A vitória das finanças apátridas

Em vez de apoiar seus parceiros no BRICS, o Brasil se submete ao mundo unipolar em crise, numa guerra para a qual não tem qualquer questão nacional envolvida

www.brasil247.com - Presidentes Joe Biden (EUA), Xi Jinping (China) e Vladimir Putin (Rússia)
Presidentes Joe Biden (EUA), Xi Jinping (China) e Vladimir Putin (Rússia) (Foto: Divulgação)


As crises do petróleo provocaram grande excesso de dinheiro nos bancos do Atlântico Norte que se dirigiram, a princípio com taxas atraentes, para os países do terceiro mundo – América Latina e África –, sequiosos de modernidade, desenvolvimento social e econômico. 

A Guerra Irã-Iraque (1980-1988), países com imensas reservas de petróleo, serviu de pretexto para o “oil glut”, a redução da produção de petróleo, em 1980, e para a disparada das taxas de juros. 

Quanto aos juros, instrumento tradicional de controle das finanças (dívidas), verifiquem as taxas nominais cobradas pelo “banco central privado dos Estados Unidos da América (EUA)”, o Federal Reserve (FED): 

Março de 1971, 3,25% ao ano 

Maio de 1974, 11, 64% ao ano 

Junho de 1981, 19,83% ao ano 

Agosto de 1984, 11,53% ao ano 

Mais do que explicadas as “décadas perdidas” de 1980-1990, as mudanças de governo e a chegada do neoliberalismo como salvador da pátria, trazendo o estado mínimo, desregulações dos controles financeiros por todo mundo e o  “mercado financeiro”, pontificando  como o grande senhor, o “supremo construtor”, governador da sociedade humana. 

Vimos que o primeiro auxílio para as finanças partiu dos movimentos que tratavam da questão ambiental. 

Recordemos, aqui, uma frase famosa dita em 1973 por Henry Kissinger, então secretário de Estado dos EUA: “o controle do petróleo levava ao controle das nações”.  

Em 1973, quando ocorre o primeiro choque do petróleo, a demanda por combustíveis fósseis era imensa. Representava 82% do consumo de energia no mundo. 

Em 2021, após campanhas para substituição e redução do petróleo como fonte primária, ele ainda representava 55% do consumo do planeta, segundo a estatística de energia mais lida do mundo (2021, bp Statistical Review of World Energy, 71ª edição). 

Ora, encarecer o preço do petróleo era lançar todo mundo na carestia e na economia de um bem indispensável para iluminar e aquecer as residências, mover máquinas e veículos, para que todo conforto do mundo moderno fosse reduzido, pela indisponibilidade ou pelo preço. Resultado: as finanças colocavam as populações contra o petróleo. 

A total liberdade de movimentação do capital financeiro foi a terceira iniciativa das finanças: a primeira foi o domínio das consciências em relação ao meio ambiente (WWF, Greenpeace) e à liberdade (1968); a segunda foi endividar as nações no afã de galgarem patamares mais elevados de bem estar, com juros baixos. 

Agora parte para as desregulações aproveitando governos favoráveis nos dois maiores centros financeiros: Reino Unido (Margaret Thatcher) e EUA (Ronald Reagan). 

Ao fim da década, 1989, elaboram um decálogo para o mundo: o Consenso de Washington. 

Conforme esses dez mandamentos a principal incumbência das nações era o equilíbrio fiscal: nada de gastar o que não tem. E para obter este equilíbrio, a dívida sempre crescente, por artifícios de toda sorte (legais e ilegais, legítimos e falaciosos), era um obstáculo quase intransponível. A dívida passa a dirigir as nações. 

Uma sequência de “crises” fará a transferência de recursos estatais e empresariais para o sistema financeiro: 

1987 – Na Bolsa de New York, que despenca 22,6% 

1990 – Da bolha imobiliária japonesa 

1992 – No sistema monetário europeu 

1994 – “El Horror de Diciembre”, no México 

1997 – “Crise dos gigantes do sudeste asiático” 

1998 – Nas finanças da Rússia, não mais comunista 

1999 – Da reeleição de FHC, no Brasil 

2000 – Estouro da bolha da internet, a PontoCom 

2001-2002 – “A crise argentina” 

Assim, o sistema financeiro chega emponderadíssimo ao século 21.  

Mas, agora, quem é o sistema financeiro? 

A partir da última década do século 20, com as desregulações, os capitais “marginais” (de origem ilícita) saem de armários, malas, porões onde eram guardados para contas bancárias. 

Em nosso entendimento, tais capitais, sempre alvo de interesses econômicos e políticos, começaram testando esta “abertura”, esta possibilidade de lavagem que lhes era oferecida pela desregulação. 

Em levantamento que fizemos nas transações internacionais ocorridas entre 1991 e 1999, identificamos US$ 4 trilhões  sem origem conhecida. 

Não é muito para quem lida com tráfico de drogas, contrabando de pessoas, órgãos humanos, armas e muitos outros bens, prostituição e outros ilícitos. Mas serviu para ter a confiança desses “investidores”. 

Na mesma década de 1991-1999, o número de paraísos fiscais multiplica-se por dez. 

E o volume cresce. Tanto que um novo gestor, fora de bancos e financeiras tradicionais, é criado. São os gestores de ativos, que hoje superam os Produtos Internos Brutos (PIBs) de quase todos ao países do mundo. 

Os dois maiores — BlackRock e Vanguard– já igualam o PIB estadunidense. 

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo que começara o século 20 com uma população de 1,663 bilhão de habitantes, chega 100 anos a 6,55 bilhões. 

O fator demográfico passa a ser um grande inimigo das finanças apátridas, surgem as epidemias. 

Expansão da dengue, surgimento de dengue hemorrágica, novas doenças (algumas delas, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), surto de Ebola (África Ocidental) e, mais recentemente, Chikungunya e Zika, doenças virais até então consideradas raras e restritas a regiões geográficas delimitadas. 

Hoje se luta contra o SARS-CoV-2, o vírus da Covid-19 e suas múltiplas transformações. 

Em nosso modesto entender, a crises de 2008 a 2010 (tiveram como epicentros os EUA e a União Europeia, particularmente Grécia, Espanha, Itália) representam o rearranjo interno das finanças pela ascendência do capital marginal. 

Esta nova configuração ainda não se completou o que nos indica, com outras situações, o eclodir de breve e nova “crise”. 

Para dar conta dos recursos disponíveis e das demandas pelas aplicações, o sistema financeiro precisou criar títulos sem lastro, ou seja, papéis que não tinham ativos reais para sustentá-los. 

E com a crescente demanda, com 85 paraísos fiscais para lavar e ficar isento de pagamento de impostos, com a corrupção, que além de ser modo de vida das finanças ainda se tornou instrumento de dominação de congressos e instituições públicas nacionais (judiciário, militares, receitas e tesouros etc.), houve necessidade de multiplicar papéis referenciados a um único bem. 

Na crise de 2008/2010 as múltiplas hipotecas de um mesmo imóvel foram a demonstração do que já ocorria com os derivativos das commodities

Esses papéis sem lastro caucionam fundos de investimentos e aplicações financeiras em todo mundo. Os mais conservadores analistas estimam em centenas de trilhões de dólares estadunidenses, já o think tank Instituto Schiller avalia estar em quatrilhões de dólares. Explosão à vista. 

As guerras que antecedem o domínio das finanças no século 21 foram travadas na Europa, mais especificamente na antiga Iugoslávia (31/03/1991 a 12/11/2001). 

No século 21 coube aos EUA realizarem invasões com falsos pretextos e voltadas para o petróleo: 

2001 – Guerra no Afeganistão, com o mote de “guerra ao terror”, que vai até 2021, com mais uma derrota dos EUA. 

2003 e 2011 – Invasão do Iraque pelos EUA, impedindo que este grande exportador de petróleo saísse da esfera do dólar estadunidense. 

2011 – Invasão da Líbia, destruindo um Estado Nacional que tinha o maior índice de desenvolvimento humano (IDH) da África, segundo a ONU. Atualmente a Líbia continua a ser rica em petróleo, mas deixou de ser um Estado. Tornou-se conjunto de tribos que disputam água e esmolas do sistema financeiro internacional. 

As invasões dos EUA e do Reino Unido na Síria se dão por terceiros, simulando disputa no meio islâmico. 

Aliás, pode-se afirmar com mais propriedade que as guerras e golpes de estado no século 21 já não devem ser atribuídos aos estados nacionais, mas a seus verdadeiros dirigentes: o sistema financeiro apátrida. 

Neste momento, em 2022, a situação é de espera pela próxima crise, que será travada entre os capitais marginais e os capitais tradicionais pelo controle dos paraísos fiscais, para apropriação de recursos públicos e particulares. O objetivo é reduzir o enorme montante incobrável dos fundos de investimentos e outras aplicações financeiras deste sistema. 

 Epílogo 

Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA, tinha um lado e não era do país que representava; era do capitalismo financeiro. Mas tinha a inteligência de compreender que o mundo girava em torno de duas necessidades: a energia e o alimento. 

Esta lição dele, que era membro do Clube Bilderberg, passou a ser a busca do controle pela finanças apátridas. 

Isso explica, por exemplo: 

— o golpe de 2016 que derrubou a presidenta Dilma Rousseff; 

— o desmoronamento do grande e exitoso projeto brasileiro na área da energia, a Petrobrás; 

–a privatização da Eletrobrás; 

— o fechamento das empresas brasileiras, estatais e privadas produtoras de fertilizantes e implementos agrícolas; 

— o controle pelas finanças apátridas do comércio exterior de grãos, sufocando as iniciativas nacionais, privadas e estatais (Interbrás). 

Enfim, o que vemos agora é o Brasil assumindo a sua condição de colônia, trocando o interesse nacional do mundo multipolar pelo mundo globalizado das finanças. 

Em vez de apoiar Rússia, China e Índia, seus parceiros no BRICS, o Brasil se submete ao mundo unipolar em crise, numa guerra para a qual não tem qualquer questão nacional envolvida. 

Apenas para mostrar sua submissão à Organização do Tratado  do Atlântico Norte (Otan), que nem quer sua participação. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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