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Sayid Marcos Tenório

Historiador e especialista em Relações Internacionais. É vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro 'Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência' (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019. 412 p)

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A política da morte nas prisões de “Israel”

Pela primeira vez em décadas, o Estado sionista formaliza a execução como instrumento regular de punição

Itamar Ben-Gvir (Foto: REUTERS/Corinna Kern)

A aprovação, pela Knesset, de uma lei que institui a pena de morte para prisioneiros palestinos marca uma ruptura histórica na política penal israelense, e um salto perigoso na institucionalização da violência estatal. 

Pela primeira vez em décadas, o Estado sionista formaliza a execução como instrumento regular de punição, estabelecendo a morte, inclusive por enforcamento, como sentença padrão para palestinos acusados de ataques classificados como “terrorismo”. 

A lei, aprovada por 62 votos a 48, determina que execuções sejam realizadas em até 90 dias após a condenação, com restrições severas ao direito de defesa, sem necessidade de unanimidade judicial e praticamente sem possibilidade de apelação ou clemência. 

Na prática, trata-se de um mecanismo jurídico desenhado para atingir exclusivamente palestinos, já que esses casos são julgados em tribunais militares, enquanto colonos judeus de fato terroristas e cidadãos israelenses, permanecem sob jurisdição civil, onde tal punição dificilmente é aplicada. 

A seletividade racial do dispositivo é amplamente reconhecida por especialistas e organismos internacionais. O próprio Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos classificou a medida como violação do direito internacional e alertou para seu caráter discriminatório. 

Mas a lei não surge no vazio. Ela é o ponto culminante de um processo mais amplo de endurecimento das políticas carcerárias israelenses, especialmente sob a influência direta do ministro da Segurança Interna, Itamar Ben Gvir.

Ben Gvir, um político fascista e figura central da extrema-direita israelense, construiu sua trajetória política defendendo abertamente medidas de punição extrema contra palestinos. Nos últimos anos, tem pressionado o governo a adotar políticas cada vez mais duras, incluindo restrições severas a condições de detenção e a execução direta de prisioneiros. 

Sua atuação vai além da retórica. Ele foi um dos principais articuladores da lei da pena de morte e utilizou seu peso político para pressionar o primeiro-ministro e criminoso de guerra, Benjamin Netanyahu, a levá-la adiante. 

Esse movimento revela uma dinâmica de chantagem política dentro do próprio governo israelense. Dependente de uma coalizão instável e pressionado por crises internas e acusações judiciais, Netanyahu tem cedido sistematicamente às demandas da extrema-direita. O resultado é uma escalada contínua da repressão, na qual os prisioneiros palestinos tornam-se alvos diretos.

Hoje, cerca de 10 mil palestinos encontram-se em prisões israelenses, incluindo mulheres e centenas de crianças. 

Relatórios de organizações de direitos humanos apontam um agravamento dramático das condições carcerárias, com registros de tortura, negligência médica, isolamento prolongado e restrições severas a visitas. Desde outubro de 2023, dezenas de prisioneiros morreram sob custódia israelense, em muitos casos por maus-tratos ou abandono médico. 

Nesse contexto, a introdução da pena de morte não representa apenas uma nova medida penal, mas redefine o próprio papel do sistema prisional. A prisão deixa de ser um instrumento de contenção e passa a operar como espaço potencial de eliminação.

Trata-se de uma mudança qualitativa, da repressão à política da morte.

O governo israelense tenta justificar essa escalada em nome da segurança. No entanto, os próprios dados demonstram o contrário. Décadas de encarceramento massivo, bloqueios e ofensivas militares não eliminaram a resistência palestina. 

Pelo contrário, a persistência da luta, dentro e fora das prisões, evidencia os limites de um modelo baseado exclusivamente na força.

As prisões, longe de neutralizarem a resistência, tornaram-se espaços de organização política e produção de consciência. Greves de fome, mobilizações internas e a centralidade dos prisioneiros em negociações políticas demonstram que o encarceramento falhou em cumprir sua função original.

Diante desse fracasso, o recurso à pena de morte surge como tentativa de reconfigurar o sistema repressivo. Quando a prisão já não basta, a morte passa a ser considerada.

Mas essa lógica carrega uma contradição fundamental.

A história demonstra que regimes que recorrem à violência extrema como instrumento central de governo tendem a acelerar seu próprio desgaste. A repressão pode impor silêncio momentâneo, mas não elimina as causas estruturais do conflito. Ao contrário, frequentemente as intensifica.

No caso palestino, essa realidade é incontornável. A resistência não é um fenômeno circunstancial, mas uma resposta histórica a um sistema de ocupação e negação de direitos. Enquanto essas condições persistirem, nenhuma política de punição, por mais brutal que seja, será capaz de produzir estabilidade.

A lei da pena de morte, portanto, não representa força. Ela é o sintoma de uma crise, do colapso do regime sionista, que vem se manifestando em várias áreas.

Ao transformar o sistema prisional em um espaço de execução, o “Estado” sionista não apenas viola o direito internacional. Ele expõe, de forma inequívoca, os limites de um modelo que já não consegue sustentar sua própria legitimidade.

A política da morte não resolve o conflito.

Ela apenas revela que o sistema que a produz já não encontra outra forma de sobreviver.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.