Thales Nogueira avatar

Thales Nogueira

Economista e mestre em Estatística pela UFMG. Filiado ao PT, atuou até 2025 como Subsecretário de Planejamento e Projetos na Prefeitura de Contagem-MG e atualmente é consultor de municípios. Foi vencedor do prêmio Minas de economia (BDMG)

1 artigos

HOME > blog

A Terceira Vereda

Em Minas, Josué Gomes surge como alternativa capaz de unir desenvolvimento, diálogo e centro-esquerda em 2026

Josué Gomes da Silva (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

O tabuleiro eleitoral mineiro para 2026 apresenta uma configuração rara: a direita dividida, o centro órfão de protagonismo e a esquerda diante de uma oportunidade que exige pragmatismo mais do que ortodoxia. A equação que se desenha, com Cleitinho Azevedo hesitante, Mateus Simões invisível e Kalil em rota de colisão com qualquer aliança ampla, abre espaço para uma candidatura de centro-esquerda capaz de unificar forças progressistas e, ao mesmo tempo, dialogar com o eleitorado moderado que decide eleições em Minas.

Cleitinho segue como o nome mais competitivo do campo bolsonarista, mas sua indecisão revela um cálculo difícil: disputar o Palácio Tiradentes significa enfrentar o desgaste de uma campanha estadual sem estrutura partidária robusta. A cada semana de hesitação, ele cede terreno. 

Mateus Simões, por sua vez, enfrenta o paradoxo do vice que virou titular: herdou o cargo sem ter construído identidade própria junto ao eleitorado. Sua gestão carece de marcas reconhecíveis, e as pesquisas confirmam o que se percebe nas ruas: o governador é até aqui um desconhecido para a maioria dos mineiros. Sua candidatura à reeleição tende a ser uma corrida de resistência, não de conquista.

Kalil decidiu apostar na autonomia. Sua ida para o PDT e a resistência a alianças amplas refletem tanto temperamento quanto cálculo: ele acredita que seu nome ainda carrega força própria, especialmente na Região Metropolitana, e que uma aliança subordinada a Lula diluiria sua marca. O apoio do PSOL é natural, mas muito insuficiente. Mais intrigante (e arriscada) é a aproximação com Aécio Neves. O combalido deputado tucano, em busca de relevância após anos de ostracismo, vê em Kalil uma chance de influência sem exposição direta. Mas a conta não fecha eleitoralmente: Aécio carrega rejeição alta em estratos decisivos, e o eleitor progressista que Kalil precisa mobilizar dificilmente aceitará essa aliança sem ressalvas. O resultado provável é uma candidatura competitiva no primeiro turno, mas sem fôlego para crescer.

É nesse cenário de fragmentação que a candidatura de Josué Gomes pelo PSB ganha relevância estratégica. Filho de José Alencar, uma das figuras públicas mais respeitadas da história de Minas e do Brasil, Josué carrega um legado político e empresarial singular. José Alencar simbolizou a rara combinação entre empreendedorismo nacional, compromisso social e espírito público. Empresário bem-sucedido, vice-presidente leal e homem de diálogo, tornou-se referência para além dos campos ideológicos, sendo lembrado até hoje como uma voz de equilíbrio e bom senso na vida nacional.

Josué não é apenas herdeiro de um sobrenome. É também herdeiro de uma tradição. Ao longo de sua trajetória empresarial, construiu uma imagem de industrial moderno, defensor da produção nacional, da inovação e do desenvolvimento econômico. Num tempo em que a política frequentemente opõe mercado e inclusão social como se fossem conceitos incompatíveis, sua trajetória sugere exatamente o contrário: que o crescimento econômico, a geração de empregos e a redução das desigualdades podem caminhar juntos.

Há em sua figura algo que remete a uma tradição política profundamente mineira. Minas nunca foi um estado afeito aos extremos. Sua história foi construída por lideranças que souberam articular desenvolvimento, diálogo e capacidade de composição. De Juscelino Kubitschek a Israel Pinheiro, os momentos mais fecundos da política mineira nasceram da construção de pontes, não da ampliação de trincheiras. Josué dialoga com essa memória. É, em muitos aspectos, um industrial ilustrado para o século XXI: alguém capaz de conversar com trabalhadores, empresários, prefeitos do interior, universidades e movimentos sociais sem transformar divergências em inimizades.

Para a nossa esquerda, apoiar Josué não é concessão, é cálculo de viabilidade. O PT mineiro, enfraquecido após derrotas sucessivas, não tem condições de emplacar um nome próprio competitivo. O PSOL, pequeno, tem musculatura apenas em nichos urbanos. O PDT está capturado pelo projeto pessoal de Kalil. O PSB, com Josué, oferece uma candidatura que pode unificar esse campo sem exigir que nenhum partido se anule.

Mais importante: Josué é a chave para um palanque viável para o presidente Lula em Minas. Em 2022, a ausência de uma candidatura estadual competitiva alinhada ao presidente prejudicou a campanha petista no estado. Em 2026, com Lula buscando consolidar sua base no Sudeste, Minas é incontornável. Um palanque liderado por Josué, com apoio formal de PT, PSB, PCdoB, PV e potencialmente PSOL, oferece estrutura, discurso coerente e, crucialmente, um candidato que não afasta o eleitor moderado do interior.

A viabilidade de Josué depende de definição rápida da aliança, de uma agenda econômica propositiva que fale ao interior produtivo e de diferenciação clara de Kalil. Minas raramente elege radicais. Zema foi um acidente de percurso em tempos de lavajatismo; o estado tem tradição de governos pragmáticos. E é justamente aqui que surge a oportunidade singular de 2026.

Há um célebre poema de Robert Frost que atravessou gerações porque descreve um dilema universal. Diante de duas estradas que se separavam numa floresta, o poeta escolheu uma delas e, anos depois, concluiu que aquela decisão havia feito toda a diferença. Minas parece viver situação semelhante. As velhas rotas conhecidas continuam diante do eleitor: a briga permanente, os projetos personalistas e a fragmentação das forças políticas. Mas a história avança justamente quando surge a coragem de percorrer caminhos que ainda não foram plenamente experimentados.

O quadro eleitoral mineiro parece dividido entre duas estradas imperfeitas. De um lado, a continuidade da raiva, da incompetência e do rancor, do personalismo e das disputas que fragmentam o estado. De outro, candidaturas que falam apenas para parcelas já convencidas do eleitorado, sem projetos. Mas há momentos em que a política, assim como a literatura, oferece um terceiro caminho. Uma terceira vereda.

A terceira vereda é aquela que não nasce do ressentimento nem da negação do adversário, mas da construção paciente de convergências. É o caminho da produção, do diálogo, da moderação e da capacidade de reunir forças distintas em torno de um projeto comum. Num estado que sempre valorizou a prudência mais do que a estridência, a síntese mais do que o conflito, essa talvez seja a escolha mais compatível com a tradição das Gerais.

Não se trata de negar diferenças ideológicas nem de apagar disputas legítimas. Trata-se de compreender que Minas, em seus melhores momentos, prosperou quando foi capaz de combinar desenvolvimento econômico com inclusão social, ousadia com equilíbrio, crescimento com senso de comunidade. Foi assim com Juscelino. Foi assim com Israel Pinheiro. Em alguma medida, foi também a lição deixada por José Alencar: a de que o Brasil avança mais quando a produção e a justiça social caminham lado a lado.

A esquerda mineira, se quiser voltar ao Palácio Tiradentes, precisa compreender que a vitória passa pelo centro político e pelo diálogo com a sociedade produtiva. Josué não é um candidato de ruptura; é um candidato de reconstrução. Para Lula, é o palanque possível. Para Minas, pode ser o governo viável.

E, diante das estradas que hoje se bifurcam diante do eleitor mineiro, talvez a escolha decisiva não esteja em seguir por uma das rotas já conhecidas. Talvez esteja na coragem de abrir uma terceira vereda. Afinal, como escreveu João Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". Minas parece estar exatamente nesse ponto. Não diante de um destino pronto, mas de uma escolha que pode definir os rumos de sua próxima travessia.

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.