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Chico Teixeira

Historiador e professor titular da UFRJ

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A volta ao tempo do medo

Hoje a “Associação de Cientistas Atômicos” atualizou o “Relógio do Fim do Mundo”: faltam apenas 89 segundos para a Meia-Noite!

Bomba atômica jogada em Hiroshima pelos EUA em 1945

Eu cresci e vivi minha infância e adolescência, como outras milhões de pessoas em todo o mundo, sob o risco do apocalipse atômico. Tinha 11 anos de idade quando minha professora na Escola Estadual Conde de Agrolongo, na traumatizada Penha, Rio de Janeiro, nos falou de Hiroshima, Nagasaki e das explosões nucleares no Atol Bikini. Foi então que vi as primeiras imagens de Hiroshima, do mar de Bikini, e da criação pelo homem de armas capazes de destruir o mundo. Adolescente, o medo do apocalipse nuclear se expressava claramente em filmes “do fim do mundo”, e nas séries japonesas originais de “Godzilla”. O original “Gojira” foi lançado em 1954 pela Produtora Toho, sob  a direção de Ishirō Honda e produzido por Tomoyuki Tanaka. Tratava-se claramente de uma advertência, metafórica, sobre os impactos do uso das armas nucleares e seus testes ao ar livre e a consequente contaminação radioativa. Para muitos, o próprio Godzilla representava uma personificação do medo pós-guerra no Japão – o único país alvo de um ataque nuclear. 

Inaugurava-se através do filme de Ishiro Honda, o gênero “kaiju” - o cinema de monstros gigantes – com um estilo próprio, miniaturizado, de efeitos especiais ditos “tokusatsu”, que apresentavam cidades sendo destruídas por monstros criados pelos efeitos da radiação. 

O Ocidente não ficou atrás: em 1955 o diretor Jack Arnold lançava “Tarântula”, com fantásticos efeitos, em particular as sequências de externas no deserto da Califórnia, denunciando uma ciência sem ética. Em seguida vinha o desconcertante “O Incrível Homem que Encolheu”, também de Arnold, em 1956. Monstros povoavam as telas de cinema em consequência da radiação nuclear decorrente de experimentos humanos – em especial os testes nucleares de superfície, tanto nos atóis do Pacífico como nos desertos do Novo México e no “Nevada Test Site”, onde cerca de 900 bombas atômicas, inclusive a “Bomba H” e a Bomba de Nêutrons vinham sendo “testadas”. Esta última era dita a “bomba capitalista”, posto possuía a capacidade de matar por efeito da radiação, poupando - para quem? - as propriedades privadas. Neste clima surge, em 1957, o filme de Bert I. Gordon denominado “O Começo do Fim”, consolidando um subgênero de ficção científica terror denominado de “bigs bugs”, os insetos gigantes, mutantes criados pelo efeito da radiação, que ameaçam a humanidade. Ou simplesmente por uma morte silenciosa, suja, invisível e inevitável, decorrente de nuvens de radiação que circulariam o planeta. Descobrimos, então, que não era preciso estar próximo do “ponto zero”: os ventos, as chuvas, os rios e os mares seriam envenenados pela radiação durante uma guerra nuclear.

Foi então que assisti, na cinemateca do MAM no Rio de Janeiro, o filme de Alain Resnais, “Hiroshima, Mon amour”, de 1959, um manifesto radical contra a guerra, contra as armas atômicas e a loucura de vivermos sob a “Condição MAD” – a Mútua Destruição Assegurada, através da proliferação atômica. Tratava-se, e ainda é assim, do mais radical manifesto fílmico contra a guerra, contra todas as guerras. 

Filmes fundamentais da agenda pacifista nos advertiam, então, que num “lapso momentâneo da razão”, como diria o Pink Floyd no álbum de 1987, poderíamos fazer em 30 minutos que o a Primeira e a Segunda Guerra Mundial juntas não fizeram durante anos seguidos: a completa destruição da Humanidade. Eram tempos de filmes pessimistas, sombrios e carregados de advertências, como “On the Beach” / A Hora Final, de 1959, dirigido por Stanley Kramer; “Fail Safe” /Limite de Segurança, de Sidney Lumet, de 1964; “Seven Days in May” / Sete Dias em Maio, também de 1964, dirigido por John Frankenheimer e, então, o arrasador “Dr. Fantástico” – ou “Dr. Strangelove: ou Como Parei de Preocupar e Aprendi a Amar a Bomba”, ainda em 1964, de Stanley Kubrick. Não era necessário dizer mais, bastava-nos falar “a bomba” para sabermos que havia uma ameaça fatal sobre a Humanidade. Não nos voltávamos para tecnicidades de guerra, se eram mísseis, aviões ou outro meio – o vetor – que nos levaria para o apocalipse. Bastava a menção “a bomba”, e todos sabíamos que seria o fim. 

O ano de 1964 tornou o filme de Kubrick – com um genial Peter Sellers – especial. Aproximava-se com a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962 e a chegada dos “conselheiros” americanos no Vietnã, cada vez mais, a possibilidade da “Terceira Guerra Mundial”. Terceira e última guerra mundial, como advertiam homens como Einstein, Sartre ou Russel. A inconformidade norte-americana com a Revolução Cubana tornara a América Latina, e o Caribe, como hoje, numa ameaça à paz mundial, em especial com a Crise dos Mísseis de 1962, acelerando os golpes militares, ditos “preventivos”, por todo o continente, incluindo o Brasil, arrastando a Argentina e o Chile. A Guerra no Vietnã culminaria, em 1972, com terríveis bombardeios sobre Hanoi e Haiphong, atingindo navios soviéticos e chineses: o mundo prendia a respiração.

A corrida armamentista entre EUA e URSS chegava ao seu paroxismo. O mundo aterrorizado vivia a ameaça da “Segunda Guerra Fria”, impulsionada por Reagan e Thatcher, pela possibilidade real do uso da Bomba de Nêutrons e as novas armas nucleares, ditas táticas, miniaturizadas sob a forma de granadas e obuses nucleares, ao lado dos cálculos insanos do “futurólogo” apocalíptico Fritz Khan sobre quantos americanos morreriam numa guerra nuclear com a então URSS,  sugerindo ao complexo industrial-militar que a guerra nuclear não seria o fim e, ao contrário, valeria à pena para destruir o comunismo.  Nas ruas, em Berlim, escondíamos o slogan antiguerra: “Besser rot als tot! Ou “Melhor vermelho do que morto!”

Uma última advertência viria com o filme “Day After” / O Dia Seguinte, de 1983, dirigido por Nicholas Myer: o que aconteceria depois da guerra? A total ausência de meios médicos, a fome, o colapso das instituições e, então, o “inverno nuclear”, fenômeno que somando a fuligem, o pó e as cinzas da civilização calcinada criara um halo impenetrável à luz em volta da terra. Como há 66 milhões de anos morreram os dinossauros, a humanidade sucumbiria no frio e na escuridão de um inverno infinito.

Foi neste contexto, como advertência, que em 1947 foi criado o “Relógio do Fim do Mundo” - Doomsday Clock - pela artista paisagista Martyl Langsdorff por iniciativa do Bulletin of the Atomic Scientists, sediado na Universidade de Chicago: marcavam-se os minutos para a meia noite final. Naquele momento faltavam apenas 15 minutos de vida para a Humanidade.

 Assisti “Day After” em Berlim, exatamente a cidade, com seu muro, que desencadearia, no filme, a guerra final – a cidade parou, estupefata, para assistir seu próprio fim. Um pouco antes, no Inverno de 1982, todos os berlinenses tinham sido acordados por um tremendo estrondo de aviões ultrapassando a velocidade do som sobre a cidade. Pessoas perambularam em choque nesta madrugada, muitos com roupas de dormir numa temperatura de oito graus abaixo de zero, certos de que a guerra começara. Era, no entanto, apenas uma escaramuça entre as forças aéreas americanas e soviéticas que romperam a velocidade do som sobre a cidade. 

No entanto, havia no ar, para além dos aviões, o medo.

Havia resistência, bloqueios e protestos: milhões de pessoas foram para as ruas e pediram o fim das armas atômicas. Rua por rua, bairro por bairro, cidades como Berlim, Paris ou Roma eram declaradas “livres de armas atômicas”. A oposição estendia-se às usinas nucleares que desde a “Síndrome da China” – filme de James Bridge, de 1979, com a “guerreira da nossa geração”, Jane Fonda - sabíamos que não eram seguras. Os acidentes de Three Mile Island, exato em 1979, e depois em Fukushima, em 2011, viriam a confirmar os imensos riscos das usinas nucleares.

Então veio a derrubada do Muro de Berlim, em 1989 e o colapso da União Soviética: terminava a Guerra Fria. Havia uma possibilidade de paz, o que logo foi desmentido pelo surgimento de formas variadas de terrorismo e de empoderamento do Império Americano, como na Guerra do Iraque - dita “Guerra do Golfo” – de 1991.  Havia também a possibilidade de terrorismo nuclear: qual a segurança dos arsenais nucleares? O filme de John Woo, de 1996, “A Última Ameaça” – original “Broken Arrow” – viria a apresentar os riscos decorrentes da simples existência dos arsenais nucleares. 

Aos poucos, com a esperança de termos superado os medos e as ameaças da Guerra Fria, acreditamos que o apocalipse nuclear havia sido superado. No entanto, não foi assim. Hoje, na Ucrânia, na Rússia, no Estreito de Taiwan, no Oriente Médio e no Caribe a “escalada” da guerra e a possibilidade de “derrapagem nuclear” é imensa, talvez superior a 1962 ou 1972. Basta um erro de algum dos atores nucleares – e agora são muitos mais do que eram em 1962 – para que haja um lapso momentâneo, e final, da razão. Um novo filme, desta feita “A Casa da Dinamite” de Kathryn Bigelow, de 2025, retoma os velhos temas: a paranoia geopolítica, o militarismo, o escasso controle civil sobre o arsenal atômico e os erros de avaliação dos políticos, para atualizar, como thriller de ficção política, a possibilidade real de um apocalipse nuclear.  Bigelow, como no conjunto de sua cinematografia, nos adverte sobre os riscos crescentes hoje de uma guerra nuclear generalizada.

Hoje a “Associação de Cientistas Atômicos” atualizou o “Relógio do Fim do Mundo”: faltam apenas 89 segundos para a Meia-Noite!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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