A queda de Witzel: fim da aposta na antipolítica?

Jornalista Rodrigo Vianna avalia os efeitos do afastamento do governador do Rio de Janeiro. "Witzel levou um tiro, na cabecinha. Com ele, pode morrer tambem a ideia de que é preciso apostar 'fora da política'. Não deu certo. Até Bolsonaro já percebeu", afirma

Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel
Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (Foto: Reprodução)
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O afastamento de Wilson Witzel, eleito ao governo do Rio na onda da antipolítica e do lavajatismo, vem acompanhado ironicamente de todos os ingredientes de abusos e distorções instaurados na política  brasileira pela Operação curitiboca.

O governador foi afastado por ordem judicial, atropelando assim o rito que prevê a votação do impeachment na Assembleia. É uma espécie de "golpe judicial", a partir do STJ, tribunal em que o bolsonarismo parece ter aliados importantes.

O vice de Witzel, que deve assumir o poder e segue fiel ao bando de Jair, teria se encontrado com os bolsonaristas na véspera da Operação - que incluiu busca e apreensão em gabinetes da ALERJ.

É claro que o STF ainda pode reverter a situação. Mas o desgaste de Witzel não tem volta.

O candidato que quebrou placas de Marielle e espalhou o terror na campanha eleitoral, e que depois de eleito sobrevoou favelas atirando feito um rambo, prometendo "acertar na cabecinha", protagonizou também a cena absurda de comemorar uma execução na ponte Rio-Niterói.

Esse mesmo sujeito foi agora ferido na cabeça pelo esquema lavajatista - que condena publicamente antes do processo se concluir, sempre em alianças políticas e midiáticas.

O resumo da ópera é esse: o ex-juiz Witzel, lavajatista e bolsonarista, foi afastado após perder prestígio e poder em operações lavajatistas e bolsonaristas.

Isso é um fato.

Outro fato: o fim prematuro de Witzel indica que a onda do "vamos votar em gente de fora do sistema" pode estar chegando ao fim.

Romeu Zema (Partido Novo-MG), o empresário que ia "gerir o Estado como se faz na iniciativa privada", e Wilson Lima (PSC-AM), o jornalista "amigo do povo" que prometia inaugurar a nova política no Amazonas, também se afundam. Lima, do mesmo partido de Witzel (Social Cristão, vejam só...), enfrenta também processo de impeachment no estado do Norte.

Em entrevista ao programa Boa Noite 247, o cientista político Claudio Couto (FGV-SP) apontou essa tendência: as pesquisas municipais indicam que o eleitor em 2020 pode trocar o duvidoso pelo certo. Ou seja, teria já percebido o risco de "experimentar" falsos outsiders que quebram placas e regras.

Nesse quadro, Eduardo Paes (DEM) leva vantagem no Rio (já exerceu dois mandatos como Prefeito, e saiu com ótima avaliação). Em São Paulo, essa volta ao "normal" pode favorecer Bruno Covas (PSDB).

O Professor da FGV diz que isso não está circunscrito ao campo de centro-direita. O eleitor vai preferir algo já conhecido. Isso talvez explique porque Boulos está à frente de Jilmar Tatto em São Paulo, já 

 que traz o recall da eleição presidencial, apesar de nunca ter exercido cargos públicos... E isso favorece, por exemplo, candidaturas mais institucionais como a de Benedita da Silva (ex-governadora), que larga no Rio com alguma chance de ir ao segundo turno.

Em Belém do Pará, o favorito numa ampla frente de esquerda é Edmilson Rodrigues (PSOL), que já foi prefeito duas vezes, quando ainda estava no PT.

São sinais importantes.

Mas e como Bolsonaro, visto em 2018 como um "outsider", pode influir numa eleição municipal que tende para mais "normalidade"?

Aí não é mais o professor da FGV, mas este jornalista quem testa uma hipótese...

Bolsonaro dá sinais de estar-se "institucionalizando". Ao atrair o Centrão, e estabilizar a relação com o Congresso, Bolsonaro também deixa de ser outsider. Por isso mesmo, a tendência 

é que ele atue na eleição apostando em candidatos conservadores mas que não sejam "de fora" da política.

Isso leva Bolsonaro a fechar no Rio com Crivella (ex-senador, experiente, apesar de pessimamente avaliado), e em São Paulo com Russomano (deputado há vários mandatos). É claro que nesse caso pesa também a aliança com a Igreja Universal/Record, conglomerado ao qual se filiam Crivella e Russomano.

Os "witzel amalucados" e os "mamãe falei" da vida, por isso, tendem a ficar fora do jogo. 

É provável que o presidente entre na campanha, em cada cidade, só na reta final, escolhendo a dedo candidatos de partidos que o ajudem a desenhar o jogo institucional no Congresso em 2021 e 2022.

Bolsonaro está longe de ser um "grande eleitor". Em São Paulo, por exemplo, o apoio dele mais atrapalha do que ajuda. Mas está longe de ser também carta fora do baralho. Aqui e ali, pode colher resultados e empurrar candidatos pra vitória  - especialmente onde for possível polarizar com a "esquerda" (que, para o bolsonarismo raiz, vai do PSOL até o PSDB).

A marca da eleição de 2020, portanto, não deve ser nem vitória gigantesca do bolsonarismo, nem resultado acachapante para a centro-direita (PSDB/DEM) ou a esquerda. Mas um quadro de pulverização. 

O principal, parecem indicar as pesquisas, é o fim do ciclo dos aloprados outsiders.

Witzel levou um tiro, na cabecinha. Com ele, pode morrer também a ideia de que é preciso apostar "fora da política".

Não deu certo. Até Bolsonaro já percebeu.

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