A vertigem que se sente
Donald Trump enfrentará eleições este ano, e sua imagem está se deteriorando rapidamente
Tontura, desequilíbrio, o mundo girando ao seu redor. Isso é vertigem. É o que todos sentimos desde que Trump (re) assumiu a presidência dos EUA, há um ano.
Depois de ser alvejado na orelha, foi eleito como 47º presidente norte americano (2024), o Trump 02 começou. Sua eleição, a despeito dos crimes cometidos no pleito anterior, não afastaram o povo dos EUA. Depois de fraudar o pleito de 2020 – mas não conseguir reverter os resultados -, desta vez não foi alvo de qualquer questionamento. Os norte americanos não tiveram qualquer constrangimento em votar nele. Pouco importou seu apoio à invasão do Congresso ou a coação de aliados para fraudar os resultados das urnas.
Nesta eleição brandiu com habilidade o custo de vida, o aumento expressivo da pobreza e da violência nas ruas. Foi tão convincente que, mesmo entre os imigrantes documentados, teve mais votos. Convenceu os eleitores que a doutrina Monroe (1823) era o que nunca foi. De uma política que preconizava a não intervenção para a atual, vai uma distância monumental.
Reinterpretar e construir novas narrativas é um recurso comum dos republicanos. Trump é o presidente legítimo do povo americano, terra da liberdade, da meritocracia, e das mentiras. Ah, da desigualdade e da guerra.
O Trump 2 dialoga permanentemente com o povo que vota. Não como um presidente que respeita a democracia, mas como um animador de auditório fascista. Vocês querem bacalhau? Pois não temos! É preciso reler os textos sobre o fascismo de Freud, Reich e Adorno, com celeridade. A missão do Trump 02 é difícil:
Recuperar a hegemonia global dos EUA;
Garantir o domínio dos EUA sobre os sistemas globais de meio de pagamento e a centralidade do dolar no comércio global;
Acabar com a multipolaridade, com a ONU e recuperar o controle da OTAN;
Deter o avanço da China, da Rússia, da Índia e demais brics, em termos económicos e militares;]
O mundo multipolar que vivemos hoje vem sendo construído passo a passo, após 2a guerra (1939-45), mas que não serve (mais) aos interesses hegemónicos dos EUA, especialmente depois da derrocada da URSS. A multipolaridade não funciona tão bem como o mundo gostaria, mas é melhor que um mundo que não leve os interesses de todos em consideração. Está claro que os norte-americanos não pensam assim. Como já ensinava Caetano Veloso, em 1992, americanos olham fundo, mas não para si mesmos.
Trump 2 deixou claro que um sistema alternativo ao dolar seria bombardeado com novas tarifas de importação. Essas tarifas hoje são a principal arma de trump 2. Mas podem ser usadas contra os EUA, como ameaçou a OTAN,
Os BRICs estão construindo um novo sistema mundial de trocas monetárias, não dolarizado, mas que só deve estar totalmente operacional em 2030. Esta semana uma nova fase foi implementada a despeito das pressões dos EUA.
Mas há um ponto mais complexo: a nação que tem o maior poder militar do mundo não pode sofrer perdas expressivas de soldados, por conta a “sensibilidade as baixas”. Historicamente as baixas são parte da lógica das “guerras de atrito”, de enfrentamento de tropas. Por mais e melhores que sejam os equipamentos “made in américa”, a morte de soldados estadunidenses gera uma pressão enorme pelo fim dos combates e retorno dos soldados, como ocorreu no Afeganistão, onde a pressão da mídia fez Trump iniciar um abandono atabalhoado do País, as vésperas das eleições presidenciais.
Trump é um animador de plateia, caricato e jogador de poker, que usa de abusa do blefe. Provocador, sempre tem um novo alvo em mira. Nem bem derrotou maduro, estava atacando a Groenlândia. Mas aqui trombou com a comunidade europeia, e teve de recuar, ao menos por enquanto.
O Trump 2 enfrentará eleições este ano, e sua imagem está se deteriorando rapidamente. Ele pode processar o NY Times, mas isso não altera a opinião dos eleitores que, em última instância, estão pagando a conta.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
