A saga dos sem terra

"Depois de publicar quatro livros*, o jornalista Ayrton Centeno está lançando 'Primeira Terra' livro-síntese da história dos movimentos sociais-rurais", relata

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(Foto: Reprodução)


Depois de publicar quatro livros*, o jornalista Ayrton Centeno está lançando “Primeira Terra”, livro-síntese da história dos movimentos sociais-rurais e que usa como ponto de partida e de chegada a invasão da Fazenda Sarandi em 1979, quando ainda não existia o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fundado em 1984.

Com 224 páginas, o livro é fruto do esforço pessoal do repórter que esteve presente nos primórdios das ocupações mais tarde transformadas em assentamentos oficiais cujos nomes – Sarandi, Nonoai, Encruzilhada Natalino e outros – fazem parte da história da reforma agrária no Brasil.

Inicialmente sulinos, a partir de certo momento esses episódios passaram a se ligar ao movimento migratório para o Brasil Central, no embalo da sojicultora e sob a tutela dos governos militares, que envolveram fazendeiros convertidos em loteadores agrários e estimularam a criação de cooperativas de colonização.

Por sua amplitude e contundência, “Primeira Terra” é um épico do jornalismo que merece ser lido e discutido, tanto pelos fatos históricos que apresenta como pela linguagem extremamente enxuta com que dá voz aos párias da sociedade rural brasileira, sem cair no romantismo pobreirista nem escorregar no rancor clássico antilatifúndio.    

Segundo antropólogos que se debruçaram sobre esses movimentos, seus protagonistas – colonos sem terras e índios banidos de suas áreas originais -- constituem as categorias sociais mais sacrificadas da população brasileira. Em alguns momentos da história, tais personagens se colocam em lados opostos, como quando os índios caingangues expulsam de sua reserva no norte do RS um contingente de colonos que acabam sendo alojados temporariamente nos pavilhões da Expointer, em Esteio, de onde são levados para o Mato Grosso. 

Nesse aspecto, Primeira Terra é uma reportagem (11 capítulos) que nos leva a concluir que o drama prossegue hoje em dia na Amazônia onde agricultores, criadores de gado, garimpeiros e madeireiros invadem terras de índios, repetindo cenas que fazem parte da história da ocupação do território brasileiro desde 1500.

Com foco nos episódios de 1979, Centeno recupera documentos gerados por colegas da imprensa e estudiosos da universidade. Entre os repórteres que estiveram no palco das primeiras invasões, são citados Najar Tubino,  André Pereira, Renan Antunes de Oliveira, Imara Stallbaum e Carlos Wagner. Entre eles, atuando como freelancer, estava o próprio Centeno. Ele conta:

“Logo após a ocupação, em 1980, eu e o Guaracy Cunha, que trabalhávamos na sucursal da editora Bloch (em Porto Alegre), fizemos o filme da ocupação chamado Fazenda Sarandi. Era um super 8. Em seguida, como decorrência da ocupação, começaram a surgir barracas e mais barracas de lona preta, palha, zinco em Encruzilhada Natalino. Passamos a acompanhar o caso de Natalino, o maior acampamento de sem terra do país na época e fizemos outro super 8”.

Mais de vinte anos depois, sem nunca ter se distanciado do assunto, Centeno escreveu o roteiro de um novo documentário chamado Sarandi, dirigido por Carlos Carmo, português que fora diretor de produção da TVE/RS. Com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário, então chefiado por Miguel Rossetto, o vídeo recontou a ocupação de duas granjas que operavam

dentro da fazenda Sarandi, latifúndio que abarcava as terras onde estão hoje vários municípios como Sarandi e Ronda Alta. As antigas invasões são assentamentos onde vivem com suas

famílias pequenos agricultores que conseguiram sair da miséria para a pobreza com a dignidade da casa própria e um carro do século XX. 

 Recentemente, para fazer o livro, Centeno aproveitou depoimentos gravados e não utilizados ou parcialmente utilizados no filme. E foi mais três vezes à região para colher mais depoimentos e fazer fotos. Além disso, o livro foi enriquecido com leituras e pesquisas históricas sobre a luta pela posse da terra desde o Brasil colônia. Em alguns trechos, a narrativa toma ares de romance, pois recupera a linguagem rua usada no cotidiano por agricultores sem instrução.

 O resultado final é um livro raro que por enquanto só está disponível em dois locais: na Editora Autografia do Rio e na Livraria Vanguarda, de Pelotas, a terra natal do autor.  

* Escreveu as biografias do poeta Alceu Wamosy e do ecólogo Henrique Roessler; o ensaio histórico Os Vencedores (sobre a resistência à ditadura militar) e O Segundo Sangue, sobre futebol.

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