A virtude (e os defeitos) da raiva: reflexões sobre o papel de Lula daqui para a frente

"Lula terá que ser sábio para nos ajudar a atravessar a tormenta.Daqui para a frente, o ex-presidente tem o desafio de combinar a indignação que sempre o marcou como político com a sabedoria que conquistou ao longo dos anos", escreve a Cynara Menezes, do Jornalistas pela Democracia. Ela complementa apontando o que classifica como "o maior desafio" de Lula. "O maior desafio do ex-presidente é saber utilizar a raiva como força transformadora e encarnar o Lulinha 2.0, o Lula da fúria zen"

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Por Cynara Menezes, no Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia

Lula enfim deixou a prisão na sexta-feira, 8 de novembro, após 580 dias encarcerado. Foi um dia para não esquecer. Depois de um longo inverno, voltamos a sorrir, o país foi contaminado pela energia boa daquelas pessoas que, sob chuva, sol e frio, não arredaram pé em frente à sede da Polícia Federal em Curitiba para dar seu carinho ao ex-presidente assim que saísse. Uma alegria que seria interrompida subitamente no domingo, quando o golpe militar contra Evo Morales, na Bolívia, nos puxou para a dura realidade: temos muita luta diante de nós. E Lula terá que ser sábio para nos ajudar a atravessar a tormenta.

Daqui para a frente, o ex-presidente tem o desafio de combinar a indignação que sempre o marcou como político com a sabedoria que conquistou ao longo dos anos. Lula saiu maior do cárcere do que entrou. Ele mesmo disse que leu mais livros em Curitiba do que durante toda a vida. Deixa a prisão mais velho, os cabelos rareando na cabeça, olhar sofrido. Mas forte como um touro. “Sou um senhor muito jovem. Tenho 74 anos do ponto de vista biológico, mas tenho 30 anos de energia e 20 anos de tesão”, brincou.

Ainda em Curitiba, logo ao deixar a prisão, Lula fez um discurso amoroso, de agradecimento aos que ficaram na vigília, em que não faltou nem beijo na namorada. “Eu saio daqui sem ódio. Aos 74 anos, meu coração só tem espaço para o amor, porque o amor vai vencer nesse país”, disse. “Eu não tenho mágoa de ninguém. Eu quero provar que esse país pode ser muito melhor quando tiver um governo que não minta tanto quanto Bolsonaro no twitter.”

No dia seguinte, em São Bernardo, Lula subiu o tom, abrindo o fogo contra a Globo logo na primeira frase, para reafirmar ao final que não irá se mover pelo ódio. “Diziam: ‘será que o Lula vai sair com ódio de lá? Será que o Lula vai sair mais radicalizado de lá? Será que o Lula vai querer vingança?’ Não quero nada. Eu quero construir este país com a mesma alegria que nós construímos quando nós governamos”, disse. “Aos 74 anos de idade, eu não tenho direito de ter ódio no coração.”

Lula chegou a dar bronca na multidão, com razão, quando ela ensaiou entoar o famigerado “Bolsonaro, vai tomar no cu”. Explicou que sua mãe, dona Lindu não admitia filho falando palavrão e que não é preciso falar palavrão para Bolsonaro, “porque ele já é um palavrão”. E advertiu: “A gente não pode fazer o jogo rasteiro deles”.

Lula precisa estar atento a suas próprias palavras. A raiva é uma boa camarada para a luta, mobiliza e impulsiona; o rancor, não. A raiva que ele sente é natural. Cobrar que Lula não sinta raiva depois de 580 dias preso em um processo cheio de falhas é absurdo. Como pode Lula não sentir raiva diante de tudo que fizeram e estão fazendo com nosso país, com o que fizeram com ele, roubando dois anos de sua vida, de convívio com seus filhos e netos? Mas o rancor é um sentimento ruim, que atrai energias negativas e confunde o julgamento.

Lula terá que andar no fio da navalha entre a justa raiva e o amargo rancor. Melhor se livrar do segundo, como bem disse ao sair da prisão: “Eu não tenho mágoa de ninguém. Eu quero provar que esse país pode ser melhor. Aos 74 anos, meu coração só tem espaço para o amor, porque o amor vai vencer nesse país”.

Tem que se inspirar em Pepe Mujica, que usou os anos na prisão para forjar o líder espiritualmente evoluído e respeitado que é hoje. Tem que se inspirar em Nelson Mandela. Não deve nunca perder a espontaneidade, deixar de falar o que deve ser falado, mas deve conseguir transmitir também mensagens que calem fundo em nosso povo, mensagens que toquem seu coração acima da raiva, que contribuam para a formação política da sociedade e para sua verdadeira (trans)formação.

Uma das coisas que mais me causaram revolta no fato de Lula estar preso foi ver Fernando Henrique Cardoso usurpando o lugar que era dele de direito, o lugar de ex-presidente admirado e amado por seu povo. FHC jamais gozou do prestígio popular de seu sucessor. Era Lula quem deveria estar sendo procurado pela mídia para repercutir os assuntos do país. Mas o preconceito de classe dos donos da imprensa nunca permitiu.

Hoje, porém, temos nossos próprios canais de comunicação. Quero ver Lula opinando sobre tudo, do alto da experiência que conquistou em mais de 40 anos dedicados ao Brasil, que conhece inteirinho, de Norte a Sul. Lula tem que se assumir plenamente de esquerda, e mostrar que o projeto econômico da esquerda é outro, que a esquerda não abdica da verdade dos fatos, que não faz jogo sujo, que não compactua com o ódio, a intolerância e os falsos profetas. Convencer as pessoas do equívoco que nós, brasileiros, trilhamos ao eleger Jair Bolsonaro em 2018.

Para isso, é preciso mais que o Lula operário. E também é preciso mais que o “Lulinha Paz e Amor” que os marqueteiros fizeram aflorar em 2002. O Lula iluminado que saiu daquela cela tem muito a oferecer ao Brasil. Não deve bater boca com Bolsonaro porque está acima dele, muito menos com seus ministros de quinta categoria. Tem que formular teoria, ajudar o PT a se renovar, se aproximar da juventude; e tem, mais do que ninguém, que contribuir para elevar o nível do debate.

Um dos livros que Lula leu na prisão foi A Virtude da Raiva, do neto de Mahatma Gandhi, Arun, que abre com a seguinte frase do líder pacifista indiano: “Não precisamos ter vergonha da raiva. Ela é algo muito bonito e poderoso que nos leva a agir. Temos que nos envergonhar é de exagerarmos na dose”. O que o livro pretende é ensinar como a raiva pode ser canalizada de forma transformadora. “Use a raiva com sabedoria, permita que ela o ajude a encontrar soluções com amor e verdade”, disse o autor, em entrevista ao portal Colabora.

Esse é o maior desafio de Lula agora: encarnar o Lulinha 2.0, o Lula da fúria zen.

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