A soberba e a política
"Não costuma entregar um final feliz a jornada política que se inicia alimentada por sentimentos de orgulho extremo, arrogância e uma pretensa superioridade"
Não costuma entregar um final feliz a jornada política que se inicia alimentada por sentimentos de orgulho extremo, arrogância e uma pretensa superioridade moral, em que o personagem se julga melhor - e acima - dos demais. Atitudes fundadas na autossuficiência, na vaidade e no desprezo ao próximo são pecados recorrentes nesse roteiro e, não raras vezes, contribuem decisivamente para a derrota.
É exatamente esse o desenho que parece começar a se formar para as eleições deste ano no Estado de Santa Catarina. O governador Jorginho Mello (PL), talvez por acreditar que a Terra seja efetivamente plana - e que o mundo não dê voltas -, age como quem ignora as consequências do próprio movimento. Logo ele, que no intervalo de apenas quatro anos foi capaz de apoiar Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro com a mesma convicção. Talvez apenas surfando ondas aleatórias, como se estivesse sujeito ao efeito Coriolis gerado pela rotação do planeta, mas sem muita noção de direção.
Em um primeiro movimento, para não se contrapor à família Bolsonaro, aceitou sem grandes resistências a imposição da candidatura do vereador carioca Carlos Bolsonaro ao Senado Federal por Santa Catarina. A decisão causou um desarranjo considerável entre políticos do seu próprio campo, aliados que nunca lhe faltaram e que, de repente, se viram jogados aos leões. A deputada Carol de Toni (PL) e o senador Esperidião Amin (PP), ambos candidatos anunciados ao Senado, foram deixados à própria sorte. A deputada, após ameaçar deixar o partido e sustentar sua candidatura, aparentemente fechou um acordo interno no campo bolsonarista para formar uma dobrada com o vereador, estratégia destinada a concentrar entre ambos o primeiro e o segundo voto. Como sempre, é bom lembrar: esse tipo de arranjo precisa ser combinado com os russos - no caso, os eleitores.
Com a dobrada estabelecida, o senador catarinense Esperidião Amin ficou literalmente na chuva. Mantido o desejo de seguir candidato, restará a ele buscar acolhida em outra aliança. Muito provavelmente junto ao candidato João Rodrigues, prefeito de Chapecó, que, apesar de concorrer pelo PSD, dentro de uma espécie de doença infantil que acomete parcela significativa da política catarinense, insiste em afirmar ser amigo de infância de Jair Bolsonaro.
Mas a soberba de Jorginho Mello não se encerra aí. Em um movimento apressado e, ao que tudo indica, pouco refletido - talvez acossado por historinhas nas quais só ele acreditou -, anunciou o atual prefeito de Joinville, Adriano Silva (NOVO), como seu vice. Com isso, deixou ao relento mais um aliado histórico, desta vez o MDB. Um partido relevante no estado, com ampla capilaridade e presença expressiva de prefeitos e vice-prefeitos sob sua legenda.
Sou daqueles que compartilham a tese de que eleições se vencem com política temperada por uma dose qualificada de comunicação. A estratégia eleitoral tende a ser muito mais assertiva quando a política cumpre seu papel. Há casos de vitórias mesmo quando a comunicação não foi exemplar. Mas é praticamente impossível vencer quando o erro está na articulação política. Digo isso porque me parece que as eleições em Santa Catarina caminham para um desfecho bastante diferente daquele que muitos projetavam até um ou dois meses atrás. Se Esperidião Amin, sua federação União Progressista e o MDB catarinense tiverem um mínimo de amor-próprio, deverão buscar outros caminhos para suas candidaturas. E é justamente nesse vácuo que ganham tração João Rodrigues e Gelson Merísio - o candidato que, de terceira via, pode acabar se consolidando como alternativa objetiva.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
