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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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A tragédia de Juiz de Fora acende alerta para necessidade de política de uso do solo

Entre luto, recorde de chuvas e debate sobre obras de macrodrenagem, cidade vive estado de alerta máximo e contabiliza 60 mortos e milhares de desabrigados.

Escombros em Juiz de Fora (MG) (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Depois de uma semana de intensos temporais, deixando um saldo de 60 mortes em Juiz de Fora, (Zona da Mata-MG), até esta manhã de sábado (28/02). O sol apareceu tímido, nas primeiras horas do dia e o tempo segue firme, mas a previsão é de pancadas de chuvas fracas, à tarde, para hoje e amanhã conforme a previsão do Climatempo. Dos cerca de 30 desaparecidos, restam três pessoas a serem localizadas e, até o momento, o número de desabrigados e desalojados que até então estava na casa dos 4.200, dobrou para 8.584. As ocorrências atendidas pela Defesa Civil também subiram para 2.367. Na manhã de ontem, houve um desabamento no bairro de Três Moinhos, com mais três óbitos, e outro na manhã de hoje, o que elevou para os 60 óbitos já mencionados.

A primeira visão da manhã, no entanto, foi de uma certa normalidade. De segunda-feira, dia do temporal devastador, até a manhã de ontem, sexta 27/02, havia na cidade um silêncio profundo, um luto espontâneo que os moradores fizeram sem precisar decreto ou aviso. Apenas determinado pela dor que abateu a todos. Não se ouvia um som, além da estridência de sirenes dos bombeiros ou de ambulâncias, nem mesmo um latido de cachorro ou ronco de motores. O trânsito parou. Os bairros pouco atingidos se recolheram à segurança de suas casas, ou idas aos postos de coletas de donativos ou aos mercados que continuavam funcionando. O movimento, no entanto, era muito pouco. Ruas desertas foi o que se viu.

Hoje, sábado, com o sol pálido – embora a previsão de chuva à tarde -, já se pode avistar pessoas com sacolas de compras, movimentação no trânsito e algum barulho de cães e crianças brincando.

É assim que Juiz de Fora atravessa em fevereiro de 2026 um dos momentos mais críticos de sua história. A cidade, que já possui uma geografia desafiadora de vales e encostas, enfrenta um evento climático extremo, que superou todas as marcas anteriores, a partir do início das medições, em 1961. Até o dia 24 de fevereiro, a cidade registrou 579,3 mm de chuva, o maior volume para o mês, desde então. Algumas estações, como a do Marumbi (Zona Leste), chegaram a registrar quase 600 mm. O volume registrado representa mais de 340% da média histórica para fevereiro (que é de 170 mm).

Os chamados para a atuação da Defesa Civil não param, com destaque para soterramentos e deslizamentos de terra.

Moradores e especialistas consideram este o evento mais devastador da história da cidade, superando as grandes enchentes de 1988 e 2007. As regiões Leste e Sudeste foram as mais castigadas. Bairros como Três Moinhos foram inteiramente evacuados. Outros pontos graves incluem Vila Ideal, Esplanada, Paineiras, Democrata e Mariano Procópio.

O Rio Paraibuna saiu de sua calha em diversos trechos, algo que não ocorria com essa magnitude há décadas, isolando bairros inteiros.

Em entrevista ao jornal Tribuna de Minas”, o geógrafo Mateus Cremonese, da Universidade Federal de Juiz de Fora, apontou alguns motivos para a saturação total do solo, o que torna qualquer chuva adicional um risco imediato de novos deslizamentos, independentemente da intensidade. Ele atribuiu às mudanças climáticas, à impermeabilização do solo e à ocupação de fundos de vale como fatores de ampliação dos riscos para que tragédias como essas aconteçam e falou da necessidade de mudanças em planejamento urbano e prevenção. Graças a esses abusos do uso do solo, em poucos minutos, a chuva intensa encheu galerias, transbordou canais e gerou cenas de caos em diferentes pontos da cidade. A tragédia acendeu um debate intenso sobre o planejamento urbano da cidade:

Crítica infundada é retirada de circulação

Críticas apontaram para o fato de cerca de R$ 21 milhões destinados a obras de contenção de encostas (via PAC) ficarem travados entre 2024 e 2025 devido a pendências documentais da prefeitura. A secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular, Cidinha Louzada, em entrevista ao 247, teve a oportunidade de rebater essa crítica, explicando que o entrave não foi da prefeitura, que o projeto em questão – como a obra de encanamento das águas que alagavam o bairro Industrial -, estão em andamento e a liberação é feita por etapas. Disse também que o jornal “Folha de São Paulo” que publicou a crítica, tirou a matéria de circulação, pois admitiu que falseou com a verdade.

A prefeita Margarida Salomão reconheceu em declarações na mídia, que a cidade cresceu sobre uma infraestrutura de drenagem muito antiga, incapaz de suportar o volume das "emergências climáticas" atuais. Disse, ainda, que o município de Juiz de Fora está listado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), como uma das 10 cidades brasileiras com mais pessoas vivendo em áreas de risco (estimadas em quase 130 mil pessoas). Especialistas criticam a falta de providências e alterações no plano diretor que impeça a ocupação dessas encostas. Como se fosse apenas questão de “vontade” dos dirigentes, convencer os moradores a abandonarem as suas casas e ir para locais seguros. O trabalho é longo e exige política de médio prazo.

Houve críticas à redução de investimentos na Defesa Civil estadual nos últimos anos, o que teria impactado a capacidade de pronta-resposta e prevenção em Minas Gerais. O próprio governador Romeu Zema admitiu o não repasse de cerca de 3,4 bilhões da verba de contenção de encostas e prevenção às chuvas, retidas por não encaminhamento de projetos ao PAC.

A situação ainda é de alerta máximo, com o solo instável e previsão de mais instabilidades para os próximos dias.

Depois da tragédia, as obras de macrodrenagem em Juiz de Fora são o centro de um debate acalorado neste fevereiro de 2026. Embora existam projetos de grande escala aprovados e em andamento, a velocidade das intervenções não foi suficiente para conter a tragédia climática atual. Um status detalhado das principais frentes de obras nos mostra como está o andamento dos trabalhos. Um exemplo é o Bairro Industrial e Mariano Procópio (Córrego Humaitá). Esta é a região mais crítica em termos de alagamentos históricos.

Em meio ao cenário de calamidade, a Prefeitura assinou um contrato de R$ 95 milhões para as obras definitivas de macrodrenagem no Bairro Industrial.

Estão prevista a Canalização e a construção de Diques, com muros de contenção (semelhantes aos do Rio Paraibuna) e alteamento das margens.

 Um reservatório de amortecimento será construído para segurar a água até que o nível do Paraibuna baixe e permita o bombeamento. (No modelo piscinão)

Há a previsão de um parque linear e calçadas drenantes.

A primeira etapa (limpeza e desassoreamento) foi entregue em 2024, mas a fase estrutural pesada começa agora, com prazo de 27 meses.

Por fim, existe o Projeto "Juiz de Fora + 100" (com obras estruturantes) para a cidade. Em entrevista ao Jornal O Globo, a prefeita Margarida Salomão disse que à primeira certeza de que o temporal era atípico, ao chegar em casa, na noite de segunda-feira (23/02), voltou para a sede da prefeitura e começou a agir, acionando os equipamentos de socorro. Logo veio a notícia do deslizamento de nove prédios, e ela não parou mais. “A cidade se dissolveu”, declarou ainda sob o impacto dos acontecimentos. 

Há também a caminho, um pacote de aproximadamente R$ 500 milhões (com recursos federais do PAC e financiamento do Banco Latino-Americano) que engloba várias bacias:

Para o bairro de Santa Luzia: As obras de macrodrenagem e esgotamento sanitário tiveram o edital lançado no final de 2025. O objetivo é separar o esgoto da drenagem pluvial para evitar o refluxo em dias de cheia.

Córrego São Pedro: Intervenções previstas para mitigar as inundações na região da Cidade Alta.

Democrata e Linhares: Incluídos no cronograma de grandes intervenções que devem seguir até dezembro de 2028.

Obras Concluídas ou em Finalização

Rua Cesário Alvim: A macrodrenagem desta via foi finalizada em 2025, o que ajudou a reduzir a formação de enxurradas violentas que desciam em direção ao Centro, embora a magnitude da chuva de 2026 tenha testado o sistema ao limite.

Região do Bairro Industrial (Etapa 1): Intervenções de macrodrenagem realizadas entre 2023 e 2024 ajudaram em chuvas moderadas, mas foram insuficientes para o evento extremo deste mês.

 O "Gargalo" Crítico

Há quem aponte o dedo para a gestão de Margarida Salomão e diga que o grande ponto de discórdia é que, embora o volume de investimento seja recorde (mais de R$ 600 milhões no papel), a maior parte desses recursos do PAC e de financiamentos internacionais demorou a se converter em "trator na rua" devido a trâmites burocráticos e projetos executivos complexos. O fato, para alguns analistas, é que, se as obras de Santa Luzia e do Bairro Industrial tivessem sido iniciadas em 2023, o impacto das mortes e desabrigados em 2026 poderia ter sido significativamente menor. Mas, como explicou a secretária, Cidinha Louzada, as obras obedecem a cronogramas, etapas, e o município fica à mercê desses cronogramas.

Abastecimento de água segue normal

Dentro do quadro de setores atingidos pela tragédia, há, por exemplo, o fluxo de abastecimento de água, fundamental nesses casos. 

Quanto a isso, equipes operacionais na manhã de sexta-feira, 27, informaram que a Companhia de Saneamento Municipal (Cesama), mesmo diante do volume atípico de chuvas registrado nos últimos dias no município, o sistema de abastecimento de água segue operando normalmente na maior parte da cidade.  

As ocorrências de desabastecimento continuam sendo pontuais e concentradas, principalmente, em regiões mais altas ou em áreas diretamente impactadas por alagamentos e movimentações de solo. Por segurança, algumas unidades tiveram o abastecimento interrompido e estão sendo atendidas por caminhões-pipa. “Neste momento, as paralisações em algumas unidades estão relacionadas, sobretudo, a deslizamentos de taludes, rompimentos de redes ou interrupções necessárias para garantir a segurança das estruturas e das equipes que atuam nos serviços de manutenção”, diz o comunicado.

Entre os pontos onde as equipes seguem trabalhando ininterruptamente para o restabelecimento do sistema, estão os pontos de Santa Teresa, desligado após alagamento da casa de bombas; Bom Clima e Democrata 1, devido ao rompimento de rede provocado por queda de talude; além de Vila Esperança 2, Santa Lúcia e Benfica. Esses estão, momentaneamente inoperantes por falta de sucção. 

Essa também é a situação em que se encontram, nesse momento, as Estações Elevatórias de Água Tratada (EEAT) Miguel Marinho, Nova Benfica 1 e 2, paradas por falta de sucção. Já na EEAT Jóquei Clube, a unidade permanece paralisada preventivamente por risco geológico.

Já os sistemas que atendem às regiões de Vitorino/Grajaú, Alto Grajaú e Santa Rita tiveram o funcionamento retomado ao longo da tarde e noite de quinta-feira, 26. Como a recuperação ocorre de forma gradativa, a Cesama está direcionando caminhões-pipa para reforçar o atendimento onde o acesso é possível e realizando a avaliação das demandas mais urgentes, como no caso do Hospital Albert Sabin.

Diante desse cenário, neste momento, os seguintes bairros e loteamentos ainda apresentam algum impacto no abastecimento: Santa Teresa (Hospital Albert Sabin), Bom Clima e Alto Bom Clima, Democrata, Jardim Natal, Jóquei Clube, Vila Vidal, Vila Bejani, Fontesville 2, Vila Esperança 2, Jardim Santa Isabel, Nova Era, Santa Lúcia, Retiro, Santa Rita, Bonfim, Grajaú, Jardim das Flores, Ladeira, Bom Jardim, Manoel Honório, Marumbi, Nossa Senhora Aparecida, Recanto das Pedras, São Tarcísio, Três Moinhos, Vila Santa Rita de Cássia, Vila Sô Neném, Vitorino Braga, Benfica, Nova Benfica e Miguel Marinho. A Cesama destaca que suas equipes seguem mobilizadas 24 horas por dia, em um trabalho intenso e contínuo para o completo restabelecimento das unidades afetadas, sempre com foco na segurança operacional e na agilidade das intervenções.

Sobre a qualidade da água

A companhia também reforça que a água distribuída e entregue até os hidrômetros dos imóveis continua sendo tratada e monitorada com rigor.

O controle de qualidade é realizado a cada duas horas nas Estações de Tratamento de Água (ETAs) e confirmado em cerca de 300 pontos de distribuição espalhados pelo município, garantindo que a população receba água própria para o consumo.

A Cesama alerta para a importância de a população buscar informações apenas nos canais oficiais da Prefeitura de Juiz de Fora e da própria companhia, reafirmando que “não são verdadeiras as informações sobre suposta contaminação da água ou possibilidade de desabastecimento generalizado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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