A polifonia autoritária
Escalada de ataques ao Supremo revela uma estratégia recorrente da direita radical: criar crises políticas para desgastar instituições e abrir caminho ao poder
Eles agem quase sempre de modo semelhante. Desestabilizam, fazem um alarido, denunciam, mesmo sem provas ou argumentos. Foi assim no governo Vargas, nos anos cinquenta, salvo afinal pelo suicídio. Repetiu-se com Jango, pouco antes do golpe de 64. E ressurgem agora com intensidade. Em geral, prendem-se a um parente próximo: um filho, um irmão. Pode ser a mulher, alguém da família. O importante é ressaltar o cerco da podridão e, na comparação, sair-se bem, jogando areia nos seus próprios telhados de vidro. No momento, têm gosto eleitoral, ainda que a campanha, oficialmente, não haja iniciado. Como as tentativas de comprometer o filho do Presidente ou o seu irmão não prosperaram, apegam-se ao Supremo Tribunal Federal, com sanhas assassinas, para atingir Dias Toffoli ou Alexandre de Moraes, este, preferencialmente, atribuindo a ele, não sem razão, a prisão do líder e seus vinte e sete anos e três meses de cadeia.
A polifonia conta com os extremistas e, naturalmente, parte do Flávio Bolsonaro e seu círculo. Claro que, como candidato, ele possui fragilidades, histórias de antigamente sobre “rachadinhas” e ligações com as milícias. Além disso, não explica a grande mansão adquirida a preços elevadíssimos, acima do nível dos salários de parlamentar. Dizem que se comporta como moderado, reconstruindo a imagem destemperada do Jair. No entanto, talvez por falta de esperteza (ou de inteligência), quando fala, propõe teses golpistas, sem hesitar em pregar a intervenção dos Estados Unidos, com navios de guerra apontados para a Baía de Guanabara. Nas mãos de uma liderança manchada por manifestações antinacionais desse tipo, não há como pedir mais no plano de uma eventual infelicidade em nosso destino.
Seja como for, parece evidente que as associações (partidárias ou não) atualmente em curso, nas facções direitistas, demonstram sede de poder para ninguém botar defeito. As intenções explícitas começam com um possível impeachment de Alexandre de Moraes, visto como um dos alicerces que sustentam nosso sistema democrático. Com rigor jurídico, domínio do Direito Constitucional e força de caráter, cumpriu ele um papel importante no julgamento dos eventos ligados ao golpe de 8 de janeiro, de triste memória. Em suas posturas, oferece uma barreira de uma espécie de magistratura como nunca se vira na história do país, recheada de intentonas e ataques contra as instituições. As conspirações, sem dúvida, não se detêm nele. Guardam armas para alvejar Toffoli e, mais tarde, Flávio Dino...
No “mar de lama” que procuram erguer contra os atuais ocupantes do poder, sente-se cheiro de enxofre, mais do que de podridão. Resta saber se lograrão cumprir seus objetivos. Entre os governistas, em parte por pudor, para não dar a impressão de que interferem no Judiciário, o silêncio vai se tornando constrangedor. Logo se iniciarão os clamores eleitorais com a fase dos debates. Poder de fogo não lhes falta. Que venham com tudo defender seus pontos de vista. E que a nação tire proveito disso.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
