A política dos filhos de alguém

Quando esquerda e direita se espelham na mesma prática, fica notório que não é nivelamento pelo bem comum e sim por uma prática sintomática do nosso passado, uma releitura das capitanias hereditárias feito uma maldição nos lembrando do nosso patrimonialismo lusitano

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camara plenario congresso (Foto: Igor Santos)

O ano de 2018 começou, novidade alguma nessa primeira informação, não é mesmo amiga e amigo leitor? Assim como em qualquer ano eleitoral, os ecos das capitanias hereditárias zumbem em paginas de jornais e anúncios de pré-candidaturas. Se em 2016 os números de políticos buscando reeleição eram enormes, a enormidade de filhos e netos de políticos pleiteando entrar para a politica não ficavam atrás.

Em plena república vemos deputados, senadores, governadores, vereadores e prefeitos, cujo programa político é o parentesco único e exclusivamente. Sintomático, não acham? Cargos elegíveis com a estampa de titulo nobiliárquico, não são barões, duques, arquiduques, condes ou viscondes, são vereadores, deputados, senadores. Em alguns casos já eleitos e buscando reeleição, em outros casos na luta pela sua parte na capitania de papai ou vovô.

A Bahia e suas quatro gerações de carlismo, de ACM pai, filho e agora o neto. Um estado majoritariamente negro e cujo ethos é uma das bases da formação do Brasil, possui uma casta politica, um clã. Que dizer então de toda uma geração de novos políticos baseada em herdeiros? Um deles candidato à presidência, assumindo em recente entrevista ainda receber mesada do papai.

Mas para quem acredita que isso seja exclusividade apenas da direita brasileira, recomendo que dê uma olhada minuciosa na esquerda. Passou desapercebido, mas nas prévias do Psol, aquelas que surtiram numa manifestação para que Lula tirasse as mãos do mesmo – segundo os juninhos, Boulos era afilhado político de Lula. Ora, existe algo mais monárquico que um senhor de 60 anos basear sua carreira política (escrevi carreira e não militância propositalmente mesmo) à sombra de seu pai e lançar sua candidatura em um espaço com o nome do papis? Plínio Júnior ou caberia melhor Plínio II? Sem falar de Luciana Genro, uma senhora que construiu sua carreira política sob as bençãos do papai e nada ou pouco sabe sobre caminhar com as próprias pernas, trabalhadores e vida real, o que dizer?

Não podemos isentar também o PT, com seu festival de filhos, netos e esposas de vereadores, deputados ou senadores, candidatos a deputado, vereador ou qualquer que seja. Sem programa político ou real existência no meio do movimento popular ou diálogo com o mundo real e concreto.

Até mesmo o expoente do fascismo verde-oliva tem filhos deputado estadual, federal e vereador. Num passado recente até uma esposa também foi vereadora e após o divorcio não conseguiu de reeleger. Assim fica fácil defender meritocracia e estado mínimo, enquanto faz da política cabide de emprego para seus familiares. Quando esquerda e direita se espelham na mesma prática, fica notório que não é nivelamento pelo bem comum e sim por uma prática sintomática do nosso passado, uma releitura das capitanias hereditárias feito uma maldição nos lembrando do nosso patrimonialismo lusitano.

E assim segue a política brasileira, feito filho de juiz levando enquadro de polícia rodoviária e dando carteirada com o famoso:

"Você sabe quem é meu pai? Sabe de quem sou filho?"

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