A sina da Petrobrás: criada pelo e para o povo, sendo furtada para o mercado

O povo e a economia brasileira precisam de uma Petrobras que atenda às necessidades de consumo de derivados em todos os seus rincões e com os menores preços possíveis. De forma inversa, nas mãos do mercado, será dada prioridade às regiões mais rentáveis e sempre com os maiores preços possíveis

(Foto: ABR)

INTRODUÇÃO

Já falei muito sobre a luta para a criação da Petrobras, cuja atividade sempre foi alvo da cobiça de empresas e do capital estrangeiro. 

Personagens fundamentais como o General Horta Barbosa que nos anos 40 do século passado fazia afirmações válidas até hoje: 

“Pesquisa, lavra e refinação (de petróleo), constituem as partes de um todo, cuja posse assegura poder econômico e poder político. Petróleo é bem de uso coletivo, criador de riqueza. Não é admissível conferir a terceiros o exercício de uma atividade que se confunde com a própria soberania nacional. Só o Estado tem qualidades para explora-lo, em nome e nos interesses dos mais altos ideais de um Povo” 

Ou Getúlio Vargas que em sua carta testamento esclarecia o que sentimos atualmente : 

“Quis criar a liberdade nacional na potencialização de nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma”.......”Não querem que o trabalhador seja livre, não querem que o povo seja independente. “  

Em 1953 com a Petrobras foi criado o monopólio do petróleo no Brasil. 

Na época, o senador da UDN Plinio Pompeu, declarou em entrevista aos Diários Associados : 

“A culpa (da criação da Petrobras) é do governo, que não teve coragem de resistir à onda comunista e nos deu este projeto horrível que aí está”.....”O nacionalismo tacanho levará ao fracasso, dentro de um ano, no máximo, a exploração de petróleo no Brasil”.  

O discurso em defesa do capital estrangeiro e do entreguismo  também não mudou muito nos nossos dias. 

BREVE HISTÓRICO 

Em 1953 o Brasil consumia 150 mil barris dia de derivados de petróleo e só contava com uma refinaria operada pelo Conselho Nacional de Petroleo – CNP na Bahia, com capacidade de produção de 3,7 mil barris dia e uma refinaria particular do grupo Ipiranga, com produção de 6 mil barris dia . 

A Petrobras se desenvolveu por esforço próprio, sempre dando passos conforme o tamanho de suas pernas, nunca recebeu privilégios, especializando-se em princípio no refino e na exploração. Trouxe grandes benefícios para a nação. 

Não fosse a Petrobras, toda a geração de empregos, renda, impostos e desenvolvimento de tecnologias na área de petróleo iriam para o exterior.

Em 1980 o Brasil produzia (com a Petrobras) 200 mil barris dia de petróleo e importava para processamento (pela Petrobras) 400 mil barris dia.

A descoberta de petróleo no pós-sal da bacia de Campos trouxe a auto suficiência na produção de petróleo. 

Nos anos 90 do século passado, no governo FHC, foi extinto o monopólio do petróleo no Brasil e o mercado brasileiro foi aberto a todos os interessados. Logo depois as ações da Petrobras foram lançadas na bolsa de Nova Iorque. 

A descoberta na bacia de Campos propiciou o desenvolvimento de tecnologias próprias que levaram à descoberta do pré-sal em 2006.

A companhia se tornou líder mundial na exploração e produção em aguas profundas e ultra-profundas. 

O pré-sal brasileiro é a maior descoberta de reservas de petróleo das últimas décadas. Reservas que devem superar os 100 bilhões de barris, segundo experientes geólogos. 

Poços que produzem mais que os melhores poços árabes.

Tudo foi obtido graças aos esforços, a capacidade e a disciplina de abnegados técnicos brasileiros e ao apoio do governo. 

Hoje, graças a Petrobras, o país é auto suficiente em produção e refino de petróleo.

Mas de que adiantam todas as conquistas alcançadas ? Todo esfôrço dispendido ? Todos os recursos aplicados ? 

O PRE-SAL 

A descoberta do pré-sal provocou um crescimento descomunal da cobiça internacional. Espionagem, escutas, roubo de documentos, infiltração de lobistas na ANP e na Petrobras etc. 

Aconteceu, e continua acontecendo de tudo.  

Em 2010 foi descoberto o campo super gigante de Buzios. 

Foi também estabelecido o regime de partilha na exploração do pré-sal, em substituição ao regime de concessão. 

Também em 2010 foi feito o primeiro leilão das reservas do pré-sal (campo de Libra) . 

Um consórcio encabeçado pela Petrobras (operadora) venceu o leilão. 

De 2009 a 2014 a companhia fez os maiores investimentos de sua história, superando US$ 250 bilhões, com o objetivo de transformar o pré-sal num projeto de desenvolvimento nacional. 

Foi neste período também que a empresa alcançou os maiores lucros, as maiores gerações de caixa e fez as maiores distribuições de dividendos de sua história. 

Puxado pelos investimentos da Petrobras o PIB crescia e o país apresentava superávits primários e não déficits, como ocorre hoje. 

Subitamente em 2015, com os levantamentos feitos pela operação Lava Jato, a constatação da existência de corrupção no coração da empresa, com envolvimento de gerentes, diretores etc, todo o processo foi interrompido. 

Os recursos envolvidos eram muito elevados, proporcionais aos investimentos que vinham sendo feitos. 

Era a oportunidade que aguardavam aqueles que não viam com bons olhos o projeto de desenvolvimento nacional. 

Todos sabemos que no Brasil sempre existiu corrupção, tanto em empresas estatais como em empresas privadas. Basta ver a entrevista do insuspeito Ricardo Semler “Nunca se roubou tão pouco” copiado a seguir : 

https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2014/11/nunca-se-roubou-tao-pouco-por-ricardo-semler/ 

Mas aquele era um momento especial, quando estava em andamento um grande projeto de soberania brasileira. 

A ênfase dada pela mídia à corrupção na Petrobras foi muito maior do que a outras ocorrências ( exemplo o caso Banestado ). Existiam outros fortes interesses envolvidos. 

Não posso afirmar, como muitos afirmam, que a operação Lava Jato fazia parte do plano para estancar o crescimento nacional, mas certamente, no mínimo, foi o pretexto para isto. 

No início de 2016 a mídia hegemônica, comandada pela Globo ( Miriam Leitão e Sardenberg) passou a divulgar a mãe de todas as mentiras : 

“A Petrobras tinha sérios problemas financeiros”. “Uma dívida impagável” . 

Sardenberg chegou afirmar que “para sobreviver a companhia precisaria de aportes do Tesouro ou teria de fazer um acordo judicial” (artigo em 28 de abril de 2016)  

Nunca mostraram nenhum número para provar suas afirmações, nem qualquer evidência. 

Mesmo porque não seria possível, pois qualquer um que fizesse um rápido exame  nos balanços da empresa veria que ela não tinha , nem nunca teve, problemas financeiros.

Mas o trabalho da mídia foi tão forte que a mentira virou verdade. A população brasileira passou a acreditar que a corrupção, Pasadena, subsídios nos preços etc, tinham levado a empresa à bancarrota. 

Nenhum jornalista especializado, nenhuma mídia alternativa e independente, ninguém se apresentou para contestar a falsa noticia. Este é o Brasil. 

Imposta a mãe das mentiras, seus filhotes vieram com naturalidade : parem todos os investimentos, vamos vender ativos para reduzir o endividamento.  Tudo aceito pelo povo enganado.

Mas o plano precisava de um condutor e em junho de 2016, ressuscitado da Petrobrax de FHC,  Pedro Parente assumiu a presidência da Petrobras  ( na época com R$ 100 bilhões em caixa) afirmando : “Vou recuperar as finanças da companhia”. 

E muita gente bateu palmas. “Um colosso !!!”, vibrava Miriam. 

Nenhum jornalista especializado, nenhuma mídia alternativa e independente, ninguém contestou. É assim o Brasil.  

O REGIME DE PARTILHA 

O regime de partilha implantado em 2010 desagradou as petroleiras estrangeiras. Ficou estabelecido que a Petrobras seria obrigatoriamente a operadora, com participação mínima de 30% em todos os leilões do pre-sal. 

O site Wikileaks publicou um telegrama diplomático dos EUA no qual as petroleiras americanas mostram a frustação com a falta de empenho da oposição em tentar derrubar a proposta do governo brasileiro. 

O Wikileaks publicou também a conversa do então pré-candidato à Presidência , José Serra (PSDB), com a Diretora de Desenvolvimento de Negócios da Chevron, na qual ele prometia que a regra seria mudada caso ele fosse eleito. 

“Deixa estes caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitação não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava. E nós mudaremos de volta” 

É bom lembrar que o regime de partilha estabelecido só seria exequível na condição da Petrobras como única operadora.  

Por proposta deste mesmo senador José Serra, em 30/11/2016 foi sancionada sem vetos pelo Presidente da República e publicada no Diário Oficial da União a Lei 13.365/2016, revogando a obrigatoriedade da participação da Petrobras na exploração do petróleo na camada do pré-sal, concedendo à companhia apenas a condição de “prioridade” nos leilões. 

Retirada a condição da Petrobras ser obrigatoriamente a única operadora no pre-sal, o modelo de regime de partilha teria de ser alterado.

Os leilões feitos no pré-sal, sob regime de partilha, em que a Petrobras não é a operadora (2017/2018) vão causar sérios problemas de controle que logo começarão a aparecer. 

A Pré-Sal Petroleo AS - PPSA , empresa criada para acompanhar e controlar a exploração da camada do pré-sal já teria dificuldade em controlar as atividades de uma única empresa, no caso a Petrobras, mesmo com o  trabalho suavizado por se tratar de uma estatal brasileira. 

Porém, controlar ao mesmo tempo as atividades de empresas como Statoil, Shell e Total é tarefa impossível, mesmo que para isso seja contratado um exército de auditores.

No modelo utilizado o ressarcimento do custo (chamado Cost Oil) das operadoras é apurado em “regime de caixa” . 

Teria de ser acompanhado e analisado gasto por gasto individualmente. Isto gera muita controvérsia, fraude e corrupção. 

Outros países ( ex : Indonésia) já perceberam o problema e estão alterando o modelo. 

Se enganam aqueles que pensam que no último leilão feito, sobre o excedente da cessão onerosa, a não participação das grandes petroleiras tenha sido causada pelo elevado bônus ou outros motivos similares.  

As grandes petroleiras deixaram de participar porque a Petrobras exerceu o único direito que lhe restou : o direito de preferência. 

O que as petroleiras querem é ser operadoras, podendo controlar os projetos e o “cost oil” de forma absurdamente lucrativa.

As empresas chinesas participaram com a Petrobras porque a China precisa garantir seu abastecimento de petróleo, antes de obter lucro na operação em si. 

Hoje no Brasil, ao invés de se buscar um novo modelo de partilha mais adequado, a Comissão de Infraestrutura está prestes a votar o PL 3178/2019, de autoria do mesmo e notório senador José Serra, que determina o fim da preferência da Petrobras nos leilões do pré-sal. 

Qual o nome dado na justiça para este tipo de atitude ? Crime continuado ? 

 

O FURTO PLANEJADO : DO POVO PARA O MERCADO 

Pedro Parente, tendo recebido “carta branca” do presidente Temer, não perdeu tempo. 

Em setembro lançou o Plano de Negócio e Gestão - PNG 2017-2021. 

Nele Parente introduziu a métrica de alavancagem: dívida liquida/ebitda ajustado, totalmente inadequada e extemporânea. 

O Plano estabelecia para o indicador uma meta de 2,5 a ser alcançada em 2018.

Primeiramente é importante saber que o indicador Ebitda ( sigla em inglês) não é padronizado o que impede comparativo entre empresas. 

Por isto nenhuma grande petroleira apresenta este indicador em suas publicações oficiais. 

Por outro lado a métrica é falsa e leva a conclusões erradas quando a empresa está em fase de investimento e a dívida feita ainda não está gerando o caixa esperado para os projetos (caso da Petrobras). 

O objetivo desta métrica é só o de ludibriar o petroleiro e a população brasileiro indicando uma urgente necessidade de redução da dívida da empresa usando para isto a venda de seus ativos. 

Ficaria muito extenso explicar bem este assunto para o leitor agora. Deixo então a processa de voltar neste tema em um artigo exclusivo em breve.  

Em 14 de outubro de 2016 Parente lançou seu segundo plano para entregar a empresa ao mercado ; uma nova política de preços, 

“Essa politica a ser praticada pela Companhia terá como princípios: 

1) O preço de paridade internacional

2) Uma margem para remuneração dos riscos inerentes a operação. 

3) Nivel de participação no mercado 

4) Preço nunca abaixo da paridade internacional

A politica que será posta em prática prevê avaliações para revisões de preços pelo menos uma vez por mês” 

Aumentava a enganação do povo brasileiro. Para se resguardar em Fatos e Dados de 14 de outubro de 2016 a empresa informou: 

“A nova política de preços terá como base dois fatores a paridade com o mercado internacional – também conhecido como PPI e que inclui custos como fretes de navios, custos internos de transporte e taxas portuárias – mais uma margem que será praticada para remunerar riscos inerentes à operação , como, por exemplo, volatilidade da taxa de câmbio e dos preços sobre estadas em portos e lucro, além de tributos. A diretoria executiva definiu que não praticaremos preços abaixo desta paridade internacional.” 

Portanto, na realidade, o que eles chamavam de “Paridade Internacional” era, de fato, “Paridade de Importação + Lucro”. Ou seja, o mesmo que custo de importação + Lucro. 

Então fica a pergunta: nestas condições para que serve a Petrobras ?

Podemos fecha-la (objetivo final) e passar a importar os derivados que os preços no mercado interno permaneceriam os mesmos. 

Qual a importância de sermos auto suficientes em produção de petróleo e derivados? 

De que importa a Petrobras ser líder mundial em exploração e produção em aguas profundas e ultra profundas? 

Que benefício nos trará a descoberta do pre-sal? 

Uma empresa entregar espontaneamente e gratuitamente seu mercado para os concorrentes é um auto flagelo que não encontra similar no mundo capitalista. 

Os preços assim artificialmente elevados nas refinarias da Petrobras possibilitaram um rápido avanço da importação de derivados criando ociosidade no parque de refino nacional.

O avanço das importações só não foi maior por problemas de logística : falta de terminais para recebimento dos produtos e pateos de estocagem.

Além disso, a ociosidade das refinarias obriga a Petrobras a aumentar o volume de exportação de óleo cru. 

Em 2019 o Brasil exportou 1,3 milhões de barris dia de petróleo (40% da produção)  e importou 600 mil barris dia de derivados. 

Estamos exportando petróleo e importando derivados enquanto nossas refinarias ficam na ociosidade. 

Enquanto isto os brasileiros são obrigados a pagar pelos combustíveis valores muito acima do que possibilita sua renda. 

Trata-se de um claro crime contra a economia popular , pelo qual os dirigentes da empresa deveriam ser responsabilizados. 

DRIBLANDO A LEI 1

Em 27 de novembro de 2016 o Blog “Coluna Estadão” sob o título : “TCU aponta irregularidades na venda de ativos no exterior pela Petrobras” esclarecendo : :

“O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou irregularidades nos processos adotados pela Petrobras para a venda de seus ativos no exterior. 

Relatório de auditores da corte identificou a possibilidade de direcionamento na escolha dos compradores, pois os negócios são divulgados a poucos interessados. 

Os técnicos alegam que não há uma política clara de negociação.

Não há data para que o parecer, que faz várias recomendações à estatal, seja apreciado em plenário” (Fábio Fabrini)

A notícia não detalhava quais ativos vendidos estavam sendo analisados pelo TCU, mas nós sabíamos, por exemplo, que a venda da Petrobras Argentina (PESA) causou um prejuízo de R$ 3,6 bilhões à companhia, em função de reclassificação de perdas com depreciação cambial, peso/dólar (CTA). 

A perda foi contabilizada no balanço do 3º tri/2016, sem muito alarde.

Mas enquanto o TCU examinava as vendas no exterior, as vendas de ativos no Brasil seguiam apressadas, a “toque de caixa”. 

Segundo alguns levantamentos somente a venda de Carcará causou um prejuízo ao país superior a 3 operações Lava Jato. 

- Ministro colaborador 

O ministro do TCU José Múcio Monteiro, ex-deputado federal pelo PFL, DEM, PSDB e PTB, foi indicado como relator no processo Lava Jato e também sobre as vendas de ativos da Petrobras. 

É bom lembrar que Múcio Monteiro foi quem, em abril de 2016, elaborou o relatório que classificou as chamadas “pedaladas fiscais” como crime de responsabilidade e serviu de base para o PSDB iniciar o processo de impeachment da presidente Dilma Roussef. 

Na sessão de 7 de dezembro de 2016, seguindo entendimento do relator José Múcio, o TCU proibiu a Petrobras de vender ativos e empresas, por tempo indeterminado. 

A Corte no entanto, atendeu pedido da companhia e permitiu que fossem concluídas cinco alienações que estavam em fase de conclusão podendo gerar receitas de US$ 3 bilhões. 

Não foram detalhadas quais eram estes ativos batizados de Paraty 1, Paraty 3, Opera, Portfolio 1 e Sabará. 

O ministro relator José Mucio, se mostrou um ferrenho defensor do plano de desinvestimentos da Petrobras e destacou que era indiscutível que situação financeira da empresa requeria ações imediatas e efetivas : 

“o sucesso da política de desinvestimentos é sabidamente fator determinante para sua recuperação financeira”

Disse ainda em seu voto que as ações de desinvestimentos da Petrobras : 

“Buscam aumentar a liquidez de curto prazo da companhia, com o intuito de reduzir a alavancagem” 

O voto de José Múcio, repleto de mentiras, dava a impressão de ter sido escrito pelo próprio Pedro Parente. 

Que “recuperação financeira” Sr. Ministro  

A companhia terminou 2016 com um credito de US$ 5 bilhões com a Eletrobras, US$ 11 bilhões a receber de venda de ativos já efetuadas e mais de US$ 20 bilhões em caixa. 

Que “aumentar a liquidez de curto prazo” Sr. Ministro? 

A Petrobras terminou 2016 com um índice de liquidez corrente de 1,8. 

Significa dizer que para cada R$ 1,00 que a empresa tinha de pagar no curto prazo (12 meses), ela dispunha de R$ 1,80. Melhor índice entre todas as grandes petroleiras do mundo. 

Para dar uma idéia, na época, seria necessário somar a liquidez corrente da Exxon (0,8) com a da Chevron (1,0), maiores petroleiras americanas, para alcançar a liquidez da Petrobras. 

O próprio diretor financeiro, Ivan Monteiro, em entrevista coletiva em janeiro de 2017, numa ‘escorregada” declarou:

“Independente de venda de ativos ou de captação de novos empréstimos, a companhia já dispõe de recursos para cobrir suas necessidades para os próximos 2,5 anos” 

A direção da Petrobras, satisfeita com a decisão do TCU informou em nota que : 

“já está revisando sua sistemática de desinvestimentos e se compromete com os aperfeiçoamentos recomendados pelo TCU e demais órgãos de controle” 

E órgãos de controle?

Onde estavam os promotores da Lava Jato ? 

Nâo viram nada ? 

- E os ativos que já tinham sido vendidos ?

Em reunião realizada em março de 2017 o TCU autorizou a Petrobras a retomar seu plano de desinvestimentos, mas exigiu alterações em processos e novas regras. 

Com isso, a empresa teve de reiniciar do zero os processos que estavam em andamento e ainda não tinham contratos assinados.

Este é um reconhecimento claro por parte do TCU de que a forma como a companhia estava negociando seus ativos não atendia as exigências legais.

Mas fica uma pergunta : por que o TCU não disse nada sobre as vendas que já tinham sido realizadas? 

Vendas feitas sem nenhuma transparência, sem concorrência, em negociatas diretas ao arrepio da lei, conforme atestado pelos auditores do próprio TCU. 

Será que para o TCU a administração da empresa não tem de ser responsabilizada por seus atos?

Até aquele momento, a Petrobras tinha vendido irregularmente os seguintes ativos:

- Ativos na Argentina para a Companhia Geral de Combustiveis (CGC): US$ 101 milhões.

- 40% da subsidiária Gaspetro para a Mitsui Gás e Energia do Brasil: US$ 540 milhões.

- Ajuste de preço da petroquímica Innova, vendida para a Videolar, e ativos na Colombia: US$ 92 milhões.

- 67,1% da Petrobras Argentina (PESA) vendida para a Pampa Energia: US$ 897 milhões.

- 100% da Petrobras Chile Distribuidora (PCD) para o Souther Cross Group: US$ 2,5 bilhões.

- Participação no bloco exploratório BM-S-8 para a Statoil : US$ 2,5 bilhões.

- 90% da unidade de gasodutos Nova Tranportadora do Sudeste (NTS) para o consórcio Brookfield: US$ 5,19 bilhões.

- 100% da NSS localizada no Japão: US$ 124 milhões.

- 100% da Liquigas para a Ultragaz: R$ 2,8 bilhões. 

Que tipo de acordo é este feito entre TCU e a administração da Petrobras ? 

Mais ainda, que poder é este do TCU estabelecer regras para a Petrobras fazer suas contratações? 

Estas regras são estabelecidas em lei 

O TCU legislou sem ter este poder. Somente o Congresso poderia estabelecer estas regras. É crime

DRIBLANDO A LEI 2 

Em 06 de junho de 2019 o STF decidiu: 

“que o governo pode vender empresas subsidiárias de estatais sem necessidade de lei específica e sem realização de licitação. Para a alienação do controle acionário de empresas matrizes ou sociedades de economia mista, diferentemente, é preciso autorização do Legisltivo e processo licitatório.”

A votação havia começado na semana anterior e já dava para prever qual seria a decisão do Supremo. 

O advogado-geral da União , André Mendonça, afirmou “o país agradece a decisão que hoje foi tomada”...”o atual modelo endividou as estatais, que têm de desinvestir para que foquem naquilo que dá lucro” 

O advogado-geral mostrou que não entende nada de empresas, projetos de investimentos e balanços contábeis. 

As refinarias não são subsidiárias pois fazem parte da empresa matriz. Portanto pela determinação do STF só podem ser vendidas com autorização do Legislativo e em processo licitatório. 

Mas “autorização do Legislativo” e “processo licitatório” é tudo que a atual administração da companhia não quer. 

Aliás a imprensa já vem anunciando quais serão os prováveis compradores das refinarias que já teriam sido escolhidos. 

Por nova solicitação da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis – ABICAM em abril de 2019, o Cade abriu inquérito contra a Petrobras para avaliar se a empresa estaria utilizando o monopólio no refino para ter vantagem na determinação dos preços. 

Novamente, como no caso do estabelecimento da política de preços em que a empresa atuou contra os seus interesses favorecendo seus concorrentes, sem existir nenhuma exigência ou sequer solicitação, a Petrobras por vontade própria em 04 de junho de 2019 (dois dias antes da deliberação do STF) propõe ao Cade acordo para venda de refinarias, como vemos na reportagem a seguir : 

https://exame.abril.com.br/negocios/petrobras-propoe-acordo-ao-cade-para-venda-de-refinarias/  

PORTANTO A VENDA DAS REFINARIAS NÃO FOI UM EXIGENCIA DO CADE MAS UMA PRPOSTA DA PRÓPRIA PETROBRAS COM O PROPÓSITO DE ENVOLVER O ORGÃO NO PROCESSO. 

Segundo o mesmo a artigo do Estadão : 

“Um acordo com o Cade facilitaria o trabalho do governo nesse sentido (privatizar), já que partiria de um órgão regulador a exigência da venda de ativos, cabendo à estatal cumprir a determinação. Isso evitaria discussões sobre o processo de desinvestimento”. 

Logo em sequência, como se tudo estivesse combinado e planejado, em 11 de junho o Cade aprovou um Termo de Compromisso de Cessação (TCC) prevendo a venda de 8 das 13 unidades de refino da Petrobras até 2021. 

No dia seguinte , 12 de junho, a direção da Petrobras assinou o TCC. 

Todo o processo foi finalizado numa rapidez inusitada. 

Fica claro que a administração da Petrobras está “forçando” com anuência do Cade uma situação inexistente.

A atuação do Cade é limitada aos casos em que exista “abuso de poder econômico”. Este não é o caso. O monopólio no Brasil foi extinto desde o governo FHC.

A Petrobras nunca tentou impedir ou prejudicar quem quisesse participar do mercado brasileiro. 

O poder econômico que a companhia goza hoje é fruto de décadas de trabalho e investimentos. O Cade não tem poder para puni-la por isto. É ilegal. 

O mais preocupante é que a administração da companhia, que deveria brigar em defesa de seus direitos e conquistas até a última instância, é quem trabalha para favorecer os principais concorrentes. Isto é crime. 

CONCLUSÃO

Com uma administração que só pensa em atender os interesses do mercado, a Petrobras vai sendo desmontada e saqueada de diversas formas e muitas vezes ilegalmente.

A sociedade brasileira precisa reagir imediata e fortemente a estes fatos. 

Décadas de trabalho exaustivo e bem sucedido, com altos custos para a nação, em defesa dos recursos naturais do país, estão sendo destruídas injustificadamente. 

O povo e a economia brasileira precisam de uma Petrobras que atenda às necessidades de consumo de derivados em todos os seus rincões e com os menores preços possíveis. 

De forma inversa, nas mãos do mercado, será dada prioridade às regiões mais rentáveis e sempre com os maiores preços possíveis. 

No final de 2019 o governo brasileiro detinha 43% do capital total da Petrobras e o mercado detinha 57% ( destes 66% com estrangeiros). 

Agora o governo anuncia que o BNDES vai vender sua participação de 14% no capital da companhia. 

Com isto a participação governamental cairá para 29% enquanto a participação do mercado do mercado subirá para 71 %

Tudo muito lamentável. Acorda Brasil ! 

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