A superficialidade é uma fuga

É possível mensurar a queda de Miguel, mas não a dor de sua mãe, nem o quanto afundamos em matéria de humanidade.

Miguel Santana Silva, que morreu ao cair de prédio no Recife
Miguel Santana Silva, que morreu ao cair de prédio no Recife (Foto: Reprodução)
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No país onde o trabalho doméstico é considerado por muitos como serviço essencial no meio de uma pandemia que já matou mais de 32 mil pessoas, uma criança de cinco anos cuja mãe precisava trabalhar, foi vítima da irresponsabilidade de uma patroa que não tinha tempo de cuidar dela porque estava fazendo as unhas. Miguel procurava pela mãe que havia descido do prédio onde trabalhava para levar o cachorro da patroa para passear. Perdeu-se, foi parar no nono andar e (possivelmente ao ver a mãe na calçada) subiu em uma estrutura que quebrou, fazendo-o cair de uma altura de aproximadamente 35 metros.

Alguém pode imaginar a dor dessa mulher, cujo filho estava com ela porque havia dito que estava com saudades da mãe que evitava o contato com ele por causa da Covid-19? Pais e mães nunca deveriam enterrar seus filhos. Essa é, talvez, a maior subversão da ordem natural das coisas.

A morte de Miguel foi resultado sim da irresponsabilidade da pessoa adulta que estava com ele no momento em que ele procurou pela mãe. Não se deixa uma criança, por mais esperta que ela seja, sozinha. Ainda por cima em um prédio. Infelizmente, quando se trata de pessoas “de posse” a Justiça, muitas vezes ainda é inalcançável e a patroa foi autuada por homicídio culposo, mas logo depois foi liberada mediante o pagamento de uma fiança no valor de R$ 20 mil.

A revolta das pessoas com o desenrolar dos fatos em relação à empregadora é justa. Mesmo assim cabe a reflexão: Por que essa mãe se viu obrigada a trabalhar no meio de uma pandemia, quando seus serviços nada têm a ver com o combate à doença? Não vi nas manifestações a que tive acesso esta questão ser levantada. Fico pensando se cada pessoa que defende o fim das medidas sanitárias e inventa desculpas para a irresponsabilidade do Governo Federal que protela o pagamento do benefício emergencial (e que queria pagar apenas R$ 200,00, valor rejeitado pelo Poder Legislativo e acrescido de mais R$ 400,00 por mês) não pensou, mesmo que por um instante, que a morte dessa criança poderia ter sido evitada se essa mãe tivesse o apoio que se espera do Estado brasileiro no meio de uma crise como a que vivemos. Quando vivemos em sociedade aceitamos a limitação de nossas liberdade, mediante um contrato social em que cabe ao Estado garantir nossa segurança, nossa dignidade e a Justiça, entre outros direitos fundamentais.

Por trás de simplificações como as que temos visto na era dos memes que pautam a política, está o desejo de evitar a reflexão profunda que evidencia o papel que cada um de nós pode ter nos males ocorridos no mundo. Dizem que pensar não dói. Dói sim! Quando se tem responsabilidade. Por isso tem gente que escolhe não pensar, fingir ignorância e dar voz apenas para o próprio egoísmo. É a chamada desonestidade intelectual. Ao se ver confrontado com argumentos sólidos, o sujeito irresponsável joga a racionalidade para o alto, chuta o diálogo e ataca quem lhe chama à razão, porque é covarde demais para admitir seu papel. A superficialidade é uma fuga.

“Que importa a vida de um negro que morreu asfixiado por um policial num outro país?” As lixeiras não têm culpa, não é mesmo? “Que culpa temos nós se a empregada de um casal rico pegou covid-19 dos patrões que a obrigaram a trabalhar, mesmo sabendo que haviam sido infectados?” Ou ainda: “Meu nome é Messias mas eu não faço milagre!”

Como diz a querida Mayra Clara em sua canção: “Temos que ser melhores. Não dá pra voltar ao normal” quando o normal que vivíamos antes da pandemia foi um ambiente de pouco ou nenhum afeto, com cada vez menos responsabilidade conosco com o outro e com o planeta e rara alteridade ou empatia.

É possível mensurar a queda de Miguel, mas não a dor de sua mãe, nem o quanto afundamos em matéria de humanidade.

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