A revolução dos bichos e a esquerda Red Pill
Antes que me venham falar de “luta armada” e “revolução” a última coisa que Diego, antes Zeidan, e agora Quaquá, vai fazer é propaganda de luta armada
Alguns finais de livros marcaram minha trajetória de leitor, cito três que foram verdadeiras epifanias para mim: o primeiro, Satã em “A revolta dos anjos”, de Anatole France, no qual o diabo é convidado para fazer uma revolução contra a tirania e a monarquia de Jeová e tem um sonho. Nele, como ambos, Deus e Diabo, compartilham da mesma natureza imortal, Satã vence, toma a monarquia do céu, e expulsa Jeová para a terra. Satã se torna o monarca ditatorial e Jeová vira Satã, então, o próprio Satanás tem uma epifania, se não é para mudar nada, para que afinal se faria uma revolução, e desiste da empreitada. A segunda, de “Grande sertão, veredas”, a descoberta por Riobaldo que Reinaldo, Diadorim, era, na verdade, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, toda aquela tensão sexual entre dois jagunços, numa sociedade permeada pela homofobia, ao final revelada como um pacto de silêncio da filha de Joca Ramiro para vingar o pai (óbvio que o livro não se resume a esta única tensão, mas o final é simplesmente fantástico) e, por fim, Napoleão, em “A revolução dos bichos”, de George Orwell, em que após fazer a revolução, Napoleão, o porco, a liderança dos animais, está sentado junto à mesa, com os humanos, negociando a carne de seus semelhantes e não sabe mais em que lado da luta está realmente.
Mas, porque afinal este irritante nariz de cera neste texto? É porque a semiótica da qual falarei faz lembrar, ao menos do livro de Anatole France, de uma esquerda que perde seu leimotiv e se vicia no aparelho do poder e nem sabe mais porque está lutando, ou transforma a luta num meio de vida no sentido vil de trabalho para se sustentar e manter o status quo; e do terceiro, do Napoleão de Orwell, que, ao fim e ao cabo, conquista o poder e se refestela nele, e anula os limites entre aliados e inimigos.
Numa mesma semana, duas notícias fazem pensar mais do que em tática e estratégia, em questões de fundo. Não é segredo para ninguém que Washington Quaquá faz qualquer coisa para agradar a platéia reacionária e bolsonarista para quem deseja falar. Numa inversão de valores da luta por corações e mentes, este “gênio da raça” convence alguns (ou não os convence e os fideliza por aparelho) que para “ser povão” e “falar a linguagem do povo” o caminho é transformar o senso comum em teoria e pautar a esquerda pelo programa da direita.
O abraço em Pazzuelo, o ministro da morte do governo Bolsonaro, a defesa aberta e escancarada de Brazão (o réu condenado pelo assassinato de Mariele Franco), a propaganda aberta e declarada de que “bandido bom é bandido na vala”, sem nenhum subterfúgio e que poderia ter saído da boca da Júlia Zanata, de qualquer um dos filhos de Bolsonaro, do próprio Bolsonaro pai ou de Marcel van Hatten, numa propaganda de ódio que vai contra tudo que a esquerda prega e “justificada” pelos feitos administrativos de Maricá e de alguns marcos de governo com viés de esquerda, como batizar o hospital municipal com o nome de Ernesto Che Guevara ou fazer acordos com Cuba e ou China. Em tese, este seria o “pragmatismo” da sua fração no PT, que consegue falar a língua do povo, e isto seria o caminho para o sucesso eleitoral do partido.
Na verdade, é uma renúncia a fazer a luta ideológica e a submissão à lógica de fazer todo e qualquer tipo de aliança para manter o poder, aproximando o discurso da esquerda ao pior sendo comum da direita mamadeira de piroca e que bebe detergente Ypê, um discurso para os ressentidos e frustrados – não à toa o recurso a xingamentos, palavras de baixo calão e ameaças, mostrando como se for necessário ele irá “fazer na mão” com este ou aquele desafeto, e os xingamentos inclusive homofóbicos ou machistas a seus adversários políticos como “viado, corno” (sic), seja dirigido a pessoas dentro do próprio PT, seja a Garotinho, não porque este seja um cara de direita (Quaquá não tem problema de transitar ou apoiar ninguém da direita), mas porque a régua política passa a ser a amizade ou inimizade pessoal.
E porque eu chamo este processo de “Esquerda Red Pill”, porque esta “estratégia” utiliza do mesmo apoio emocional ao macho frustrado e ressentido – e capta inclusive o apoio de muitos deles, que elogiam este discurso com o falso argumento de que “Quaquá combate o discurso identitário”. Este discurso “popular e da força” tolhe a análise racional através de um apelo ao menino frustrado e ressentido que vai passar a vida baseando suas escolhas na medição de sua “masculinidade”.
Dois eventos significativos que saíram, um na imprensa, outro na rede social, são bem ilustrativos desta semiótica. Uma a decisão da Direção Nacional do PT em intervir no Rio de Janeiro para evitar que o suplente ao Senado de Benedita da Silva fosse ou o cantor evangélico Kleber Lucas, ou o deputado Felipe Neto (ou os 2, sabe-se lá em que ordem), desejos da “política pragmática” de Quaquá, que se abstém de fazer qualquer embate ideológico ou enfrentamento ao avanço do fascismo. Quaquá pratica o entrismo, desfigurando o PT por dentro, fazendo o partido inchar através do seu aparelhamento, com adesões de figuras que não só são estranhas aos objetivos e ao programa que norteou a fundação do PT socialista, como são mesmas inimigas declaradas de tudo que o PT representou de novidades, anseios e esperanças com sua fundação. É a necrose, por dentro, do partido, que ao permitir que se perca suas nuances e limites ideológicos corre o risco de passar por processo semelhante ao que ocorreu nos partidos socialistas da França e do Chile, que ao fim e ao cabo, não dissentiam ou não diferiam muito dos partidos liberais em suas fronteiras.
Um partido não é um aparelho em si mesmo, é parte do pensamento da sociedade, e a adesão a ele é um processo de fidedignação a ideias comuns que norteiam a luta por um objetivo maior que apenas ganhar eleições ou conseguir cargos de primeiro a décimo nono escalão, seja nos governos municipais, estaduais ou federal. István Mészàros já alertava para a doença da conversão dos grandes partidos socialistas e comunistas em aparelhos subvertidos a uma lógica de aparelhos burocráticos, que acabavam por se tornar fim em si mesmos, com um exército de burocratas que, ao fim e ao cabo, acabavam transformando a vida interna do partido em um fim em si mesmo e na luta pela sobrevivência pessoal através da permanência na estrutura do poder como um meio de sustentação, como um “trabalho”. Contra esta burocratização e esta perversão do PT, em uma estrutura de poder dócil e leniente aos interesses da elite, deve ser o objetivo da militância cotidiana e árdua daqueles que não veem o PT como um fim em si mesmo, mas sim como um instrumento de mudança da sociedade brasileira, de luta de classes e de luta pelo socialismo.
O outro fato merece até virar uma anedota. O filho de Quaquá, que virou algo semelhante a um 01 com verniz de esquerda, vai a um CAC (estes aparelhos ideológicos do bolsonarismo, que hoje são estruturas que servem para armar e financiar o crime organizado) com uma blusa estampada com a cara do Lula em uma pose que levaria Júlia Zanata a aplaudi-lo. Com um fuzil na mão, evocou Marighela e Che Guevara (que devem estar se revirando no túmulo) para tentar criar uma simbiose com o eleitor bolsonarista.
Aqui cabem muitas notas sobre esta foto patética.
Primeiro, a direita não vai votar num candidato de esquerda porque ele está com um rifle na mão. Entre Carlos Bolsonaro com um rifle na mão e Diego Quaquá imitando o filho do Bozo, o eleitor de direita nem pestaneja em votar no bolsonarista original. Segundo, tornar palatável o armamento da população para fingir que “está discutindo política de segurança” é dar força ao senso comum do “bandido bom é bandido morto’, como se o armamento letal disseminado entre a população não servisse ao fim e ao cabo para a execução covarde de mulheres, gays, lésbicas, trans, negros pobres na favela. Terceiro, antes que me venham falar de “luta armada” e “revolução” a última coisa que Diego, antes Zeidan, e agora Quaquá, vai fazer é propaganda de luta armada, que sequer é uma pauta de qualquer partido da esquerda no Brasil no século XXI. Para agradar o bolsonarismo não me espantaria se na próxima semana Diego Quaquá não aparecesse bebendo um frasco inteiro de detergente Ypê.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

