A política e a vida em sociedade em tempos de viralização
Reflexões sobre como a viralização nas redes redefine a política, enfraquece o debate público e desafia a democracia e o bem comum contemporâneo
Quando falamos de política, remetemo-nos às pólis gregas. Ao transportar esse conceito para os tempos contemporâneos, tratamos, essencialmente, da convivência coletiva — da vida em comunidade. Portanto, falamos de regras de convivência, da vontade geral dos cidadãos, da democracia e, sobretudo, da finalidade do Estado: a promoção do bem comum.
Mas será que caminhamos, de fato, nessa direção? A política ainda cumpre seu papel de instrumento de coesão social ou tem sido substituída por narrativas que distorcem o seu sentido original? A arte de convencer pela retórica sempre esteve presente nas disputas de poder — da ágora ao agora. Contudo, especialmente no período pós-Iluminismo, os argumentos passaram a se associar a projetos, ideias e programas voltados ao desenvolvimento progressivo da humanidade. Foi nesse ambiente que floresceram conquistas civilizatórias, o constitucionalismo e, por consequência, os direitos fundamentais.
Ocorre que vivemos uma revolução em curso: a revolução tecnológica. Com ela, veio a universalização da comunicação e o acesso massivo às redes sociais. Nesse ambiente, muitas vezes sem filtros adequados, com mecanismos frágeis de controle social e ainda com baixa regulação estatal, as redes se transformaram em uma espécie de “terra de ninguém”. Tornaram-se palco de agentes que dominam a lógica dos algoritmos e produzem conteúdos voltados à viralização, frequentemente dissociados do interesse público.
Nesse palco — o das redes sociais — abre-se um espaço significativo para aquilo que alguns filósofos classificam como pós-verdade. Trata-se de um fenômeno contemporâneo no qual os fatos objetivos passam a influenciar menos a opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais. Sob o ponto de vista filosófico, a pós-verdade representa uma relativização da própria ideia de verdade, deslocando o eixo da realidade concreta para o campo das percepções individuais.
Nas redes sociais, essa lógica se reproduz com intensidade. Narrativas carregadas de emoção, simplificações e, não raramente, distorções deliberadas dos fatos encontram terreno fértil nos mecanismos de viralização. A repetição contínua de uma versão — ainda que inverídica — acaba por lhe conferir aparência de verdade. Quando amplos setores da sociedade passam a aceitá-la, consolida-se um ambiente em que a percepção coletiva passa a se sobrepor à veracidade dos fatos.
É também nesse contexto que reaparecem, sob novas roupagens, práticas que a história já demonstrou serem profundamente nocivas à vida em sociedade. Projetos que, na prática, resgatam métodos associados a experiências autoritárias do século XX — como a substituição da verdade factual pela propaganda, o uso do medo como instrumento de mobilização em lugar do convencimento racional e voluntário, e a tentativa de sobrepor a força à política e às soberanias — encontram nas redes sociais um terreno fértil para sua difusão e naturalização.
Há, nesse cenário, um claro encontro de interesses econômicos. Vivemos a era da indústria da produção de conteúdo. A monetização gera renda para muitos, enquanto as grandes plataformas digitais — as chamadas Big Techs — transformam o tempo de atenção e o engajamento contínuo em fonte de acumulação de riqueza, concentrando poder em escala inédita. Nessa dinâmica, o que menos se promove é a política como instrumento de construção coletiva e de composição social.
É nesse ambiente que a política sofre uma de suas mais profundas transformações: o debate público, antes orientado por argumentos e projetos, passa a ser moldado por percepções, engajamento e impacto emocional. O risco, evidente, é o esvaziamento do espaço racional de deliberação — condição essencial para a própria existência da democracia.
Conclusão
Diante desse quadro, o grande desafio contemporâneo é resgatar o sentido público da política. É preciso recolocá-la no seu eixo fundamental: como espaço de diálogo, de construção de consensos possíveis e de organização das diferenças. A tecnologia, por si só, não é o problema — mas o uso que dela se faz pode enfraquecer ou fortalecer a vida democrática. Se a lógica da viralização continuar substituindo o debate qualificado, corremos o risco de esvaziar a política de seu conteúdo civilizatório. Reverter esse processo exige responsabilidade institucional, educação crítica e compromisso coletivo com a verdade, com o diálogo e com o bem comum. Sem isso, a política deixa de ser instrumento de convivência para se tornar mero reflexo de interesses fragmentados — e a própria vida em sociedade perde seu equilíbrio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
