A volta da republica do bestializados?

O protesto de sexta-feira, dia 18, irá mostrar se a elite brasileira está sendo bem sucedida no esforço de reconstruir uma republica onde o povo é bestializado -- e nessa situação acompanhou grandes mudanças na história, como a proclamação da República. Como se viu no domingo, a mobilização golpista contra Dilma Rousseff é um evento dos bem nascidos e bem pagos. 

Numa observação sempre oportuna sobre grandes mudanças ocorridas no sistema político do país, Aristides Lobo cunhou uma frase histórica sobre os eventos de 15 de novembro de 1889:"o povo assistiu bestializado" à proclamação da República. Nesta visão, o país "dormiu monárquico e acordou republicano."

A frase, que sintetiza um drama fundamental de nossa história política -- a falta de participação popular na tomada das grandes decisões de Estado -- é um bom ponto de partida para se refletir sobre os protestos deste domingo e suas consequências.

Vivemos num país que atravessou formidáveis mudanças no último século, que seria ocioso explicar aqui. Mas, mesmo depois da instituição do voto direto, livre e secreto, o exercício da soberania popular segue um desafio permanente.   

Não vamos discutir o tamanho das mobilizações, mesmo sabendo que o exagero matemático sempre foi um conhecido truque para ampliar artificialmente a importância de uma força política.  Cabe colocar em debate qual a força social que alimenta uma tentativa de mudança política em curso.

Ocorreu um protesto grandioso, que terá um impacto enorme sobre os rumos da atual crise política. Não há dúvida que dará mais um impulso às articulações que pedem o impeachment de Dilma Rousseff -- ainda que não tenha surgido um fiapo de prova de crime de responsabilidade, indispensável para que seja afastada do cargo de acordo com a Constituição. Criará dificuldades suplementares para o governo tentar rearticular seu precário sistema de alianças de sobrevivência, dentro e fora do Congresso.

O exercício do poder alimenta-se, essencialmente, da perspectiva de poder. E cabe admitir que es se tornou um pouco mais estreita, depois de ontem.

Isso não impede o reconhecimento de um dado fundamental: embora tenham ocorrido manifestações gigantescas, o povo foi o grande ausente dos protestos de ontem. Quem diz isso é o Data Folha, instituto de pesquisas ligado ao jornal que é um dos mais agressivos na defesa do impeachment.

Ao investigar quem é o cidadão que foi as ruas de São Paulo, o Data Folha produziu um retrato cristalino. Só para refrescar a memória.

Numa cidade onde 23% da população sobrevive com uma renda familiar de até cinco salários mínimos, a mobilização arregimentou cidadãos que, por larga maioria, têm acesso a outro padrão de conforto. Nada menos que 63% dos presentes têm renda acima de cinco salários e um total de 77% têm diploma universitário, contra 28% em toda a cidade. Se 2% dos paulistanos se dizem empresários, na Paulista essa proporção era seis vezes maior. Para 60% deles, Fernando Henrique Cardoso foi o maior presidente da História, embora nem chegue às semi finais quando a escolha envolve o conjunto da população. Sergio Moro é um ídolo acima de toda crítica: 96% acham que o juiz da Lava Jato agiu corretamente ao submeter Luiz Inácio Lula da Silva a "condução coercitiva" para tomada de depoimento. 

Esse perfil ajuda entender um dado essencial que, com diferenças aqui e outras ali, pode ser espelhado no país inteiro. Por mais que a mídia grande queira dar um caráter nacional ao evento, é correto assinalar que foi a manifestação de uma parcela -- a elite -- num universo social desigual, conflituoso e excludente. Não era a expressão da maioria dos brasileiros, mas de uma fatia mais engajada e politizada, dos patamares superiores.

Num país onde o povo, frequentemente, é excluído do exercício pleno de seus direitos políticos -- não gosto da expressão bestializado, que tem um aspecto preconceituoso -- essa mobilização produz resultados muito acima do peso social que representa.

Da mesma forma que foi possível trocar a monarquia pela república sem que a maioria dos brasileiros tivesse noção do que ocorria -- e até nutrisse alguma simpatia pelo trono, um ano depois da abolição do cativeiro, a mais importante mudança social 350 anos depois da aparição das caravelas de Cabral em Porto Seguro -- não custa recordar que outras mudanças vieram mais tarde, com essa mesma natureza. É natural. Os patamares superiores ocupam e controlam a cúpula permanente dos poderes públicos, o que inclui a Polícia, a Justiça, o Congresso, o Executivo e as Forças Armadas.

 O golpe de 64, por exemplo, derrubou um presidente submerso em profunda crise política, inflação em disparada, mas aprovação popular muito acima do que se poderia imaginar, como mostra uma pesquisa do Ibope mantida como segredo de Estado após o golpe.

A questão, depois da mobilização de ontem, consiste em saber que tipo de mudança está em curso no país de 2016.

Cabe saber se vivemos num país no qual, após avanços históricos produzidos pela democratização, em particular pela Constituição de 1988, a camada de cima será capaz de reconstruir uma republica elitista, onde o povo será reconduzido a condição de bestializado.

Este é o ponto.

Teremos a resposta nesta sexta-feira, quando as forças comprometidas com a democracia, os direitos dos mais pobres e o respeito pelo voto popular saem as ruas para defender valores e convicções.

 

 

 

 

 

 

 

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