A República de Silva Jardim e Luiz Gama

Recuperar e honrar o sonho de Silva Jardim e Luiz Gama, entre outros republicanos históricos, é agir em busca do objetivo que deveria pautar todo o republicanismo digno deste nome: instaurar um regime popular, inclusivo, distribuidor de renda e propriedade, garantidor dos direitos do trabalhador, reparador de brutais injustiças sociais e da dignidade plena

(Foto: Paulo Pinto - Ag. PT)

A República brasileira, que completa 130 anos no próximo dia 15 de novembro, nasceu com vícios de origem que podem ser superados. Resultado de aliança entre veteranos militares, que combateram na Guerra do Paraguai, jovens oficiais positivistas e oligarquias agrárias insatisfeitas com o fim da escravidão, a República implantada no Brasil não foi a idealizada por Silva Jardim, republicano histórico, que enxergava viabilidade na nova ordem, mas se ela viesse acompanhada de projeto contundente de justiça social, e nem a de Luiz Gama, abolicionista e republicano incontornável. 

Silva Jardim e Luiz Gama defendiam um modelo de extinção da escravidão que fosse acompanhado de uma reforma agrária capaz de distribuir a propriedade entre os ex-escravizados. Ambos militaram pela causa da República e nela enxergaram a chance de um Brasil popular, igualitário, capaz de ampliar o exercício da cidadania entre a sua população.

Não foi o que ocorreu. A abolição não aconteceu acompanhada de projeto de extensão de direitos e reparação aos negros. A República acabou nas mãos dos oligarcas, ancorada no poder dos coronéis e na manipulação do sistema eleitoral pelo voto de cabresto. Concentrado nas mãos de poucos, o poder republicano continuou a serviço dos poderosos e de seus apaniguados.

Depois de 130 anos, a República sonhada por Luiz Gama e Silva Jardim ainda parece distante. Houve inegáveis conquistas, direitos sociais foram adquiridos e leis de proteção ao trabalhador, aprovadas. A Constituição de 1988, sintomaticamente apelidada de “cidadã”, foi pautada pela preocupação com as minorias e deu margem para a ampliação de programas sociais capazes de diminuir a brutal desigualdade brasileira.

Por outro lado, os defensores de uma República exclusiva, a mercê de interesses privados, mantenedora da vergonhosa disparidade social entre os brasileiros, continuam atuando com a sanha das velhas oligarquias do passado. Entre percalços, atentados à democracia, violência institucionalizada e concentração da riqueza, os herdeiros de uma mentalidade escravocrata e autoritária continuam atuantes e estão no poder.

Recuperar e honrar o sonho de Silva Jardim e Luiz Gama, entre outros republicanos históricos, é agir em busca do objetivo que deveria pautar todo o republicanismo digno deste nome: instaurar um regime popular, inclusivo, distribuidor de renda e propriedade, garantidor dos direitos do trabalhador, reparador de brutais injustiças sociais e da dignidade plena da pessoa humana.

Esta é a tarefa colocada no aniversário dos 130 anos da República brasileira: ser de fato inspirada pelo interesse público do povo do Brasil. 

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