A revolução do plural

Nosso mundo não aceita mais o ponto, no singular. Aceitará, talvez, três pontos, reticências, continuidade, não certeza, indefinido, qualquer outra coisa possível, o não lugar, o nomadismo, o plural. Plural, o nome da próxima (e bem próxima) revolução

Não há mais lugar para o “é assim, e ponto!”, que regrou e ainda regra a educação de muitos de nós.

Nada mais “é assim e ponto!”.

As famílias – papai, mamãe e filhos – agora admitem que haja papai-papai, mamãe-mamãe. Muitas são só pai ou só mãe. Um número enorme de crianças tem hoje a figura de pai e mãe assentada unicamente no avô ou avó. Nas periferias de nosso país – não só, mas principalmente nas periferias, é cada vez mais raro encontrarmos famílias tradicionais, onde crianças têm pai e mãe morando na mesma casa. Mais raro ainda é encontrar a família – tão natural há cinquenta anos – onde há um pai mantenedor e uma mãe cuidadora, que não precise trabalhar para completar a renda familiar.

Principalmente à sexualidade não se aplica mais o “é assim e ponto!”.

Hoje é aceitável inventar para si a forma de sexualidade que mais se aproxime das escolhas de cada um. O site de relacionamentos Tinder anunciou em 2017 a inclusão de identidades de gênero diversificadas. Além das tradicionais masculino – feminino – homossexual, agora há mais 37 opções que incluem, entre outros, agênero, nenhum, andrógino, bigênero, sexo fluido, gênero inconformado, questionador de gênero, variante de gênero, não-binário, pangênero, transfeminino, transmasculino. (O Globo Economia - 14/03/2017).

No mundo do trabalho, da mesma forma, pouco se aplica o “é assim, e ponto!”. O Home office amplia à casa o espaço de trabalho, confundindo-os, imbricando-os e dissolvendo os limites entre os tempos de trabalho, lazer e descanso. Tornou-se comum vermos notebooks abertos frente a trabalhadores de sunga, nas praias do país.

Nem mesmo as fases biologicamente definidas, como a infância, adolescência, fase adulta e velhice aceitam o “é assim, e ponto!”. Ser velho, a imagem estabelecida do ancião, é questionada e não aceita por aqueles a quem o tempo e as marcas do corpo já denunciam a idade. O número de cirurgias plásticas estéticas em nosso país é enorme e muito acima do que seria aceitável, até há pouco tempo. (Entre setembro de 2007 e agosto de 2008 foram realizadas em média 629 mil cirurgias plásticas por ano no Brasil, destas 457 mil (73%) foram estéticas e apenas 23 % foram reparadoras. 55% das cirurgias estéticas foram em pessoas com idade acima de 36 anos. Fonte Datafolha/SBCP. In http://www.slideshare.net/senhorfisico/pesquisadatafolhasbcp?type=powerpoint)

E o adulto, por outro lado, é assim, e ponto? Não, não é!   

Essa rebelião contra o biologicamente estabelecido não é privilégio dos mais idosos, também a adolescência e a fase adulta vêm contestando os seus paradigmas. Cunhou-se até um termo para o novo adulto urbano, trata-se do adultescente, aquele adulto que já chegou aos 40 anos e recusa-se deixar a adolescência.

O neologismo foi criado pela revista New York para descrever o fenômeno presente em qualquer grande centro urbano do planeta. “Isso está ligado a uma percepção de que não existe sentido positivo na vida adulta. Para essas pessoas, envelhecer é uma experiência negativa”, disse à VEJA o sociólogo britânico Frank Furedi, professor da Universidade de Kent, na Inglaterra, e estudioso de comportamentos da sociedade contemporânea. (SOARES, Ronaldo. A Adolescência espichada. Veja, São Paulo. 2024. 5 de setembro de 2007). 

Nem mesmo a infância é mais aquela em que vivemos. O mundo infantil também vem perdendo seu lugar na sociedade contemporânea. Neil Postman, importante teórico da comunicação dos Estados Unidos, estudou a crescente influência da televisão sobre a criança, para constatar que a infância, como a conhecemos hoje, está deixando de existir. Em seu livro “O desaparecimento da infância”, Postman aponta para o fato de que a televisão não segrega o seu público, apresentando, indistintamente, a mesma programação a adultos e crianças. Não há mais, desta forma, segundo o autor, um “segredo” do mundo adulto, mundo este no qual a criança adentraria quando o “segredo” lhe fosse revelado.

São os novos paradigmas do mundo da intensa comunicação, da globalização, do mundo digital, da inteligência artificial, dos algoritmos. Os aparelhos celulares fizeram convergir em si o gravador, a TV, a filmadora, o telefone, o correio, os dicionários, os jornais e revistas, as bibliotecas, a informação, a comédia, o mundo, enfim, e, em consequência, faz a todos escravos de seus ditames.

A pluralidade do mundo contemporâneo traz um notório mal-estar em nossa civilização. Traz angustias individuais provocadas pela fluidez do mundo líquido que, no dizer do formulador desse conceito, Zygmunt Bauman, amolda as formas sociais, culturais e individuais à dinâmica de um mundo sem bordas, sem margens, sem fronteiras. Nada mais é assim, e ponto!

Se essa contemporaneidade coloca à prova nossa capacidade de tolerância, de aceitação e de compreensão do momento histórico que vivemos, ela também produz, naqueles que resistem ao contemporâneo, nos conservadores, uma ferve de violência e intolerância que extrapola o discurso e o debate e avança para ações de violência e práticas de intolerância. Propõem a morte do presente e o renascer do passado, como tese política ideológica.

Poderíamos, assim, dizer que esse mal-estar, essa angústia e esse inconformismo foram os grandes vencedores das últimas eleições.

Foi a grande procura por uma borda, por uma margem, por um ancoradouro que venceu as últimas eleições.

Foi vencedora a proposta da morte física dos plurissexuais, que ameaçavam a família tradicional; venceu a proposta de extermínio de tudo aquilo que assombra nossa sexualidade recalcada, os fantasmas de nossos pesadelos, que surgem com o kit gay em baixo do braço, no lugar da bíblia, que surgem como um falo, no lugar de um bico de mamadeira.

Quem venceu as últimas eleições foi a proposta da distopia, da recusa ao futuro e do renascimento do passado

Foi para parar o presente, para matar o futuro e louvar o passado que o Brasil elegeu seus atuais representantes políticos. Conservadores, em sua maioria.

A História, porém, não para. Sempre caminha e caminha para frente.

Se olharmos só para essa curta duração da história, que Fernand Braudel nomeou como o tempo do jornalista, não o do historiador, poderemos ter a impressão de vivenciarmos retrocessos, voltas ao passado, décadas perdidas.

Mas, a História é dialética e sempre aponta para o fim da tese dominante. Sempre cria uma tese diferente, anti tese, uma antítese que se contrapõe à tese estabelecida. Desse confronto nasce a síntese entre o que está posto e o seu oposto. É a luta permanente, sempre gerando o novo em forma de síntese que, por sua vez torna-se tese dominante a demandar outra antítese, num mote permanente de regeneração e renovação.

Foi na tese dominante das guerras, que sacudiu os espíritos dos que vivenciaram as primeira e segunda guerras mundiais, na primeira metade do século XX, que se forjou a antítese da paz.

“Faça amor, não faça a guerra” pregava a juventude do início da década de 1960. E pregava mais, muito mais. Pregava uma revolução na estrutura familiar, daquela família que reproduzia a ideologia dominante do sistema, sistema esse que mostrou sua incompetência ao jogar o mundo em duas guerras de escala mundial; pregava o amor como valor para além do casamento, pregava o amor livre; pregava a expansão da consciência com o uso de drogas; pregava um poder jovem, em antítese ao poder branco, macho, varão e rico.

As forças da reação agiram para, com a violência e o poder econômico, sufocar o movimento da juventude sessentista.

Olhando a curta duração histórica, veremos um fim patético daquele tão vigoroso movimento. Um olhar para a longa duração histórica, no entanto, mostrará claramente as suas permanências em nossa sociedade, que nunca mais foi a mesma, desde aquela década emblemática.

Hoje, olhando a realidade brasileira, vemos que as proposituras daquela juventude de 60 anos atrás confirmam-se à força na desintegração do modelo civilizacional da atualidade.

Nossa civilização rui frente a impossibilidade de manutenção dos modelos de família tradicional, de casamento tradicional, de tradicionais sexualidades, comportamentos, trabalho, ética, cultura, gênero...

A queda do nome do pai, na acepção lacaniana. 

O mal-estar de nossa civilização contemporânea é o sintoma agonizante de uma cultura, de uma tradição que já não cabe na nova realidade. A vida não é mais assim, e ponto! Essa falta de sentido que os conservadores enxergam no nosso admirável mundo novo é a miopia daqueles que não conseguem enxergar o novo sentido que nossa civilização aponta. Esse novo caminho é a sequência daquela luta iniciada logo após a Segunda Grande Guerra e que teve no movimento Hippie, no maio de 1968 de Paris, na rebeldia da juventude de toda a década de 1960 o seu norte traçado e violentamente interrompido pelo conservadorismo mundial.

Não se barra a História.

Paulo Cesar Pinheiro, um dos maiores letristas do samba brasileiro, em uma canção belíssima, composta em parceria com Maurício Tapajós, chamada “Pesadelo”, diz: “Quando um muro separa, uma ponte une (...)Você corta um verso, eu escrevo outro. Você me prende vivo, eu escapo morto. De repente, olha eu de novo, perturbando a paz, exigindo o troco (..) olha um verso, olha outro, olha o velho, olha o moço chegando. Que medo você tem de nós!”. A significativa letra do poeta nos serve muito bem como resposta àquelas pessoas que não aceitam a marcha da História. Essas, são pessoas singulares. Não no sentido de serem únicas e raras em sua singularidade, mas no sentido de somente aceitarem o singular, a resposta única, só aceitarem o “é assim, e ponto!”.

Mas, o que vem vindo no vento - como cantava Elis Regina, nos versos de outro poeta, Belchior – “sinto vir vindo no vento o cheiro da nova estação”, trará o descrédito total do singular, em nome da pluralidade absoluta.

Nosso mundo não aceita mais o ponto, no singular. Aceitará, talvez, três pontos, reticências, continuidade, não certeza, indefinido, qualquer outra coisa possível, o não lugar, o nomadismo, o plural.

Plural, o nome da próxima (e bem próxima) revolução.

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