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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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A série "O Testamento" e os herdeiros das Casas Pernambucanas

Produção ignora conflitos históricos reais e simplifica disputa bilionária dos herdeiros Lundgren

A série "O Testamento" e os herdeiros das Casas Pernambucanas (Foto: Arquivo pessoal)

As notícias falam que a série “O Testamento: O Segredo de Anita Harley” mostra as desavenças em torno do comando das Casas Pernambucanas que já duram gerações. Mas, caros leitores, as “desavenças que duram gerações” a série não mostra.

Na semana passada, publiquei o texto “A série ‘O Testamento’, as Casas Pernambucanas e o romance”. Nele, eu informava que “publiquei no jornal ‘Diga, Olinda’, editado por Ildefonso Fonseca e Ruy Sarinho, reportagens sobre a briga pela herança entre Ornilo Lundgren, um dos filhos naturais do império do patrão, e Nilson Lundgren, em 1984... Mas as reportagens, em papel e sem publicação on-line, se perderam”.

Pois, amigos leitores, fui ao Arquivo Público de Pernambuco e recuperei, com fotos, a reportagem. Como diziam os apresentadores de auditório, “temos a grata satisfação de receber”, de mostrar agora a reportagem “A roupa suja das Casas Pernambucanas” em seus principais pontos.

Publicada em 3 grandes páginas do jornal “Diga, Olinda”, em 31 de agosto de 1984, a reportagem começava já na primeira página:

“Os herdeiros de Frederico Lundgren revelam: ‘Dois trilhões de cruzeiros das Casas Pernambucanas’ são nossos. Cedemos à força o nosso direito de continuarmos à frente dos interesses das Casas. Nossos tios nos obrigaram a vender 25% das ações por 52 milhões de cruzeiros antigos, na base do ‘ou esse dinheiro, ou nada’. Um arrumadinho que deu na maior rede comercial do país.

Da 1ª Vara de Paulista veio a notícia. Reconhecido o direito dos herdeiros em todos os tribunais brasileiros, a 13 de agosto deste ano o Dr. Antônio de Oliveira e Silva mandou executar perícia e devassa nos papéis das Casas, a fim de que paguem o que devem. Um golpe de morte para os Lundgrens no poder, um golpe de vida para os Lundgrens espoliados.

Foram vinte e dois anos de luta, dentro e fora dos tribunais, contra um poderoso grupo que tudo fez para impedir a vitória dos 22 filhos de Frederico Lundgren.

Ornilo Lundgren, líder dos herdeiros, denuncia: ‘meu primo Nilson Lundgren está vendendo todo o patrimônio iniciado por nosso pai’ …”.

A grande reportagem continuava nas páginas inteiras 4 e 5:

“Seu Ornilo, Lundgren, naturalmente

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Ornilo Lundgren(Photo: Arquivo pessoal)Arquivo pessoal

Seu Ornilo é um homem forte, que já venceu um infarto e uma trombose. Mulato, ombros largos, a sua presença não infunde nenhuma ameaça. Tem um jeito bonachão, de quem está há muito acostumado a tratar as contradições, as diferenças entre as pessoas, com um gracejo, um mimo, um tapinha nas costas. Mas não se confunda isto com frouxidão, moleza: quando é chamado a defender seus interesses, ele muda, fecha-se, devolve sem pestanejar....

“Em 1946, meu pai era sócio de todo o grupo, com 25%. Então, talvez ele, prevendo a posição que os outros sócios tomariam em relação aos filhos dele, no caso de ele morrer, uma vez que a maioria de nós era tupiniquim (aponta a própria pele) – esse racismo desses meus parentes, que é um racismo besta –, meu pai deixou em seu testamento o direito de permanecermos em suas firmas. As Pernambucanas

As pernambucanas eram 19 mulheres, em sua maioria operárias do Engenho Têxtil Paulista, a quem Frederico Lundgren engravidou. As dezenove, em conjunto, deram-lhe 22 filhos, todos Lundgren, reconhecidos em cartório pelo pai.

Se era um expediente mais ou menos comum, em industriais europeus do século passado, o ato de engravidar operárias que lhes agradassem, a diferença para Frederico Lundgren reside no fato de ele ter aceitado a paternidade de filhos concebidos no exercício da mais-valia.

Ao mesmo tempo, Frederico Lundgren não teve outros filhos de seu casamento legal, pois a esposa morreu três meses depois da cerimônia. Seus únicos (?) filhos são os 22 naturais, Lundgrens, mulatos fortes, mestiços de Pernambuco. Mas aqui termina o casamento de Casa Grande e Tear.

Negócios

A morte de Frederico João Lundgren, em 25 de fevereiro de 1946, vem surpreender esses Lundgrens mestiços em menor idade. Os tios, possuidores de 75% das ações, não se dão por achados. Pelo contrário, a morte do irmão não lhes poderia deixar melhor oportunidade de empalmarem o resto das ações. Naturalmente, livres de 22 sobrinhos incômodos, filhos ‘ilegítimos’ do velho Frederico, tudo, os sobrinhos, má gente. E fazem então um ‘negócio’.

Através de pressões as mais diversas, na base do ‘ou vocês aceitam esse dinheiro ou nada’, como diriam mais tarde os herdeiros Ornilo e Herculano, trocam os 25% das ações por 52 milhões de cruzeiros antigos. Esse dinheiro foi não só dividido em partes diferentes entre os filhos de Frederico, ao sabor dos diferentes poderes de barganha de cada um dos herdeiros, como também foi uma operação realizada sem a presença de um curador especial dos menores. Ou seja, é um negócio realizado sem obediência sequer a uma elementar e aritmética regra de sociedade. Mas tudo dentro da ‘legalidade’, de papel passado, com amplos e gerais recebimentos e quitação dos herdeiros. Pronto: haviam liquidado os haveres de Frederico João Lundgren.

Aos tribunais

Ornilo Lundgren, um dos herdeiros lesados, descobre, na curva dos anos 60, que seu pai havia autorizado a participação dos filhos na direção das empresas do grupo. Isto em testamento. Ornilo parte então na liderança, com os demais herdeiros prejudicados, para tentar anular a liquidação dos bens de Frederico Lundgren. E argumenta: ‘esta venda foi realizada sob ameaças, a preço arbitrado pelos Lundgrens no poder, sem curador que representasse os interesses dos herdeiros menores’. Foi um arrumadinho, e vira a mesa.

Uma noite na Justiça dura vinte e dois anos.

A vitória

Talvez os próprios diretores das Pernambucanas, ou os Lundgren no poder, como os prefere chamar Ornilo, não acreditassem na vitória dos primos pobres. Afinal, ninguém acorda para um pesadelo.

Que veio, na humilde pessoa de um juiz de Paulista, doutor Antônio de Oliveira e Silva, que simplesmente deu curso aos autos:

‘... o Direito Brasileiro hoje se encontra repleto de possibilidades para as partes no que tange à procrastinação dos feitos. No caso sob judice, revela, por que não dizer, verdadeiro ato de selvageria, marchas e contramarchas têm se procedido, sendo que os fracos cada dia se acham mais fracos, tudo isso devido às chances processuais que são concedidas na aplicação da Lei, especificamente àqueles que contêm o poder econômico em mãos: simples intimações, de alguns instantes, perduram seis meses para sua realização....’ (do início do seu despacho).

Foi um deus nos acuda. Os Lundgren no poder pediram tempo, mais tempo, e seus advogados levantaram suspeição do mui digno dr. juiz da humilde comarca de Paulista, arguindo que, de um despacho assim, boa coisa não podia vir. Havia certamente tendência pró-herdeiros filhos ilegítimos. Mas, um ano e meio depois, o Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco confirmou a imparcialidade do dr. juiz. Num dia 13 de agosto, a bomba estourou: perícia e devassa nos papéis das Casas Pernambucanas”. A reportagem continuou com estimativa das somas bilionárias devidas aos herdeiros espoliados. Mas fico por aqui. Compreendam, por favor: digitar copiando de fotos de celular é trabalho que cansa além da conta.

Por fim, as notícias até hoje falam que o documentário “O Testamento: O Segredo de Anita Harley” resgata o passado da família Lundgren. Sério engano. Como se vê na reportagem de 1984, não foi bem assim. A história real é mais fascinante. Bem mais, devo dizer. Bens e haveres.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.