A rinha



Era uma sexta feira de um dia chuvoso. Nebuloso pela natureza e pela incerteza diante do inimigo insondável que assola a humanidade. Há poucas pessoas nas ruas, apenas àquelas que nunca tiveram onde ficar, ou o pequeno comerciante que não pode parar durante o isolamento social. Mal sabe  ele que parará eternamente com a morte. Dei-me a pequena alegria de dormir mais um pouco. Afinal, a maioria dos meus horários de trabalho está sendo decidida por mim mesma. Outra satisfação nesses dias conturbados. Trato de aproveitá-las. Sou  ainda uma privilegiada em meio ao caos.

Ao me levantar, depois de ouvir os gritos insistentes dos meus bichos, por comida fresca, pego minha nau com as mãos e navego na internet. É perceptível um murmurinho nas redes sociais, alguns tratavam o acontecido como uma bomba, outros como algo previsível. Mais tarde assistimos à confusão:

_Foi ele quem não me deixou trabalhar! O ex juiz de olhar baixo e voz fanha reclamava.

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_Não! A culpa foi dele, que não abriu o seu coração para mim! Afirmava o  tresloucado presidente, com respiração nervosa, fala trêmula e rosto ruborizado de ódio.

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_Ele queria os relatórios da PF! Insistia o ex magistrado e agora, ex-ministro, na réplica.

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_ Ele me apunhalou e O Zero Quatro pegou todo mundo no condomínio, tá ok? Treplicou o transtornado.

Atônita, a plateia verde amarela presenciava o desfecho melancólico de um caso de amor, que acabou em litígio nas altas cortes do país. Alguns da trupe canarinha recorriam às redes sociais para elevarem a autoestima de traídos amargurados, e também para o mea-culpa  pela sujeira que ajudaram a espalhar no quase... sempre... talvez... um dia... país do futuro. Pensam eles que nos enganam! Outrora robôs, se auto desmontaram com a cisma entre os seus líderes, jogando parafusos e peças enferrujadas pelo rancor e pela velha política, para todos os lados. Essa  gente, antes unida e  agora  dividida, recorreu à fúria e ao fogo para rasgar e queimar as bandeiras dos protagonistas da peleja.

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Pró Togado e Pró Miliciano se enfrentam. A rinha era fomentada pelo animador de auditório  de cada grupo. Ao microfone um dizia: COMUNISTA! E o bando repetia: TOGADO COMUNISTA!  TOGADO COMUNISTA! Esfarrapavam com os dentes, bandeiras e camisas que ostentavam a imagem do comunista da hora. O outro comunicador, também ao microfone, gritava: TRAIDOR, TRAIDOR! E a plateia condoída pela alicantina, queimava cartazes com a figura do presidente e repetia: PRESIDENTE TRAIDOR!  PRESIDENTE TRAIDOR!

Assistindo tudo ao longe, um jovem com pinta de estrangeiro, 19 anos, se aproxima dos grupos, puxa o megafone que carrega dentro da bolsa e grita: ELE É PERIGOSO! Nesse momento, os dois grupos se entreolham em concordância e o ainda obscuro jovem complementa: E EU TAMBÉM! Calados, não entendem nada. O jovem guarda o megafone na bolsa, sai de fininho, e os grupos dissonantes voltam a se enfrentar: COMUNISTA! TRAIDOR!

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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