A política de extermínio e morte nas periferias: 60 anos de violência policial no Brasil
A imensa maioria das vítimas segue um padrão aterrador: são negros, jovens e moradores de territórios periféricos
Ao longo dos últimos 60 anos, as periferias e favelas brasileiras testemunharam a consolidação de um modelo de segurança pública marcado pela violência, seletividade e naturalização da morte, especialmente de jovens negros e pobres. Não se trata de casos isolados ou desvios individuais, mas sim de uma realidade estrutural praticada de forma deliberada pelas forças de segurança pública.
Os dados mais recentes confirmam essa situação alarmante. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o Brasil registrou aproximadamente 6.400 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2024. A imensa maioria das vítimas segue um padrão aterrador: são negros, jovens e moradores de territórios periféricos. Essa não é uma coincidência, mas sim uma consequência direta das políticas de segurança pública adotadas desde a inauguração da República no século XIX, que elegeu pobres e pretos como marginais, as famosas “classes perigosas”. Este padrão consolidou-se como modus operandi das forças de segurança pública e, infelizmente, sem sinais de que mudará a médio e curto prazo.
Em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, essa política se manifesta de forma ainda mais intensa.
Em São Paulo, sob o governo de Tarcísio de Freitas, a letalidade policial voltou a crescer, impulsionada por operações de grande escala nas periferias e na Baixada Santista. Em 2024, foram registradas cerca de 600 mortes por intervenção policial, muitas delas envolvidas em denúncias de execuções, abuso de força e falta de transparência. A “Operação Escudo” tornou-se um símbolo recente dessa escalada da violência policial.
No Rio de Janeiro, a tragédia se repete com frequência. Em 2024, mais de 1.200 pessoas morreram em ações policiais, consolidando o estado como um laboratório de uma política de confronto constante. Massacres como o do Jacarezinho, em 2021, deixaram de ser exceções e se tornaram referência de uma prática institucionalizada, amplamente denunciada por organismos de direitos humanos, mas com poucas mudanças na prática.
Nesse cenário, episódios cotidianos revelam o grau de banalização da violência.
Em 3 de abril de 2026, na Cidade Tiradentes, extremo da zona leste de São Paulo, Thawanna da Silva Salmázio, 31 anos, mãe de cinco filhos, foi morta pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos. O motivo? Uma discussão após a viatura passar em alta velocidade pela rua.
Thawanna não estava armada e não representava ameaça. Mesmo assim, foi morta.
A policial foi afastada e o caso está sob investigação. Mas a pergunta crucial não é apenas sobre a responsabilidade individual. É sobre o ambiente institucional e político que permite que uma abordagem cotidiana termine em execução.
Esse ambiente não surge do nada. Ele é alimentado, há décadas, por uma lógica que remonta à ditadura militar, quando as polícias foram estruturadas para combater o “inimigo interno”. Nas periferias brasileiras, essa lógica nunca desapareceu. Apenas mudou de nome: hoje, o “inimigo” tem cor, endereço e classe social.
Nos últimos anos, esse cenário foi agravado por um discurso político que não apenas tolera, mas incentiva a violência estatal. A extrema direita brasileira transformou o ódio em plataforma eleitoral. Frases como “bandido bom é bandido morto” deixaram de ser bordões marginais e passaram a orientar políticas públicas e campanhas vitoriosas.
Não por acaso, cresce o número de parlamentares que se apresentam com patentes militares — soldados, sargentos, tenentes, coronéis — e que defendem abertamente o endurecimento penal, a ampliação do uso da força letal e a redução de controles sobre a ação policial, incluindo a retirada de câmeras corporais.
A questão é direta: o que muda quando agentes formados em uma cultura de confronto e eliminação do “inimigo” assumem cargos no Legislativo ou no Executivo?
A resposta, infelizmente, parece estar na crescente violência contra pobres e pretos nas ruas.
Enquanto isso, o sistema de justiça segue operando com uma seletividade evidente. Crimes cometidos nas periferias são enfrentados com bala. Crimes bilionários, que envolvem elites econômicas, percorrem caminhos mais lentos, técnicos e, muitas vezes, menos visíveis. Raramente se vê a mesma disposição para o confronto quando os envolvidos vestem terno em vez de chinelo.
Essa assimetria não é apenas jurídica, ela é essencialmente política.
O Brasil precisa decidir que tipo de segurança pública deseja construir. Um modelo de guerra, que transforma comunidades inteiras em territórios de exceção? Ou um modelo que tenha como princípio a proteção da vida, o respeito aos direitos e a cidadania e a responsabilização efetiva de abusos?
A morte de Thawanna não é um ponto fora da curva. É parte de uma linha contínua que liga o Carandiru, em 1992, às chacinas recentes nas favelas do Rio de Janeiro, passando por milhares de histórias anônimas que não chegam aos jornais.
Enquanto essa lógica não for enfrentada de forma estrutural, a democracia brasileira seguirá convivendo com um paradoxo brutal: o Estado que deveria proteger é, para muitos, aquele que mais mata.
E isso está longe de ser normal.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
