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Pedro Maciel

Advogado, sócio da Maciel Neto Advocacia, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007

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A realidade e sua percepção

Entre os números e o ruído das redes

A realidade e sua percepção (Foto: Marina Ramos/Camara dos Deputados )
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O governo Lula 3 é um governo nota sete; é assim que eu o vejo. Não é um governo austero como o Lula 1, nem um governo nota nove, como o Lula 2, mas acredito que sete é uma nota justa, dado o contexto.

Contudo, boa parte das pessoas do meu entorno não tem essa percepção da realidade, apesar de todos os indicadores macroeconômicos serem muito positivos. Até o início de 2026, o terceiro mandato de Lula apresenta indicadores macroeconômicos marcados por crescimento do PIB acima das expectativas — 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,4% em 2025 —; desemprego apresentando baixas históricas e aumento significativo da renda média; IED — investimento estrangeiro direto — batendo recordes (o Brasil é o segundo destino de investimento privado no mundo, segundo a OCDE); inflação na meta; reservas cambiais robustecidas.

É verdade que a SELIC, que o governo não controla, induz a juros altos, o que gera o endividamento das famílias. Assim como as bets, há os desafios fiscais, com a dívida pública em trajetória de alta. “Despesa”, dizia minha avó Maria, “é como as unhas: temos que cuidar todos os dias e, uma vez por semana, temos que cortar”.

Lula 3 reconstruiu as políticas sociais e culturais destruídas pelo governo anterior; ampliou investimentos em ciência e tecnologia, igualmente reduzidos em todo o período anterior, e busca ampliar mercados, trabalhando fortemente a multipolaridade.

Outro dia, uma amiga querida perguntou, no final do dia, num almoço lá na casa da Celinha: — O que devemos fazer para as pessoas perceberem a realidade?

Eu respondi rapidamente: conversar e trabalhar com a verdade. A verdade está do lado dos governos de coalizão liderados por Lula; o maior desenvolvimento social, econômico e humano ocorreu entre 2003 e 2015, sendo que, a partir de 2023, o novo governo de coalizão busca cumprir a Constituição, que determina que o Brasil não perca de vista que somos uma República Federativa, formada pela união indissolúvel dos Estados, Municípios e Distrito Federal, constituída em Estado Democrático de Direito.

Somos um Estado Democrático de Direito, cujos fundamentos são — para desespero dos lambe-botas dos interesses internacionais —: a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; e o pluralismo político. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição. São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.

O mais importante, a meu juízo, são os objetivos fundamentais da República: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação.

E não para por aí. A Constituição estabelece que o Brasil, em suas relações internacionais, observará os seguintes princípios: independência nacional; prevalência dos direitos humanos; autodeterminação dos povos; não intervenção; igualdade entre os Estados; defesa da paz; solução pacífica dos conflitos; repúdio ao terrorismo e ao racismo; cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; e concessão de asilo político.

Nossa Constituição determina que o Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.

Eu desafio qualquer crítico dos governos que Lula chefiou a apontar qual desses preceitos constitucionais não foi observado.

Mas é verdade que algumas pessoas, cheias de certezas, estão hermeticamente fechadas ao debate; elas não confiam no IBGE, nos números do Banco Central e do Banco Mundial; só acreditam nas suas redes de WhatsApp e no tal Brasil Paralelo, que vende — numa embalagem bonita — o mais vil revisionismo histórico.

Para os desatentos, o tal Brasil Paralelo, que já deveria ter sido visitado pelo MPF, pratica a reinterpretação de fatos e narrativas históricas estabelecidas, baseada em factoides e simulacros, manipulando a História por interesses ideológicos ou econômicos, degenerando em negacionismo, como ao questionar o Holocausto ou a ditadura militar brasileira.

Minha amiga perguntou: — Vale a pena conversar com essa gente?

Penso que temos que conversar com todas as pessoas, pois a cidadania é construída pelo diálogo, pelo embate de ideias; é nisso que acredito.

Conversamos algum tempo sobre isso, sobre a militância da palavra falada e da palavra escrita, e lembramos de uma sessão da CPI do MST, na Câmara, na qual o professor doutor em Direito da UnB, José Geraldo de Sousa Júnior, deixou sem chão a deputada Caroline de Toni (PL-SC).

A resposta do professor entra para a história das CPIs no Brasil. Depois de ouvir pacientemente as certezas da deputada sobre a questão da terra no Brasil e suas críticas ao MST, o professor José Geraldo foi perguntado pelo deputado que presidia a sessão se gostaria de usar o tempo para comentar a fala da deputada, que não fizera nenhuma pergunta.

O professor José Geraldo, que me influenciou profundamente nos anos 1980 com seu curso “Direito Achado na Rua”, disse calmamente à deputada e a todos os presentes:

“... em respeito à deputada, que em verdade não me fez nenhuma pergunta, eu só queria dizer que Octavio Paz, no seu ‘Labirinto da Solidão’, disse que os indígenas, quando Colombo chegou, não viram as caravelas... não viram. Elas estavam ali, fundeadas, mas não havia cognição para poder representar cerebralmente uma imagem absolutamente incompatível com o quadro mental de uma cultura que não tinha elementos para visualizar. Por isso os gregos diziam que ‘teoria’ significa: aquele que vê. A gente só vê aquilo para o que tem cognição. Por isso, eu não tenho como discutir com a deputada, porque a sua visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar aquilo que a senhora tem escrito na sua cognição; então a senhora vai ver não o que existe, mas o que a senhora recorta da realidade... A realidade é recortada por um processo cognitivo de historialização; então posso discutir um tema que contrapõe visões de mundo... Eu vejo uma coisa e a senhora vê outra coisa...”.

Se eu for seguir o mestre, diria que seria perder tempo falar com muitas pessoas, mas acredito no poder da palavra, no poder da verdade, e nós estamos do lado bom da História. Sei que muitos dos nossos erram e pagaram pelos seus erros, mas a percepção da realidade não pode ser mais poderosa do que a própria realidade.

A percepção é a interpretação subjetiva que o cérebro faz dos estímulos sensoriais, frequentemente moldando a “realidade” pessoal de cada indivíduo. Embora a realidade objetiva exista de forma independente, os seres humanos vivem na realidade construída por suas experiências, expectativas, emoções e vieses cognitivos.

Para vencer a estupidez humana há apenas um caminho: a militância política, que agora ocorre também num ambiente chamado redes sociais; por isso, precisamos aprender a nos comunicar também nesse ambiente de militância.

Essas são as reflexões.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.