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Nathália Bignon

Jornalista e assessora parlamentar no Congresso Nacional

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‘A vergonha precisa mudar de lado’. E permanecer lá.

"A vergonha nunca pertenceu às mulheres que sobreviveram.Pertence aos homens que violentam"

Gisele Pelicot (Foto: Reuters - Manon Cruz)

Terminei há pouco a leitura de Um hino à vida, livro em que a francesa Gisèle Pelicot narra a descoberta de estupros cometidos contra ela pelo próprio marido, seu companheiro de 50 anos, Dominique Pelicot, que a dopava e a oferecia a desconhecidos enquanto ela permanecia inconsciente, sedada por medicamentos.

A verdade chegou até Gisèle de forma brutal. Após a prisão do marido, flagrado filmando mulheres por baixo das saias em um supermercado no sul da França. A investigação levou à apreensão de seu computador e de arquivos que registravam algo ainda mais perturbador. Durante anos ele dopou a própria esposa e organizou encontros com homens que iam até a casa do casal para violentá-la enquanto permanecia inerte, intoxicada por lorazerpans e zolpidens. Tudo era filmado e arquivado. O material revelou um sistema meticuloso de abuso sexual mantido dentro da própria casa, transformada pelo agressor em cenário de um crime continuado.

A revelação desse sistema de violência, organizado dentro da própria casa por quem deveria protegê-la, pelo pai de seus filhos, produziu em mim a sensação de encarar sem anestesia a dimensão brutal de um mundo que ainda trata a vida das mulheres como território disponível e sua palavra como suspeita. Dos mais de 80 envolvidos, 50 homens foram identificados pela polícia, e as investigações apontam para mais de duzentos estupros cometidos contra ela ao longo de uma década. Todos, felizmente, condenados, 

O livro não é apenas o relato de um dos casos mais chocantes de violência contra a mulher dos últimos anos. É um retrato cru de como a misoginia continua operando como estrutura social. Ela se sustenta na intimidade das relações, na incredulidade automática diante da vítima e na disposição persistente de relativizar a violência quando ela atinge o corpo feminino. Não se trata de episódios isolados nem esses homens de monstros, bestas sedentas . De fato, em sua maioria, no caso de Gisèle, seus violadores eram homens comuns, que cruzavam com ela no dia a dia de uma pequena cidade. Isso mostra que vivemos em um mundo cujo sistema aceita e abriga a banalização cotidiana da violência, um planeta que ainda tolera e permite disposição coletiva de duvidar da mulher antes mesmo de responsabilizar um agressor.

Ao longo do processo, marcado pelos julgamentos e pelas oitivas de seus agressores, Gisèle afirmou que “a vergonha precisa mudar de lado”. A frase, como ela mesma narra, instalou-se em sua cabeça como um refrão e deveria ressoar também nas nossas, em todos os lugares. Com essa decisão, ela começou a desmontar um dos mecanismos sociais mais antigos de proteção aos agressores e inverteu a lógica ao decidir expô-los. Foi mais que uma decisão pessoal. Foi uma sentença política e social que confronta aquilo que durante séculos foi imposto às mulheres: a vergonha. Vergonha de ter confiado, vergonha de não ter percebido, vergonha de não ter reagido, vergonha de não ter denunciado antes.

A sociedade aperfeiçoou esse deslocamento moral a ponto de torná-lo quase automático. Enquanto isso, homens que cometem violência costumam circular sob a presunção confortável de que sempre haverá um ambiente disposto a relativizar seus atos ou a deslocar o escrutínio para quem sofreu a violência.

Foi impossível não pensar nisso ao ler uma notícia recente sobre o livro e, em seguida, percorrer os comentários deixados por leitores. Ali estava exposta, com franqueza estarrecedora, a engrenagem social que protege agressores todos os dias. Homens comuns sentindo-se autorizados a desmoralizar o relato de uma mulher violentada. Homens tratando anos de crimes com sarcasmo, desdém e incredulidade, como se a violência tivesse de obedecer a um roteiro plausível para ser reconhecida como tal.

Esse tipo de reação não é um desvio. É parte do mecanismo que permite que a violência continue existindo. Estupradores e agressores não dependem apenas da força física ou da infeliz “oportunidade” de encontrar uma vítima. Dependem também de um ambiente social disposto a duvidar das mulheres, relativizar o crime ou dissolver a figura do agressor na invisibilidade. A misoginia prospera nesse terreno de tolerância. Não precisa de unanimidade para sobreviver. Precisa de ironia cúmplice, da certeza de impunidade, da descredibilização das vítimas e do apagamento reiterado da voz feminina.

A decisão de Gisèle Pelicot de tornar o julgamento público e televisionado tem uma força particular. Ao permitir que os rostos e os nomes dos homens envolvidos viessem à tona, ela recusou o anonimato que tantas vezes recai sobre as vítimas e deslocou a exposição para aqueles que cometeram a violência. Não se tratava de vingança. Tratava-se de impor responsabilidade pública aos seus algozes. Expor agressores é retirar a violência do conforto do silêncio e afirmar que esses crimes não serão absorvidos pela rotina nem dissolvidos em estatísticas.

A brutalidade desse caso encontra eco em episódios recentes deste lado do oceano. Nesta semana, a notícia do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro foi mais uma entre tantas que compõem o noticiário recente que lista casos e mais casos de violência contra mulheres e meninas. Mas há algo ainda mais aterrorizante nesse episódio específico: a idade dos envolvidos. São homens muito jovens, nascidos e criados em uma geração cercada de informação, debates públicos sobre igualdade e direitos, campanhas educativas e acesso a conhecimento em escala inédita. Ainda assim, a misoginia continua encontrando caminhos para se reproduzir.

O episódio tornou-se ainda mais brutal quando vieram à tona investigações sobre outros casos de violência sexual envolvendo o mesmo grupo de homens. A repetição de relatos dentro de um mesmo círculo mostra que este não é um desvio individual. Revela um ambiente em que a violência encontra espaço para existir e se repetir.

Entre mulheres, a reação diante de notícias como essas raramente é surpresa, mas revolta. Revolta porque quase todas conhecem histórias semelhantes. Pessoalmente, não conheço uma mulher que se sinta plenamente segura. Não conheço uma mulher que não possa relatar ao menos um episódio de violência sexual, agressão ou tentativa de abuso em sua própria trajetória ou na de alguém próximo.

Quando experiências dessa natureza atravessam tantas vidas diferentes, deixa de fazer sentido tratá-las como exceções. O que se repete com essa frequência revela uma estrutura. Naturalizar essa realidade é mais uma forma de violência. Aceitar que mulheres organizem sua vida cotidiana em torno do medo não é normalidade. É fracasso social.

Os números de feminicídio no Brasil - quase seis mulheres mortas por dia em 2025, segundo dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, produzido pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL) - reforçam essa constatação de forma brutal. Ano após ano, mulheres continuam sendo assassinadas por parceiros, ex-parceiros, conhecidos, homens que acreditam ter algum tipo de direito sobre seus corpos e suas vidas. Esses dados não revelam apenas violência. Escancaram uma lógica persistente de dominação, uma misoginia ancestral que se reproduz e se atualiza.

É por isso que a frase de Gisèle Pelicot precisa ser levada às últimas consequências. Mudar a vergonha de lado significa interromper o reflexo social que transforma vítimas em suspeitas e agressores em sombras anônimas. Significa tornar esses homens visíveis, nomeá-los e responsabilizá-los.

A vergonha nunca pertenceu às mulheres que sobreviveram.

Pertence aos homens que violentam.

E precisa permanecer ali.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.