mundo afora.

PERCURSO 1: A PRISÃO DE MIGUEL ARRAES

A caminhada teria início no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo do estado de Pernambuco. Foi lá que, em 1º de abril de 1964, o governador Miguel Arraes, negando-se a qualquer tipo de concessão, recebeu a ordem de deposição do comandante do IV Exército, o general Justino Alves. Saindo pela porta da frente do Palácio, Miguel Arraes foi conduzido à Casa de Detenção – uma edificação fundada em 1855, no bairro de São José, transformada em Casa da Cultura em 1976. Nesta que seria a primeira parada da caminhada, seria possível conhecer a cela 106 do Raio Leste, preservada em seu estado original a fim de que fosse mantida a memória dos tempos nos quais o espaço se destinava ao encarceramento de presos políticos. A caminhada poderia ser encerrada numa das salas da antiga Casa de Detenção, com a exibição de imagens da ilha de Fernando de Noronha, local onde Miguel Arraes ficou preso durante 11 meses até ser solto e seguir para o exílio na Argélia. Nesse momento, se poderia dialogar sobre a importância da democracia e os males decorrentes da intervenção do exército em assuntos políticos.

PERCURSO 2: A TORTURA DE GREGÓRIO BEZERRA

A caminhada começaria na Fortaleza das Cinco Pontas, no bairro de São José, para onde o líder camponês comunista de 64 anos, Gregório Bezerra, foi levado depois da sua captura, em 2 de abril de 1964, na Usina Pedrosa, na Zona da Mata de Pernambuco. Já tendo sido espancado sob as ordens do Coronel Ibiapina (com um “coice” de metralhadora na boca do estômago, um soco no rosto e “telefonemas” nos ouvidos), Gregório Bezerra seria transferido para o Parque de Moto-Mecanização do 4º Exército, no bairro de Casa Forte, primeira parada da caminhada. Então, sob o comando do Coronel Villocq, que o recebe com uma pancada de cano de ferro na cabeça e que passa a arrancar os seus cabelos com um alicate, Gregório Bezerra tem a sola dos seus pés colocadas sobre ácido de bateria, o seu pescoço amarrado por três cordas, para um “desfile macabro” pelas ruas de Casa Forte até a frente do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, ponto final da caminhada que faria refletir sobre a prática da tortura como política oficial do Estado brasileiro nos 21 anos em que o país foi presidido por generais do exército.

Não tenho a menor dúvida de que, caso fossem implementados, esses dois percursos dariam uma grande contribuição à sociedade civil pernambucana (e brasileira em geral) na mais do que necessária tarefa de compreender uma parte (inglória, diga-se de passagem) da história do nosso exército e do seu papel na repressão política levada a cabo durante os 21 anos da ditadura iniciada com o Golpe de Estado de 31 de março de 1964.

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