José Álvaro de Lima Cardoso avatar

José Álvaro de Lima Cardoso

Economista

262 artigos

HOME > blog

A resistência do Irã muda o jogo no mundo

A resistência iraniana desafia o imperialismo e mostra que a guerra não será vencida sem consequências profundas para o mundo.

Bandeira do Irã (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Foto de arquivo)

Se a guerra no Irã for retomada e escalar, a economia mundial corre o risco de uma depressão. Não haverá mais petróleo, nem gás, nem hélio, nem fertilizante, nem nada vindo da região do Golfo Pérsico por muitos anos. Por enquanto, a economia mundial foi impactada pelo aumento de preços dos derivados de petróleo e uma certa escassez de alguns produtos. Mas, se a guerra se intensificar, em poucas semanas a situação piorará consideravelmente. Os agressores acharam que iriam vencer o Irã com sua capacidade aérea, bombardeando violentamente o país. Essa estratégia fracassou solenemente, e os EUA ainda gastaram boa parte de suas reservas de armamentos. Como nenhum dos objetivos militares dos EUA foi atingido até o cessar-fogo, pode-se dizer que o Irã está ganhando a guerra.

Em determinados momentos, desde o início do conflito, os EUA, que improvisam o tempo todo, ensaiaram a invasão do Irã por terra. É consenso entre os especialistas militares independentes que isso seria um erro grosseiro. Fala-se que os americanos poderiam mobilizar 50 mil militares para a operação, dos quais apenas 10 mil seriam de combate; o restante seria pessoal de apoio e retaguarda. Já as forças armadas do Irã possuem uma das maiores estruturas militares do mundo, com um contingente ativo estimado em aproximadamente 610 mil militares. Essa força é dividida em dois braços principais: 1. Exército Regular (Artesh): focado na defesa das fronteiras nacionais e na soberania territorial; 2. Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC/Pasdaran): uma força de elite, ideológica e militar, que protege o sistema político e projeta influência regional.

Além dessa estrutura regular, o país dispõe da Força Paramilitar, uma milícia voluntária que pode mobilizar milhões de civis em caso de guerra total, com cerca de 220 mil membros prontos e milhões na reserva. Motivação para os soldados iranianos não falta, já que seu país foi atacado sem nenhuma razão, e as forças inimigas cometeram uma série de crimes de guerra, matando, inclusive, o líder religioso máximo do país, Ali Khamenei, uma espécie de "papa" dos xiitas (95% da população do Irã).

Mesmo que os 50 mil militares fossem tropas de combate, seria quase impossível o sucesso em uma invasão do Irã por terra. Para a invasão do Iraque em 2003, os EUA arregimentaram 185 mil soldados nos países vizinhos. O Iraque tem ¼ da extensão territorial do Irã. Nas condições atuais da guerra, se os EUA reunirem os soldados nos países próximos ao Irã, seriam bombardeados por drones, mísseis balísticos e continentais, talvez antes de entrar em combate.

É bom recordar que o Irã tem profundidade estratégica, ou seja, a distância entre as linhas de frente (ou fronteiras) e o coração industrial, político e demográfico do país é bastante longa. Fator que torna tudo mais difícil para o inimigo, a começar pela linha de suprimentos. Especialmente considerando a geografia do país, predominantemente marcada por terrenos acidentados e montanhosos, elemento que molda o clima, a ocupação humana e a própria defesa estratégica. Cerca de 55% do território é coberto por montanhas, enquanto o restante é composto por planaltos elevados e desertos áridos.

Além disso, quem disse que o povo americano estaria disposto a suportar o sacrifício decorrente de realizar uma invasão em larga escala no Irã? Conforme mostra a história, para os norte-americanos, é insuportável sofrer muitas baixas, ver jovens soldados retornando em sacos pretos, à medida em que transcorre o conflito. O apoio da população americana à guerra gira em torno de 30%, e está recuando desde o início das operações, refletindo o cansaço da opinião pública com conflitos no Oriente Médio. A base de apoio ao governo, a esta altura, está concentrada quase que exclusivamente no núcleo de apoiadores do Partido Republicano, que aceita qualquer argumento que venha do governo, por mais absurdo que seja.

Portanto, o imperialismo parece não dispor de uma alternativa de invasão terrestre. Por outro lado, o bloqueio no Estreito de Ormuz pelos americanos, como previsto por muitos, já desmoronou. Se o bloqueio naval fosse uma arma capaz de vencer uma guerra, já teria sido utilizado antes na história dos conflitos. Mas, como estamos vendo, esta não é uma arma que vence uma guerra, ainda mais uma guerra de verdade, como esta que está sendo travada. A China, que tem uma das maiores marinhas do mundo, e que investe muito em navios modernos e tem a maior frota do mundo em número de embarcações, depende muito das importações de petróleo do Golfo Pérsico, cerca de 55% de suas necessidades, com origem, especialmente, na Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes. Em algum momento, se o bloqueio do Estreito estivesse em vigor, os chineses teriam que começar a escoltar petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o que poderia confrontar militarmente, diretamente, navios chineses e americanos.

A realidade é que os EUA não têm uma alternativa minimamente segura de vitória nesta guerra contra o Irã. Entrar no espaço aéreo de avião e bombardear tudo não vai resolver, até porque os iranianos começaram a derrubar aviões antes do cessar-fogo. Todas as alternativas levam à grande possibilidade de derrota. Se o governo americano tivesse juízo, começaria a trabalhar imediatamente por um cessar-fogo e por negociações imediatas.

Se os EUA voltarem a fazer uma campanha massiva de bombardeios no Irã, atacando infraestrutura de energia, pontes e matando civis, como fizeram em larga escala até o cessar-fogo, a tendência é o Irã fechar completamente o Golfo Pérsico. E podem também fechar completamente o Mar Vermelho através dos Houthis, que compõem também o Eixo da Resistência. O Irã pode ainda atacar a infraestrutura de energia e as usinas de dessalinização em todo o Golfo Pérsico. Se as usinas de dessalinização forem destruídas, os países árabes do Golfo entrarão em colapso. Em função do clima hiperárido e da quase inexistência de rios ou lagos permanentes, a dessalinização da água do mar não é apenas uma alternativa, mas a espinha dorsal da sobrevivência urbana e industrial desses países. Em quase todos os casos, a água dessalinizada responde pela vasta maioria do consumo potável doméstico nos países árabes do Golfo, em alguns casos em até 100%.

Os iranianos são um povo religioso e extremamente generoso. Prova disso é que são o país do mundo que mais apoia abertamente a luta do povo palestino, pagando um alto preço político e econômico por essa posição. Mas, imaginar que uma potência estrangeira arrogante irá destruir o país e sair tranquilamente, enquanto a população assiste placidamente, é uma grande ilusão. O Irã, se atacado em sua infraestrutura crítica, fará o mesmo nos países árabes do Golfo, que são cúmplices do imperialismo no ataque genocida ao país. Se o imperialismo subir na escada da escalada, os iranianos vão usar todas as cartas que ainda estão na manga.

Os iranianos estão travando uma guerra pela sua existência. O imperialismo já provocou um enorme dano ao Irã, porém causará um prejuízo ainda maior à economia mundial. Os EUA podem até obter certas concessões dos iranianos na mesa de negociação, mas o fato é que estes estão vencendo a guerra. Portanto, quando, em algum momento, forem para a negociação, os iranianos tendem a se sair muito bem. Uma regra fundamental da guerra é que o palco de operação dá a tônica da negociação.

O Irã tem utilizado uma espécie de “gradualismo tático” na guerra. Algumas de suas armas ainda não foram utilizadas, justamente porque não queriam a guerra, e depois, não desejavam escalar o conflito. Porém, em uma eventual retomada da guerra, o Irã irá utilizar sistemas de armas que ainda não colocou em campo. Por outro lado, há fortes indicações de que a maior parte das capacidades militares do Irã está preservada, na medida em que suas principais fábricas e centros de pesquisa e desenvolvimento estão bem no fundo da terra. Muitas das bases de mísseis do Irã nem sequer foram colocadas em operação ainda. Por exemplo, os especialistas militares dizem que o Irã não usou, até o momento, os seus mísseis de cruzeiro.

Na guerra iniciada em 28 de fevereiro, ficou claro que o Irã estava mais preparado do que na guerra dos 12 dias de junho de 2025. Uma prova disso é que, na guerra dos 30 dias, de 2026, os iranianos atacaram com força crescente. Como se sabe, o Irã não queria a guerra, especialmente contra o maior exército do mundo, teoricamente. No entanto, já que a guerra começou, os iranianos querem que seja uma guerra longa, pois querem resolver o problema de uma vez por todas. No fim da guerra, os iranianos querem ter certeza de que nenhum país volte a pensar em atacar o Irã.

Não tem como voltar ao passado no Golfo Pérsico. Não tem mais como voltar ao passado no mundo. O povo iraniano tem consciência de que está travando uma luta pela sua sobrevivência e está disposto a pagar um preço muito alto por isso, se for necessário. É o que expressou outro dia, em entrevista, o professor Mohammad Morandi, da Universidade de Teerã: “A gente está preparado para a guerra. Estamos preparados para morrer. Não vamos nos curvar diante do império, preferimos morrer de pé do que viver de joelhos”. É muito difícil subjugar um povo com essa resiliência e determinação.

Carreira 3D • Investidor 3D • Consumo consciente

O Dinheiro 3D é um guia prático para quem quer evoluir financeiramente com visão, estratégia e equilíbrio.

Saiba mais

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.