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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A Pérsia que continua caminhando dentro do povo

Um olhar poético e jornalístico sobre o Irã que existe além das manchetes e que a memória divina não abandona

Fumaça sobe durante os protestos violentos contra o governo do Irã em Mashhad, no Irã - 10/01/2026 (Foto: Rede Social/via REUTERS)

O que hoje se ergue nas ruas do Irã não é um súbito desejo de ruptura, tampouco uma inclinação para o caos. É o cansaço acumulado de uma vida que deixou de ser vida. A moeda se esfarela nas mãos, o trabalho já não compra dignidade, a palavra virou risco e o silêncio foi decretado virtude obrigatória.

Esperar tornou-se suspeito. Sonhar, delito. Ainda assim, o Irã permanece. Porque o Irã não começou com esta crise, nem terminará com ela.

Essa permanência não nasce da teimosia, mas da profundidade histórica. Antes de ser Estado, o Irã foi civilização. Chamou-se Pérsia quando o mundo ainda aprendia a organizar o poder e a nomear a justiça. Foi ali que Ciro, o Grande (c. 600 a.C.–530 a.C.), gravou em argila uma ideia revolucionária: povos distintos podiam coexistir com respeito, a fé não precisava de espada, governar não era esmagar. Nenhum regime apaga cinco milênios de memória.

Pode desligar a internet, mas não desliga a história. Pode calar vozes, mas não silencia a poesia.

É justamente na poesia que a identidade persa aprendeu a se proteger. Ferdowsi (c. 940–1020), ao escrever o Shahnameh, salvou a língua quando tudo conspirava para sua dissolução. Rumi (1207–1273) deslocou o conflito do campo da força para o da consciência ao lembrar que, além das ideias de certo e errado, existe um campo onde a humanidade ainda pode se encontrar. Hafiz (1315–1390), com sua lucidez embriagada, ensinou que o poder teme mais um verso verdadeiro do que um exército armado. Cada geração iraniana aprendeu a sobreviver escondendo liberdade na metáfora.

Essa sensibilidade não ficou restrita aos livros. Ela moldou cidades inteiras. Isfahan, com suas cúpulas de turquesa e caligrafias infinitas, parece ter sido desenhada para lembrar que o céu também pode ser arquitetura. Yazd domou o deserto com torres de vento, provando que inteligência e beleza caminham juntas. Persépolis, mesmo em ruínas, continua falando de um império que compreendia a grandeza como harmonia, não como medo imposto.

Quando meus olhos se voltam para o Irã — meu coração, teimosamente, insiste em permanecer em Shiráz — fico boquiaberto com as conquistas desse povo na longa noite dos tempos.

Enquanto europeus e americanos ainda se balançavam nas árvores, como naquela comédia sobre o casamento grego, Aristóteles e Platão já caminhavam pela Acrópole filosofando sobre a vida; e, do outro lado do mundo, Rumi contemplava o céu estrelado de Shiráz e escrevia versos que ouvidos humanos jamais tinham escutado. A história, às vezes, tem um senso de humor refinado.

O mesmo refinamento aparece à mesa, onde a história se serve em silêncio. O arroz perfumado com açafrão, o ghormeh sabzi preparado com paciência ancestral, o fesenjan, onde romã e nozes equilibram acidez e doçura — tudo ali é tempo, cuidado e memória.

Cozinhar sempre foi um gesto político discreto: preservar sabores quando tentam padronizar a alma. E, diante de uma xícara de chá persa em casa de amigos, qualquer tipo de estranheza se desfaz: somos folhas e ramos de uma mesma árvore, somos ondas de um mesmo mar.

Não surpreende, portanto, que essa terra tenha produzido mentes que iluminaram séculos. Avicena (980–1037) redefiniu a medicina quando a Europa ainda buscava seus fundamentos científicos. Al-Biruni (973–1048) mediu a Terra com precisão admirável. Omar Khayyam (1048–1131) reformou o calendário e escreveu quartetos que continuam interrogando o sentido da existência. O Irã sempre pensou, calculou, observou estrelas e corpos, mesmo quando o dogma tentou impor cegueira.

Essa herança intelectual sempre caminhou lado a lado com a palavra poética como refúgio moral. Há versos que atravessam séculos como se fossem escritos para este instante. Hafiz (1315–1390) sussurra que “mesmo depois de todo este tempo, o sol nunca diz à terra: você me deve”, lembrando que a generosidade é a verdadeira medida do poder. Attar de Nishapur (c. 1145–1221), em A Conferência dos Pássaros, ensinou que a travessia é interior, que aquele que se reconhece atravessa desertos sem perder a alma. São palavras que sustentam um povo quando o chão político desaba e a esperança precisa aprender a respirar em silêncio.

A essa tradição se soma a voz de Bahá’u’lláh (1817–1892), que, nas Palavras Ocultas, oferece uma ética sem violência e sem medo: “Ó filho do espírito! Meu primeiro conselho é este: possui um coração puro, bondoso e radiante, para que seja tua uma soberania antiga, imperecível e eterna.” Não é um chamado à submissão, mas à dignidade humana como fundamento da vida coletiva.
Estou convencido de que, quando o Irã se levanta, ele o faz ancorado nessa herança ética e espiritual.

Por isso, o que hoje se move no Irã não é apenas revolta; é lembrança. Um povo que se recorda de quem é torna-se indomável. Impérios vieram com fogo — gregos, árabes, mongóis — e todos passaram. A língua ficou. A poesia ficou. A identidade ficou. Governos caem. Civilizações permanecem.

A nós, jornalistas, acadêmicos, escritores e pacifistas, cabe não o silêncio, mas o reconhecimento: admirar a civilização persa e ser testemunhas dos valores morais e espirituais que ela carrega na construção paciente de um outro mundo possível, tecido com paz, dignidade e unidade. Porque o Irã não é este governo. O Irã é o seu povo — antigo, ferido, erguido — e ele se lembra.

E mesmo que, um dia, o povo persa venha a esquecer parte do que sofreu, mesmo que o tempo suavize as memórias mais duras, ainda assim restará um consolo supremo: nenhuma dor foi invisível, nenhum sofrimento passou despercebido. Deus não esqueceu nenhuma de suas lágrimas, nenhum de seus pesares, nenhuma das noites atravessadas em silêncio.

A história humana pode falhar na justiça, mas a memória divina permanece inteira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.