A velha manipulação midiática e a era da IA: A árdua batalha pela conscientização do eleitor
Entre a manipulação histórica da mídia e o uso da Inteligência Artificial, a disputa eleitoral de 2026 será também uma batalha pela verdade e pela consciência
A menos de um ano das eleições, o Brasil já assiste à reedição de velhas práticas de manipulação política, agora potencializadas pela inteligência artificial. Entre pesquisas estrategicamente divulgadas, narrativas enviesadas da mídia corporativa e a produção massiva de desinformação nas redes sociais, forma-se um ambiente propício à distorção da realidade. A disputa eleitoral de 2026 não será apenas entre projetos de país, mas também entre versões fabricadas da verdade.
A cada ciclo eleitoral, o povo brasileiro torna-se alvo de campanhas articuladas tanto pela mídia corporativa quanto por segmentos da extrema direita e do chamado centrão, frequentemente sem qualquer escrúpulo ético, em prejuízo de candidatos progressistas.
Estamos a menos de dez meses do primeiro turno das eleições para a Presidência da República e para o Congresso Nacional, e já se observa a proliferação de mentiras que preparam o terreno para deformar a opinião pública. Esse fenômeno atinge especialmente aqueles que consomem informações de forma massiva nas plataformas digitais, hoje potencializadas pelas ferramentas de Inteligência Artificial. Sob comando humano, tais tecnologias são capazes de manipular imagens, vozes e contextos com um nível de realismo que desafia até mesmo internautas experientes.
Além do bombardeio informacional diário em grupos de WhatsApp, Telegram e outras plataformas, onde os chamados “tios e tias do Zap” replicam conteúdos sem checagem, a sofisticação dos recursos de IA torna as falsificações ainda mais convincentes. Cria-se uma armadilha quase perfeita para enganar o eleitor.
A história recente demonstra que a manipulação eleitoral não é novidade. Em 1989, o país vivia grave crise econômica e hiperinflação. Concorriam à presidência um bom número de candidatos, como: Fernando Collor de Mello (PRN), Leonel Brizola (PDT), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Mário Covas (PSDB) e Paulo Salim Maluf (PDS). Após o primeiro turno das eleições, avançaram para a disputa final Lula e Collor. Diante da consolidação desse cenário, setores do poder econômico intensificaram sua atuação para desgastar a imagem do candidato progressista. Foram articuladas campanhas e ataques estratégicos com o objetivo de reverter a tendência que se anunciava pela possibilidade histórica de um líder sindical chegar à Presidência da República.
Sem IA, mas com enorme influência, a Rede Globo editou o último dia de debate presidencial de maneira favorável a Collor no Jornal Nacional, exibindo mais tempo de falas do candidato do Partido de Reconstrução Nacional e destacando ataques a Lula do Partido dos Trabalhadores, enquanto omitia reações equivalentes. Soma-se a isso o episódio da denúncia de Miriam Cordeiro, posteriormente desmentida, acusando Lula de tê-la incentivado a abortar. A exposição televisiva teve impacto devastador. Também o sequestro do empresário Abílio Diniz foi explorado politicamente, com insinuações que mais tarde se mostraram infundadas. Na ocasião, os responsáveis pelo crime apareceram vestindo camisetas do PT, o que gerou suspeitas e especulações sobre um suposto envolvimento partidário. Posteriormente, as investigações esclareceram que não existia qualquer vínculo entre o partido e a ação criminosa. Ainda assim, o episódio acabou funcionando como mais um elemento que contribuiu para fortalecer a candidatura de Collor.
Trinta e sete anos depois, a forma mudou, mas o método persiste. Novamente assistimos a vergonhosa manipulação produzida pela Globo que nunca engoliu a esquerda na presidência do país. Hoje a rede disfarça com absoluta hipocrisia sua interferência no pleito eleitoral. A divulgação contínua de pesquisas muito antes do período eleitoral formal, com ênfase em índices de rejeição e cenários de empate técnico, cumpre papel relevante na formação de percepções. Comentários de seus jornalistas frequentemente reforçam a narrativa da polarização, enquanto sugerem a necessidade de um nome alternativo que supostamente represente superação desse cenário destacando, por exemplo, a falta de conhecimento nacional de determinados pré-candidatos como ativo a ser desenvolvido.
Nesta semana, no programa Estúdio i (11/02/26) da GloboNews, durante a apresentação dos resultados de uma pesquisa de intenção de voto para 2026 realizada pela Quaest, alguns comentaristas chegaram a antecipar que o principal desafio para romper a atual polarização seria a capacidade de outros candidatos entre eles, aquele que desponta com alguma viabilidade, Ratinho Júnior, tornar-se mais conhecido nacionalmente. De forma gradual, em doses homeopáticas, constroem a percepção pública de que é preciso enfraquecer candidaturas associadas à manutenção da polarização entre esquerda e extrema direita.
Ao mesmo tempo, reiteraram a tese de estagnação da aprovação governamental, mesmo diante de indicadores econômicos positivos e das inúmeras políticas públicas em favor do povo. Ainda que os projetos sociais do governo Lula tenham apresentado avanços expressivos, sua divulgação nos telejornais da Rede Globo costuma vir acompanhada de ressalvas e ponderações que relativizam seus efeitos e reduzem o alcance de seus resultados. Com base nos dados analisados, observa-se que o jornalista Merval Pereira adota uma postura sistematicamente crítica ao Partido dos Trabalhadores, frequentemente minimizando os êxitos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e enfatizando interpretações que buscam fragilizá-los.
Ao principal instrumento do passado, a televisão, hoje soma-se a avalanche digital e o uso político da Inteligência Artificial. A tecnologia da informação trouxe benefícios incontestáveis, como ampliar o acesso à informação, acelerar a comunicação e democratizar a produção de conteúdo. No entanto, também abriu espaço para estratégias organizadas de desinformação. Notícias falsas circulam com velocidade sobre conflitos internacionais, crises diplomáticas e acontecimentos políticos, muitas vezes moldadas para reforçar visões ideológicas específicas.
Recentemente, vimos circular uma série de notícias falsas em torno de eventos geopolíticos de grande impacto: desde distorções e desinformação sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, conflito marcado por intensa propaganda e campanhas de desinformação em redes sociais que tentam influenciar a narrativa sobre a invasão russa e a resistência ucraniana, até versões enganosas sobre o conflito em Gaza, onde inúmeros civis palestinos, incluindo mulheres e crianças, têm sido mortos em ataques que organizações internacionais classificaram como genocídio e crimes contra a humanidade, apontando autoridades como responsáveis por graves violações dos direitos humanos e ressaltando a crise humanitária no território. Além disso, circularam nas redes sociais versões falsas sobre a suposta captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos durante a gestão de Donald Trump, alimentadas por vídeos e imagens gerados por inteligência artificial que rapidamente se espalharam antes de serem identificados como desinformação.
É inquestionável que a proliferação massiva de conteúdos manipulados por IA dificulta cada vez mais a distinção entre fato e fabricação. Como alertou o advogado Thalles Vinícius de Souza Sales, em artigo publicado no site Migalhas, se não houver antecipação regulatória e consciência social, o eleitor poderá escolher não entre projetos de governo, mas entre realidades fabricadas. Ele está certíssimo, inclusive quanto a eleitores preparados, imaginem quanto a eleitores que não têm o costume de checar a informação, ou aqueles eleitores vulneráveis que só se informam pelo Tik Tok, facebook, X, entre outros aplicativos. Estes seguramente são presas fáceis.
Ao mesmo tempo, políticos, sobretudo vinculados à extrema direita e influenciadores especializados na produção de conteúdo sensacionalista exploram as redes sociais por meio de estratégias sistemáticas de autopromoção e ataques pessoais. Manchetes apelativas, recortes descontextualizados e acusações levianas passaram a integrar o cotidiano digital, frequentemente orientados à desqualificação pública e à destruição de reputações. Parlamentares como Nikolas Ferreira (PL-MG), Bia Kicis (PL-DF), Carlos Jordy (PL-RJ), Gustavo Gayer (PL-GO), Marcel Van Hattem (NOVO-RS), integrantes da família Jair Bolsonaro, como Eduardo Bolsonaro e Flavio Bolsonaro, entre outros, figuram com frequência nesse ambiente, publicando diariamente conteúdos que seus críticos classificam como inverídicos ou enganosos a respeito de adversários políticos.
Nesta semana, por exemplo, setores da mídia corporativa e adversários políticos passaram a tecer comentários jurídicos e insinuações em torno da homenagem que a escola de samba Acadêmicos de Niterói fará à trajetória de Dona Lindu, migrante nordestina que enfrentou a fome e a miséria para criar seus filhos, entre eles o presidente Lula. A tentativa de transformar uma narrativa de superação social em objeto de suspeita revela como até manifestações culturais podem ser instrumentalizadas no ambiente pré-eleitoral com potencial para desgastar ou até prejudicar a candidatura do presidente.
Os meios de ataque se diversificam e tendem a se intensificar. A resistência de setores da elite econômica e social à ascensão de um ex operário nordestino à Presidência da República nunca foi plenamente superada. Trata-se de uma elite historicamente conservadora, que preserva privilégios estruturais e reage a políticas de redistribuição de renda, inclusão social e redução das desigualdades. Apoia candidaturas alinhadas a seus interesses e critica sistematicamente iniciativas que ampliem a participação da maioria no orçamento público.
Essa mesma elite manifesta indignação seletiva ao reagir com vigor a políticas sociais, mas silenciar diante de escândalos financeiros envolvendo grandes grupos econômicos. Defende austeridade para os trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas, como a escala 6x1, enquanto protege mecanismos que perpetuam concentração de renda e benefícios fiscais. O conflito que se apresenta não é apenas eleitoral, mas estrutural, entre projetos de manutenção de privilégios e propostas de maior justiça social.
Diante desse cenário, o desafio do governo e das forças progressistas não é apenas eleitoral, mas pedagógico. Será necessário esclarecer a população sobre os limites estruturais impostos pelo modelo econômico, sobre o papel da elite na contenção de avanços sociais e sobre os riscos da desinformação digital. Em 2026, a disputa será também pela consciência crítica do eleitor. E, em tempos de inteligência artificial, defender a democracia exige, antes de tudo, defender a verdade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
