A perversão e o deboche do Capital

O universalismo da Lei continua em cena, porém ao preço de seu desmentido por um objeto-fetiche que o coloca a serviço do exclusivismo do Capital (no caso, não há como eu não utilizar aqui a expressão 'ao preço de')

Freud e Lacan demonstraram convincentemente que a função do objeto-fetiche consiste em fazer com que nos desviemos da leitura da falta no e/ou do Outro (sua castração, sua inconsistência, sua finitude, etc) e permaneçamos fixados no imaginário – logo, capturados por um registro pautado de ponta a ponta pelo espelhamento narcíseo entre seus componentes, e, pois, ao avesso do que esperaríamos aí ocorrer, arrolados por um 'gozo ruinoso' (expressão de Lacan), invasivo, avassalador, mortífero.

('Narciso, dizia o poeta, acha feio o que não é espelho' e morre ao gozar subjugado à leitura de que entre ele e sua imagem não há Outro...)

Tal desvio e a consequente fixação no imaginário se constituem em uma renegação e/ou desmentido da Lei (Verleugnung: Freud lido por Lacan), demarcando assim uma estruturação clínico-psicanalítica denominada 'perversão' na qual a própria Lei é – no e pelo objeto-fetiche – a um só tempo negada e reconhecida ('não há castração por haver castração').

Deve-se observar no entanto que todo e qualquer objeto-fetiche é um objeto-discursivo, qual seja, um 'objeto' desde sempre encapsulado em uma rede de significantes que o configuram e o fazem operar como tal (tamponar a falta/castração no e/ou do Outro, etc): 01) antes de tudo, os ditos objetos concretos (palpáveis, manipuláveis, etc) são o que são, a saber, objetos-ditos ('lingeries', 'pés', 'cabelos', etc); e 02) palavras e/ou expressões linguísticas podem se posicionar a título de objeto-fetiche, e pois denotar traços de perversão (Joyce é exemplar quanto a isso) ou mesmo as linhas de força de uma estruturação discursivo-perversa (a do Capital, como tematizado a seguir).

Pois bem, talvez possamos recorrer a esses aportes clínico-psicanalíticos para esclarecer o que acontece atualmente no âmbito da leitura que o Capital faz da Lei, confluindo no final para a proposta de que deveríamos conceitualizar o 'deboche' como tentativa não mais de renegar e/ou desmentir a Lei mas de simplesmente aboli-la...

A PERVERSÃO DO CAPITAL

Quando os interesses do Capital são obstaculizados pela Lei, o Capital desmente a Lei, fazendo valer como legal e legítimo o ilegal e ilegítimo.

Assim, o lema 'válido para todos' – conteúdo da Lei e proposição estruturante da Sociedade – é fraudado de maneira que doravante ele seja transcrito nos termos 'válido para o Capital'.

A Lei é portanto contraditada em seu conteúdo primacial, o qual é neutralizado e subsumido pelo mote advindo do ato fraudador – nos seguintes termos: 'válido para a Sociedade' ₪ 'válido para o Capital'.

(O símbolo '₪' denota a subsunção do primeiro elemento pelo segundo.)

Neste sentido, o Capital preserva a forma pura da Lei (sua existência como mero fato jurídico), esvaziada no entanto da divisa que guarda o elemento essencial ao qual ela se aplica, ou seja, a Lei continua vigorando 'para todos', porém sob a condição estrita de esse 'todos' – a própria Sociedade, em última instância – render-se à validade particularista dos interesses do Capital...

Sendo assim, a Sociedade é desconectada daquilo mesmo que a erige como um dado ético/político/ontológico – a Lei e seu 'válido para todos' –, suspensa no ar desde então à mercê do arbítrio do Capital: noutros termos, a Sociedade é solapada em seu fundamento legal ('para todos'), passando a existir como reles suporte objetal da exclusivista vontade dos capitalistas ('para o Capital').

Ora, o poder do Capital sobre a Sociedade é pois estruturalmente perverso, a saber, trata-se de um poder assentado no desmentido da Lei, de tal maneira que o conteúdo ético/político/ontológico desta foi tamponado por um objeto-fetiche cujo exclusivismo dá-se a ler nos termos 'válido para o Capital' – concreta e perversamente, não vemos e/ou não lemos que a assertiva 'válido para todos' significa doravante 'válido para o Capital'.

Para dizê-lo de uma vez: o universalismo da Lei continua em cena, porém ao preço de seu desmentido por um objeto-fetiche que o coloca a serviço do exclusivismo do Capital (no caso, não há como eu não utilizar aqui a expressão 'ao preço de').

Formalmente:

I) Universalismo ₪ Desmentido ↪ Exclusivismo.

II) Válido p/ a Sociedade ₪ (Objeto-fetiche) ↪Válido p/ o Capital.

III) Sociedade ₪ Capital ↪ Sociedade (=) Capital.

Entretanto, no primeiro parágrafo recorri à frase 'quando os interesses do Capital são obstaculizados pela Lei' apenas por didatismo, pois em realidade tais interesses são perenemente contrastados pela Lei, de sorte a inexistir sequer um momento no qual o universalismo da Sociedade seja integralmente abduzido pelo exclusivismo do Capital, suturando-se ato contínuo, no e pelo objeto-fetiche, o gap estrutural entre ambos.

Pois bem, tal gap não poderia deixar de ser traumático: se de sua parte a Sociedade (na bela e mui pertinente observação de Lacan) 'trata o real pelo simbólico', apostando continuadamente na simbolização (interposição de representantes/mediadores entre forças concorrentes, etc), da parte do Capital trata-se abruptamente o real pelo imaginário, empuxando-se tudo e todos à dessimbolização e recorrendo-se à interposição perversa do objeto-fetiche lá onde o real (novamente Lacan é quem o diz) 'cava um buraco no simbólico' (cf. LACAN, J. O seminário, livro 22: R. S. I. [1974 – 1975]. Inédito).

Formalmente:

I) Sociedade: tratar o real pelo simbólico ↪ simbolização.

II) Capital: tratar o real pelo imaginário ↪ dessimbolização.

III) Sociedade: simbolização ↪ Trauma ↩ dessimbolização: Capital.

No caso aqui em tela, o objeto-fetiche em mãos e sob os olhos do Capital e com o qual ele desmente o universalismo da Lei é a expressão exclusivista 'válido para o Capital'.

Formalmente:

I) Objeto-fetiche: objeto-discursivo (significante).

II) Sociedade: universalismo da Lei ↪ ausência (ideal) de objeto-fetiche.

III) Capital: exclusivismo da Lei ↪ presença (efetiva) de objeto-fetiche.

Com efeito, valendo-se de notável rigor lógico e topológico Lacan prolongará aquilo que Marx denominara de 'fetichismo da mercadoria' (Waren-Fetisch), lendo-o como intrínseco ao movimento no e pelo qual o Discurso-Capitalista se configura como perversão da discursividade fundante do Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas), vale dizer, o Discurso-Capitalista perverte o Discurso-Inconsciente (enquanto Discurso-Mestre) (cf. LACAN, J. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise [1969 – 1970]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992).

Noutros termos, o Capital posiciona o Sujeito como agente do Campo Discursivo, vedando-lhe todavia a divisão/falta constitutiva dele mesmo (do Sujeito e também do Outro) através da aplicação do selo 'Consumidor', obstaculizando-o a seguir de ler em tal selamento o objeto-fetiche encapuzado no preceito 'válido para o Capital'.

Neste lance de mãos perverso protagonizado pelo Discurso-Capitalista a dessimbolização do Campo Discursivo chega a seu termo, imergindo as subjetividades, as sociedades e as culturas na imaginarização narcísea de si mesmas: sideradas pelo selo 'Consumidor' elas passam cegamente a ler o universalismo da Lei pelo exclusivismo do Capital...

Formalmente:

I) Discurso-Capitalista perverte o Discurso-Inconsciente.

II) Sujeito ₪ Consumidor ↪.Agente do Campo Discursivo.

III) 'Consumidor' ↪ leitura (perversa) da Sociedade pelo Capital.

Contudo, como expus acima a dessimbolização/imaginarização instalada pelo Capital (associado à Tecnociência) choca-se frontalmente com a simbolização estruturante do Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas), confluindo nos dias atuais para nada menos do que aquilo que os melhores comentadores cognominam de 'guerra civil global', a saber, uma no man's land tendencialmente entregue ao embate direto entre forças anômalas, desterritorializadas, mortíferas.

Ora, Agamben denominou o efeito de tal choque no plano jurídico, político e institucional de 'Estado de Exceção', qual seja, procedimentos e medidas que deveriam ser emergenciais e/ou provisórios transmudam-se – face à escalada exponencial de eventos anômicos – em 'técnicas de governo', a ponto de alterar radicalmente 'a estrutura e o sentido da distinção tradicional entre os diversos tipos de constituição', apresentando-se por fim, diz-nos ainda o filósofo italiano, 'como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo' (cf. AGAMBEN, G. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004. Trechos sob aspas extraídos da apresentação da obra pela editora brasileira).

De fato, ao desmentir a Lei o objeto-fetiche – no caso, objeto-discursivo: 'válido para o Capital' – instala o patamar de indeterminação política (democracia ou absolutismo?) tão bem diagnosticado por Agamben, ou seja, as configurações estatais nas sociedades capitalistas hodiernas são por excelência o campo do choque traumático entre simbolização e dessimbolização, resultando-se pois, de tal choque, as 'técnicas de governo' que em geral violentam os ordenamentos constitucionais existentes e fazem afinal viger os interesses exclusivistas do Capital.

Em resumo, a) a perversão do Capital se define pelo desmentido da Lei através do objeto-fetiche (objeto-discursivo) escrito nos termos 'válido para o Capital', o qual tende a substituir o tratamento do real pelo simbólico (falta constitutiva do Sujeito e do Outro), alocando em seu lugar o tratamento do real pelo imaginário (não há falta no e/ou do Consumidor); b) ressalta dessa tentativa de substituição o choque traumático entre simbolização (Estrutura: Lei: Sociedade) e dessimbolização (Conjuntura: Desmentido da Lei: Capital); e c) o efeito de tal choque no plano das organizações estatais consiste no surgimento de um (nos termos de Agamben) 'patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo', apelativo, como tal, de emergenciais (ainda em termos agambenanos) 'técnicas de governo' supostamente capazes de desfazer o choque traumático (estrutural) entre o universalismo idealmente não-perverso da Sociedade e o exclusivismo efetivamente perverso do Capital.

O DEBOCHE DO CAPITAL

Ao produzir a dessimbolização/imaginarização do Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas), inevitavelmente o Capital empuxa tudo e todos – inclusive a si mesmo – para o deboche...

Por quê?

Porque o deboche é a consequência lógica que emerge da impossibilidade de o Capital subsumir o 'válido para todos' (Lei) ao 'válido para o Capital' (Desmentido da Lei), de sorte a apagar o trauma resultante do choque entre simbolização (Falta: Sujeito e Outro) e dessimbolização/imaginarização (Não-falta: Consumidor).

Mas o que é o deboche?

Ora, o deboche é o fenômeno que – atenção: partindo da perversão – se situa para além do desmentido da Lei, procurando aboli-la como tal e, 'abrindo as comportas do gozo' (termos com os quais Lacan refere-se a Sade), implodir de vez o Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas) de maneira a sobrevir o Caos.

Formalmente:

I) Perversão ↪ Deboche.

II) Para além do desmentido da Lei ↪ Abolição da Lei.

III) 'Abrir as comportas do gozo' ↪ Implodir o Campo Discursivo.

Assim, o deboche assesta-se direta e imediatamente contra o Outro (a Alteridade, se se preferir), como se fosse possível derrui-lo e ato contínuo experienciar o Gozo (suposto todo, pleno, absoluto).

Noutros termos, digamos que o deboche é a tentativa desesperada de fazer tábula rasa do simbólico de sorte a imaginarizar ao extremo o registro do real, dissimulando o fato de estrutura em acordo com o qual 'o real é o impossível' (cf. LACAN, J. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise [1969 – 1970]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992).

Formalmente:

I) Deboche ↪ Tábula rasa do simbólico.

II) Imaginarizar ao extremo o registro do real.

III) Dissimular o fato de estrutura 'o real é o impossível'.

Todavia, a dissimulação imaginária da impossibilidade do real não é sem resultado: ao se esbater radicalmente nos contrafortes da Estrutura – enodamento entre real (R), simbólico (S), imaginário (I) e sinthoma (Σ) –, o deboche torna-se a obscena mostração daquilo que Lacan cognominou bem a propósito de 'esgar do real', dando-nos a ver a careta que se mutilou ao tocar no impossível...

Sim, o Capital (permitam-me os termos) é a 'perversão debochante', qual seja, o desmentido da Lei que, confrontado com a impossibilidade do Gozo, lança-se – e quer nos lançar – na carantonha do escárnio, da derrisão, do desrespeito universal.

Certamente todos já terão notado: capturadas pela dessimbolização/imaginarização promovida pelo Capital as coisas se esgarçam, se deformam, se estiolam, se banalizam e tendem para a nulificação, submersas doravante no recíproco espelhamento entre olhares celebrativos apenas de angustiados e horrorosos gritos munchianos (cf. a série de telas intitulada 'O grito' [1893/1910], de autoria do pintor norueguês EDVARD MUNCH [1863 – 1944]).

Formalmente:

I) Capital: 'perversão debochante'.

II) Dessimbolização/imaginarização: esgarçamento das coisas.

III) Espelhamento narcíseo: angustiados 'gritos munchianos'.

Com efeito, a perversão e o deboche são partes inseparáveis do processo de dessimbolização/imaginarização característico do dispositivo capitalista-tecnocientífico (o Capital associado à Tecnociência), prisioneiros entretanto de um imaginário 'alucinado' – por se supor capaz de desfazer a impossibilidade do real e de, isto realizado, experienciar o Gozo – do qual não têm a menor condição de produzir uma leitura adequada e de, portanto, evitá-lo e/ou recusá-lo.

Neste ínterim, há em Lacan uma pontuação que sintetiza esplendidamente o movimento perverso e debochador do Capital no sentido de sua própria destruição – diz ele:

→ O Discurso-Capitalista [copulado com o Discurso-Científico] é algo loucamente astucioso. Ele anda às mil-maravilhas; não pode andar melhor. Justamente, no entanto, anda rápido demais: consome a si mesmo – consome-se, de modo que se consuma –. (LACAN, J. Conférence à l'Université de Milan. 12 de Maio de 1972. Inédito.) ←

Pois bem, caso permitam-me aqui uma articulação metafórica que parecerá esdrúxula aos olhos de alguns, digamos em conclusão que o personagem 'The Joker' é por excelência o signo da perversão debochante e suicida do Capital, posto que nada e ninguém será capaz de obstaculizá-lo em seu mergulho imaginário (em significação topológica) no desmentido da Lei, no desrespeito ao Outro e no choque frontal com a impossibilidade do real – sequer 'Batman' o vencerá.

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