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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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A serviço de fontes escusas, jornalistas dão conselhos a Lula

Colunistas ultrapassam o papel analítico e tentam influenciar decisões do presidente sob pressão de interesses econômicos

Jornalismo (Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/ABr)

Quando não estão ocupados em produzir PowerPoints tendenciosos, colunistas, articulistas, analistas, comentaristas e outros “istas” do autodenominado “jornalismo profissional”, amadoristicamente, gostam de dar conselhos ao presidente da República. Não cuidam de interpretar cenários, contextualizar falas e prever possíveis desdobramentos. Ouvem uma fonte de interesses escusos, que adoraria ser conselheira dos atos presidenciais, e atiram contra o alvo. A pose é de expert em política e administração pública.

Alguns desses colegas iluminados são especialistas em alertar o chefe do Executivo para a necessidade de dialogar com “o mercado”, como se esse ente espectral estivesse aberto a qualquer discussão que não lhe resultasse em ganhos financeiros. Como se tal interlocução, ainda que inglória, não constasse da agenda permanente de técnicos da administração pública. O que tentam esses “conselheiros”, na verdade, é cevar um clima de pressão sobre o governo para que ceda aos anseios da finança.

A área de comunicação do governo também está no foco constante dos conselheiros da mídia. Estratégias de marketing, revisão de posturas, leitura de pesquisas, mudanças de linguagem – os colunistas mainstream parecem querer pular para outro lado do balcão e pilotar o marketing governamental. O tom, irritantemente, é normativo: não apenas descrevem o que acontece, mas dizem o que “deve ser feito”. Portam-se como especialistas na moldagem da opinião pública.

Esse tipo de abordagem escapa à expressão de um jornalismo opinativo qualificado, constituindo uma forma de pressão política indireta, sobretudo quando há convergência com interesses econômicos ou institucionais específicos. Esse jornalista tenta parecer um conselheiro informal do poder, sem a mediação democrática inerente ao seu ofício.

O jornalismo de opinião deve servir à contextualização de decisões, ao apontamento de contradições, à interpretação de movimentos políticos e econômicos. Há que ser crítico, analítico e voltado ao leitor, não ao governante. Não é razoável, além de ser ridículo, fazer recomendações diretas ao presidente da República, ao governador ou a outro mandatário qualquer.

Como já contamos neste espaço, este jornalista trabalhou durante oito anos num palácio de governo, produzindo releases para a imprensa sobre gestões de dois governadores. O palácio era o dos Bandeirantes, e os governadores eram Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho. Não me queiram mal por isso.

Vale repetir o texto referido.

Era como frequentar uma escola ver os colegas credenciados no Comitê de Imprensa do Palácio dos Bandeirantes — os setoristas — darem longos expedientes até que o governador se dispusesse a lhes conceder entrevista, ou mesmo ter com eles uma conversa informal, na qual certamente lhes seria dada alguma informação em primeira mão. Eram todos profissionais experimentados; alguns cobriam o Palácio desde os tempos de Adhemar de Barros.

Fleury não tinha nenhum tostão de carisma, mas Quércia era espirituoso e inteligente — um “peixe ensaboado”, como o Interior batiza os espertos. Ocorre que a intimidade que fingia manter com os setoristas encorajava-os a atitudes no mínimo engraçadas. Alguns tinham por hábito dar conselhos políticos e administrativos ao governador, que fingia levá-los em consideração.

“O senhor deveria cuidar primeiro disto, depois daquilo”, “Se eu fosse o senhor, não acreditaria nesse sujeito”, “Por que o senhor não convida fulano para aquela vaga no secretariado?”, “O senhor deveria trocar X por Y”. Quércia fazia cara de interessado e agradecia “muito” pelas dicas. Jamais se teve notícia de ter acatado qualquer uma delas.

Colunistas, comentaristas e congêneres de hoje parecem ser descendentes intelectuais dos setoristas do Palácio dos Bandeirantes dos anos 80. Não resistem a dizer o que Lula deve fazer ou falar. Em vez de analisar as reais razões e as verdadeiras intenções de um ato ou fala do presidente da República, bem como suas consequências, comportam-se na mídia como se dissessem: “Se eu estivesse no lugar de Lula, faria aquilo, não isso”.

Por ter duas ou três fontes no poder, essa turma julga-se conhecedora da mente do presidente e acredita ter meios de induzi-lo a esta ou àquela atitude. Dizer que Lula “derrapou” num discurso é uma interpretação; afirmar que Lula deveria ter dito “assim, e não assado” é muita pretensão, a menos que se esteja pleiteando o posto de conselheiro ou assessor presidencial — e Lula já os tem de sobra.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.