A visita de Dilma aos EUA, para além da diplomacia oficial

Pelo que se vê, Dilma está correta para além do pragmatismo econômico e taticismo político e o Brasil pode e deve cumprir um papel muito mais profundo do que a agenda que a presidenta abriu com Obama

A presidenta Dilma está a encerrar uma positiva agenda nos Estados Unidos.

Lá, visitou, junto com o presidente Barack Obama, o túmulo de Marting Luther King, descrito pela agência oficial de notícias da Casa Branca como "oportunidade para refletirem juntos sobre a luta de Luther King em toda a sua vida em prol da igualdade e da justiça e contra o racismo e a intolerância", para afirmar "vários valores compartilhados e os laços fortes que existem entre os povos americano e brasileiro". Em discurso no encerramento do Encontro Empresarial sobre Oportunidades de Investimento em Infraestrutura no Brasil,ela disse que o Brasil quer ampliar as relações com os Estados Unidos, "não apenas entre os governos, mas também com as empresas norte-americanas, a sociedade e com a academia", prometeu uma economia mais aberta, firmou convênios de trocas tecnológicas com a Nasa, convocou investidores americanos a apostarem no Brasil, acertou metas ambientais e discutiu o fim do visto à brasileiros para entrada nos EUA.

O momento para os pactos e declarações da presidenta não pode ser mais oportuno. Não foi apenas a legalização do casamento gay que foi considerado constitucional pela suprema corte daquele país, mas também o "Obamacare", o ensaio de SUS estadunidense que, segundo centros de pesquisa do gigante vizinho do norte, seriam impensáveis nas décadas de 80 e 90.

Os compromissos e assertivas de presidenta, no mesmo sentido, ocorrem pouco depois de a pré-candidata favorita do Partido Democrata, Hillary Clinton, defender mudanças na legislação para pôr fim ao que chama de Era de Encarceramento em Massa, aumento da maioridade penal - na contramão do Brasil, onde os conservadores se dizem inspirados pelos EUA - o fim do uso da bandeira racista dos Confederados anti-Lincoln em estabelecimentos públicos e por empresas, e o controle de armas, após o atentado assassino contra uma igreja de afro-americanos.

Da mesma forma, o Nobel da economia Paul Krugman, em artigo recente, assegurou que "os Estados Unidos estão apresentando um nível de polarização política que desde a Guerra Civil não se vê". Para ele, "enquanto os democratas tentarão expandir os programas sociais, a intervenção estatal na economia e reduzir gastos bélicos, os Republicanos farão todo o contrário. Ou seja, o Partido Democrata cada vez mais se consolida como uma típica alternativa da esquerda aos moldes europeus".

Isso se deve às consequências da crise de 2008, quando o presidente Barack Obama optou por implementar uma agenda de regulação estatal dos desajustes econômicos e sociais ocasionados por ela. A presidenta compreende este novo momento, não à toa, realizou esta viagem para distensionar relações com os EUA com fins pragmáticos, é verdade, em busca de seu novo projeto de fazer a iniciativa privada se comprometer com parte da retomada do crescimento brasileiro e, pelo visto, desde a "nave-mãe". Mas, não se pode dizer, que a retomada das relações com Cuba não tenham pesado para esta escolha de reaproximação na atual conjuntura. Evidentemente, a presidente vê como uma janela de oportunidades o que passa a ocorrer nos EUA para a América Latina. A posição tão questionada sobre a visita-patasquada de Aécio Neves à Venezuela vem neste horizonte.

A bem da verdade, os EUA ainda devem à América Latina um Plano Marshall, um programa de parcerias econômicas e sociais de igual para igual voltada ao desenvolvimento. Ao contrário da Europa, por aqui, a escolha foi o Big Stick e o fomento a golpes militares. A nova conjuntura da América permitiria uma inovação histórica neste sentido? A retomada com Cuba pode não apenas indicar assertivamente, mas ser um brecha para este convencimento, que não seria, de modo nenhum, ruim para a América Latina.

Às vésperas das primárias presidenciais, tudo indica que esta nova tendência dos EUA, da qual falou Paul Krugman, tende a se aprofundar.

Adversário de Hillary nas primárias do Partido Democrata, Martin O'Malley, defende um salário mínimo mais alto e acusa a elite financeira de ter usado o governo para criar uma economia que condenou 70% dos americanos a ganhar menos do que há 12 anos. É o anti-Lobos de Wall Street, que propõe "reconstruir o sonho americano" enfrentando o "establishment" do partido. O'Malley defende uma nova economia energética baseada nas energias renováveis e promete conseguir que as 11 milhões de pessoas que estão em situação ilegal possam ser integradas com plenos direitos no país.

Outra adversária de Hillary nas primárias, a senadora Elizabeth Warren é a candidata preferencial do Occupy Wall Street, com um discurso contra as desigualdades sociais e econômicas.

Já Bernie Sanders, outro concorrente às prévias do Partido Democrata, possui antiga relação com movimentos de esquerda, tem apoio do partido "Democratic Socialists of America" e ligações com a Internacional Socialista. Ele apoia a criação de cooperativas de trabalhadores, a regulação da mídia e a criação de um sistema público de educação superior e de saúde. Sua máxima é "Este país não pertence apenas a um grupinho de bilionários".

A disputa das prévias democratas nestes termos, com certeza, empurrarão a favorita Hillary ainda mais à esquerda e a arrastará, dada a conformação étnica atual americana, além da polarização, a ser uma provável candidata de um novo campo nacional, democrático e popular dos EUA. Tal tendência é reforçada pela crescente influência de Ron Paul, um republicano do campo dos "Libertários", que defende reduzir os gastos militares, rever a política externa, retomar o padrão Ouro no lugar do Dólar atacando o financismo e ampliar direitos individuais, ao anti-Tea Party.

Pelo que se vê, Dilma está correta para além do pragmatismo econômico e taticismo político e o Brasil pode e deve cumprir um papel muito mais profundo do que a agenda que a presidenta abriu com Obama. O PT do Bolsa-Família mundialmente reconhecido, da exclusão do Mapa da Fome da ONU, do Minha Casa Minha Vida, do crescimento combinado com distribuição de renda, das bases sindicais, LGBTs, feministas, anti-racistas tem muito a construir com este novo Partido Democrata que parece brotar das contradições americanas. Cada vez mais a cooperação direta partidos-partidos, para além de governo-governo, é fundamental para uma nova ordem, que não necessariamente deve passar pela reedição de uma Guerra Fria. Construir estas pontes é um desafio a ser refletido pelo PT para, quem sabe, cumprir um papel importante na definição do rumo dos - quem diria! - Estados Unidos.

Isso não significará ao PT deixar de ser de esquerda, virar as costas à América Latina ou aos BRICS, mas disputar o mundo por dentro tal como optou por disputar o Brasil real com as reformas organizativas empreendidas internamente ao partido nos anos 90, que gerou governos capazes de adentrar num jogo tão alto como ser um player da nova ordem mundial: a construção e consolidação dos BRICS, a liderança da integração regional ou no papel jogado para firmar um acordo entre o Irã e o Ocidente.

Historicamente se diz que o PSDB tem relações avançadas com o Partido Democrata, pois é hora de alterar este eixo que impulsionou, nos anos 90, o neoliberalismo. Anos 90 estes inimagináveis para as reformas pelas quais os EUA passam hoje.

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