A temida delação de Cunha

Antes mesmo de ser preso, Cunha mandou avisar ao Michel Temer que, se caísse, levaria consigo cerca de 150 deputados federais, um senador e um ministro próximo ao presidente golpista

Ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é escoltado por policiais federais ao deixar o Instituto Médico Legal em Curitiba 20/10/2016 REUTERS/Rodolfo Buhrer
Ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é escoltado por policiais federais ao deixar o Instituto Médico Legal em Curitiba 20/10/2016 REUTERS/Rodolfo Buhrer (Foto: Hélio Costa)

Eduardo Cunha, considerado por muitos o mestre das “pedaladas regimentais” e um achacador da república (termo utilizado por Cid Gomes), perdeu todo seu poder político e influência com a decisão da Câmara dos Deputados que, no dia 12 de setembro de 2016, por 450 votos a favor, decidiu cassar o mandato do ex-presidente da casa, que sofre inúmeras acusações, dentre elas a de ser detentor de contas milionárias no exterior.  

Com uma larga trajetória política (digo, também, uma carreira construída nas sombras), Eduardo Cunha morreu politicamente, principalmente pelo fato de ficar inelegível por oito anos e já existirem provas suficientes para uma possível condenação.  

Após consagrar o golpe parlamentar de 2016 (tendo por finalidade tornar viável o governo peemedebista e estancar a sangria da Lava Jato), Eduardo Cunha foi abandonado pelos parasitas que o apoiavam, os quais, no presente momento, comportam-se como se não tivessem sido partícipes numa cruzada insana, que tanto contribuiu para o aumento da crise político-econômica quanto jogou o país nas garras de leões famintos.  

Antes mesmo de ser preso, Cunha mandou avisar ao Michel Temer que, se caísse, levaria consigo cerca de 150 deputados federais, um senador e um ministro próximo ao presidente golpista.

Diante da traição, Cunha não pensa em deixar barato. Culpando o governo Temer pela sua cassação, promete contar todos os detalhes do impeachment de Dilma Rousseff em seu livro de memórias políticas, não deixando descartada, porém, a realização de uma delação premiada, pois, conforme seu advogado, Marlus Arns, a delação “é sempre um instrumento que deve ser avaliado, mas ainda não foi discutido, mas é, evidentemente, uma opção, que tem de ser avaliada de forma cuidadosa”.

Segundo Natuza Nery, da Folha, “Eduardo Cunha é um arquivo privilegiado sobre os usos e costumes da política brasileira. Financiou campanhas de colegas, fez favores e ergueu a sua própria bancada. Por isso tanto calafrio.”

Sendo assim, o medo de uma eventual delação de Cunha é grande, não é à toa que Temer, ao saber da decretação da prisão preventiva do colega, antecipou rapidamente o seu retorno de uma viagem feita ao Japão. De fato, o atual governo tem motivos reais para ter medo, tendo em vista que Eduardo Cunha é maquiavélico, experto, estrategista, possui um valioso acervo de informações e conhece boa parte dos podres do PMDB, que não são poucos.

Seria ingenuidade de minha parte descartar a hipótese em que os procuradores da Lava Jato não façam o “pacto com o diabo”, ou seja, não façam o acordo de delação premiada com o Eduardo Cunha. Decerto, os procuradores já deixaram claro que o peemedebista terá de "cuspir sangue" para viabilizar uma delação e conseguir os benefícios a ela inerentes.

Mas, a meu ver, apesar de existir essa possibilidade, se Cunha quiser falar ele fala, e seu livro será o veículo utilizado para tal propósito. Portanto, abre a boca, Cunha! Relate os podres dos outros golpistas e achacadores. Mostre, também, a verdadeira face e origem do governo Temer.

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