A UFRJ abre caminhos
Entre avanços científicos e ataques à universidade pública, a pesquisa da UFRJ reafirma o papel do conhecimento na defesa da vida e da sociedade
Discreta, solitária, ela se debruçou durante vinte anos sobre sua bancada para perseguir o comportamento de uma molécula do organismo humano. Aquilo poderia não dar em nada e terminar nos depósitos de tentativas, muitos exibidos pela história da ciência. A “laminina” chamou sua atenção por acaso, como um inseto que voa e intriga um observador. No entanto, tratava-se de algo que resistia ao desinteresse e insistia em permanecer sob o foco das lentes em seus sistemas de investigação. Tatiana Sampaio, bióloga da UFRJ, essa pesquisadora, afinal, chegou a resultados. É a cura para a tetraplegia? Quem sabe? Mas apresenta resultados promissores e indica que a perseverança tem condições de prosperar, a julgar pelos primeiros achados.
O desbravamento da ciência não constitui desafio simples. Nas idas e vindas do conhecimento, não foram poucos os avanços e as decepções, daí a quantidade de pressupostos necessários para consagrar determinados produtos ou medicamentos. No entanto, há sinais de que, com a pesquisadora, estamos em um caminho animador. A imprensa, ávida por notícias revolucionárias, pinta com cores berrantes o que ainda parece se encontrar nos primeiros passos. É fato, no entanto, que a bióloga, ligada a uma instituição séria e de prestígio, como a UFRJ, possui credenciais para fazer crer que, desta vez, se não chegarmos lá, ficaremos perto.
Lesões na medula não são brincadeira. O mais leve sintoma de reversão anima famílias e pessoas ligadas às vítimas. No caso, a UFRJ (e não será a primeira vez) se coloca do lado certo da história. Talvez obtenhamos sucesso na empreitada; talvez venhamos a tropeçar em expectativas relativas. Com efeito, para começar, o que já aconteceu sugere a vontade de seguir em frente. A universidade brasileira, com seus quadros, conhece os desafios do conhecimento e não esmorece. É a qualidade que a leva a se colocar no rol dos ambientes a respeitar e a defender contra muitos inimigos. Ainda há poucos dias, em discussões na Câmara dos Deputados em torno da criação de duas novas universidades, uma de esportes e outra de cultura indígena, proliferaram afirmações sobre a inutilidade da iniciativa, a pretexto de acrescentar mais uma a antros de “drogados, vagabundos e esquerdistas”. Esqueciam-se de que o que somos ou o que desejamos ser depende de centros de observação que nos devolvam a nossa imagem, caso das instituições de ensino superior.
Nesse ponto, Tatiana Sampaio nos representa naquilo que melhor vamos obtendo de nós mesmos. E a UFRJ se impõe por aquilo que é e pelo que ainda pode vir a ser, desde que capte recursos para fazê-lo, na vitória contra a ignorância. É uma luta que não termina. O eterno desafio da vida contra a morte.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
