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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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A série “O Testamento”, as Casas Pernambucanas e o romance

No momento, uma das séries mais vistas no Brasil é “O Testamento: O Segredo de Anita Harley"

Casas Pernambucanas (Foto: Divulgação)

No momento, uma das séries mais vistas no Brasil é “O Testamento: O Segredo de Anita Harley“, da Globoplay. Sobre a série, podemos ler no site AH Aventuras na História:

Anita Harley, de 78 anos, é bisneta de Herman Lundgren, criador das Casas Pernambucanas. Ex-diretora da empresa e figura central no grupo, ela assumiu posição de destaque após a gestão da mãe. Em 2016, Anita sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e desde então permanece em coma, internada no Hospital Sírio-Libanês. Sua condição de saúde deu início a uma disputa que, certamente, ainda está longe de uma conclusão. O patrimônio de Anita Harley é estimado em cerca de R$ 2 bilhões. Ela detém aproximadamente 48% das ações de uma das holdings ligadas à Casas Pernambucanas, o que a torna a maior acionista individual do grupo”.

A série, que se desenvolve como uma coleção de depoimentos e contradições entre as falas, nem de longe aprofunda a origem de tão fabulosa fortuna, como foi construída a sua riqueza. Ou o caráter de classe, da opressão sobre os operários nas fábricas da família Lundgren em Pernambuco. Do começo, meio e fim na cidade de Paulista, na região metropolitana do Recife, quando o velho Frederico Lundgren fundou o império.

Mas a confusão vem de longe. Rápida pesquisa na Internet mostra que os trabalhadores sofriam o regime selvagem de exploração, como trabalho infantil, atraso e falta de pagamento de salário, perseguição aos sindicalizados e outras violências. Mas em nenhum lugar na Internet, até onde pude ver, não se menciona que o Frederico Lundgren “comia” as operárias, no trabalho e no sexo das mulheres. E que produziu muitos filhos e filhas Ou seja, o domínio do Senhor produziu uma geração de herdeiros à margem da família cristã. Filhos e filhas das operárias, que ele tinha a bondade de reconhecer como produtos naturais do varão, em registros de virilidade. O que Engels escreveu em “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra” se fez presente na fábrica de tecelagem do Lundgren:

“A sua fábrica é, ao mesmo tempo, seu harém. O fato de nem todos os industriais fazerem uso de seu ‘direito’ não altera a situação das moças; de qualquer maneira, nos inícios da indústria manufatureira, na época em que a maior parte dos industriais eram novos ricos, ignorantes e sem respeito à hipocrisia social, não renunciavam nunca a desfrutar desse ‘direito adquirido’ ”.

Publiquei no jornal “Diga, Olinda”, editado por Ildefonso Fonseca e Ruy Sarinho, reportagens sobre a briga pela herança entre Ornilo Lundgren, um dos filhos naturais do império do patrão, e Nilson Lundgren, em 1984. Na época, Nilson era o presidente e dono da rede das Casas Pernambucanas. Ornilo, presidente do clube Elefante de Olinda, era o líder de filhos adulterinos do velho Frederico. Mas as reportagens em papel e sem publicação on-line se perderam.

Por felicidade, pude escrever e está publicado como reflexo da realidade a minha memória sobre Ornilo Lundgren, que foi recriado no romance “O filho renegado de Deus” no personagem Artur Fisher. É curioso, como uma lei geral, que os explorados chutam outros explorados em escala descendente, de cima para baixo, até que o chute atinja os cachorros. No tempo do romance, Ornilo era proprietário de uma vila de casinhas, da dimensão de quartos num beco em Água Fria, onde os muito mais pobres moravam. As casinhas continuam lá. E o romance ainda está aqui, em um dos trechos:

“Artur Fisher, o dono da vila. Homem alto, cerca de um metro e oitenta e cinco, forte, largo como um armário, de braços robustos. Mulato, de cabelos crespos cortados rente, deixando-o quase calvo, bochechas cheias de glutão. Seu Artur Fisher da Silva Filho era um homem que, se não guardasse a condição de explorar os mais miseráveis, seria uma pessoa simpática e até amorável. Mas não são assim todas as pessoas? Se lhes tiramos os aspectos mais odiosos, ficam agradáveis total e todas. Quando o suspendem pela santidade, Jesus caminha sobre as águas, sempre. Assim também com Artur. Chamado de seu Artu ou seu Fiché pelos mais ignorantes, ele olhava para os da vila como inferiores. Isso para os moradores mais próximos. Vale dizer, os mais próximos do seu status eram promovidos a inferiores. Os demais, os que o chamavam de seu Fiché, eram seus empregados, ainda que sem relação de emprego ou salário. E aqui se dava uma inversão bem curiosa: os mais miseráveis eram seus empregados, mas lhe deviam por tal sujeição o pagamento do aluguel de uma casinha sem atraso. Aqui e ali, assim de passagem, como quem nada quer, dizia ser descendente de norte-americano, e rico, acrescentava. E nem precisava de tal acréscimo, porque para os miseráveis ser filho de americano, ou de modo mais geral, de estrangeiro, era o mesmo que ser filho de rico. Mas seu Artur mencionava tão afortunada ascendência e dava um salto rápido de acrobata. As pessoas não notavam qualquer contradição em ser mulato, de olhos negros, vivíssimos, e ser filho de gringo, louro, “galego”, como supunham ser todos os gringos. Não viam, nem podiam ver, porque a melhor prova de sua ilustre filiação estava nele próprio, homem alto, forte e rico. Porque o viam assim, abastado proprietário daquelas casinhas que julgavam casas. E Artur, como um novo gordo Oliver Hardy sem o magro Stan Laurel, falava inglês com fluência de bochechas e sons ininteligíveis para quase todos. Só podia ser mesmo filho de gringo. E mais ele não dizia, pois a sua real origem, dizia, ‘a ninguém interessava’.

O Artur que se fizera a si mesmo era um Fisher de resto de ceia, um Fisher como prêmio de consolação, a pulso, sem ascendência e herança plena. O gringo original, Arthur Fisher, havia sido um incansável fornicador de boas negras do Brasil. Negras boas de talho e saúde, é claro, mas negras suas empregadas em propriedades rurais. Fazendeiro de terras, o gringo também era fecundo fazedor de meninos. Com incentivos e créditos do governo brasileiro, ele pôde fazê-los à grande, pois a pátria nova era o próprio céu aberto. E dos seus investimentos frutificaram mulatinhos, primeiro agarrados à saia da mãe, depois à espera da bênção do investidor, que relutava, não conheceu a muitos e recompensou raros com sobras de mínimas posses. A negra Donata devia ser uma trabalhadora de muita fibra e calor para receber um pouco mais que a certidão de nascimento de Artur. Mulher de amor vário, sem pudor e sem fronteira, ela devia ser. Daí que Artur, em lugar de se dizer, como sempre se vangloriava, um self-made-man, mais propriamente devia se dizer um self-made-outra coisa. Para não insultar os seus frutos como filhos de uma puta”.

No romance, esse era um dos Lundgrens filho de operária das fábricas. Na série “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, tais pessoas em briga pelos bilhões nem existem. Ainda assim, a história não se apaga.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.