A trairagem de Bolsonaro com seus brothers, os roqueiros reaças

"Chegamos à indicação do novo presidente da Funarte, o maestro e youtuber Dante Mantovani. Aluno de Olavo de Carvalho, Mantovani sustenta que o rock –sim, o rock do qual Lobão e Roger tiram há anos seu ganha-pão– leva os jovens ao aborto e a Satanás", escreve Cynara Menezes, do Jornalistas pela Democracia. "É muita trairagem com os roqueiros reaças Bolsonaro"

Por Cynara Menezes, no blog Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia

Sete longos anos atrás, eu publiquei neste site um texto que até hoje faz sucesso sobre o fenômeno dos roqueiros reaças, que tinha em Lobão e em Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, seus expoentes mais ruidosos. Fui xingada pelos dois e virei alvo das hordas de direitistas que os idolatravam.

Lobão era então capaz de dizer coisas como “arrancavam umas unhazinhas”, sobre os torturadores da ditadura militar. Roger, que virou o líder da “banda do Jô” do Danilo Gentili, tentou justificar a tortura de crianças dizendo que era “culpa dos pais” e atribuiu o desaparecimento do deputado federal Rubens Paiva, pai do escritor Marcelo Rubens Paiva, a estar “fazendo merda” na época. Era natural que ambos declarassem voto em Jair Bolsonaro, e assim foi.

“É uma pessoa excelente, um homem bom, antes de qualquer coisa”, justificou Lobão. “Qual foi o meu critério? Coloque na balança o Bolsonaro e o Ciro Gomes do outro. Bota o Bolsonaro e a Marina. Bolsonaro e Haddad. Alvaro Dias e Bolsonaro. Bolsonaro e Alckmin. Não dá nem para a saída.”

Roger disse que votava em Bolsonaro porque todos os outros eram de esquerda, à exceção, “talvez”, do Amoêdo. “Então é uma questão de lógica. Por que eu vou manter esse pessoal? Não quero casar com o Bolsonaro e nem acho que ele é o salvador da pátria e que tudo que ele fala é perfeito, mas é a única chance de desaparelhar o governo.”

O apoio de Lobão não durou muito. Em março, quando o governo deu ordem para os quartéis celebrarem a “revolução” de 1964, o roqueiro gravou um vídeo criticando a ditadura e a censura. Nem parecia o mesmo das “unhazinhas”. “Era um período muito escroto, e se não tivéssemos esse período escroto, não estaríamos sofrendo agora todas essas mazelas. A gente não pode glorificar expedientes sombrios”, disse, ao mesmo tempo afirmando que “ninguém tem realmente provas de que Brilhante Ustra foi um torturador”.

Daí para a frente foram ataques seguidos a Bolsonaro. “O cara faz piada com tamanho do pau de japonês e os imbecis gritam ‘Mito!’ e tal. Esse cara não me representa. Com a minha história, não posso ficar calado com tanta grosseria e burrice”, afirmou, em março, em entrevista a Thales de Menezes na Folha. “Bolsonaro é uma droga pesadíssima, é o último estágio das drogas”, disparou, em conversa com Gilberto Dimenstein, em setembro.

Já Roger continua encantado com o capitão. Em maio, afirmou que “jamais” vai romper com Bolsonaro; em novembro, repetiu na Jovem Pan que “não vai rolar” rompimento. Esta semana, deu nota 10 ao governo no twitter.

Mas aí chegamos à indicação do novo presidente da Funarte, o maestro e youtuber Dante Mantovani. Aluno de Olavo de Carvalho, Mantovani sustenta que o rock –sim, o rock do qual Lobão e Roger tiram há anos seu ganha-pão– leva os jovens ao aborto e a Satanás. “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”, afirmou, em seu canal.

É muita trairagem com os roqueiros reaças Bolsonaro indicar um homem desses para a Funarte, não é, não? Com o tanto que seus brothers do rock and roll pavimentaram o caminho para que ele chegasse ao poder… Com tantas tags que ajudaram a levantar no twitter! Com tantas barbaridades ditas, tantas fake news espalhadas, apenas para derrubar o PT! Tsc, tsc, tsc. Realmente um ingrato esse Jair.

Roger, costumeiramente tão eloquente nas redes sociais, disse apenas que “o cara mandou mal”, mas preferiu atacar a existência da Funarte em vez da indicação.

O “novo Lobão” detonou. “O bolsonazismo é uma doença que assola o Brasil, uma doença paranoica, um delírio conspiratório. Mas eu acho ótimo, porque quanto mais cafonas eles são, mais mico pagam. Olavo de Carvalho dando conta da agenda de costumes do país, da educação, da cultura, usando todas as armas numa doutrina tirânica e retrógrada. Vi o Brasil em 1967 na passeata contra a guitarra elétrica. Eu que faço rock fico numa situação de fogo cruzado porque a esquerda detesta rock e a direita também”, disse ao jornal O Globo, comentando a indicação.

Peraí, desde quando a esquerda “detesta rock”? Para de inventar realidades paralelas, Lobão. Não foi você que chamou o roqueiro Roger Waters de cafonérrimo porque ele tachou Bolsonaro de “neofascista” em turnê pelo Brasil? Ninguém de esquerda jamais associou o rock ao aborto e ao satanismo. Nós adoramos rock! O que não gostamos é de roqueiros reaças, isso é verdade. Nos parece uma contradição em termos, já que o rock é contra o sistema, e os reaças, a favor.

Fico imaginando o que farão os reaças do rock agora que foram chutados, atirados no limbo, ou melhor, no fogo do inferno por seu ídolo político. Subitamente os roqueiros reaças ficaram órfãos. Sem chão. Se assumirem que fazem rock, não podem mais se dizer conservadores, já que os conservadores no poder acusam a música que eles fazem de levar ao aborto e ao satanismo, algo que eles abominam. Por outro lado, se abandonarem o rock, trairão a si mesmos e seu público fiel. Situação complicada. A pessoa se sente até… inútil.

E Roger Moreira, o que fará? Bem, sempre haverá a música gospel. Ou o sertanejo.

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