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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A volta de Aécio: crise de Flávio Bolsonaro reabre disputa pela direita em 2026

A política brasileira, mais uma vez, parece girar em círculos

Aécio Neves (Foto: Kayo Magalhães/Agência Câmara)
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A mera possibilidade de o nome de Aécio Neves voltar a circular nos bastidores da direita brasileira talvez diga muito sobre o grau de turbulência e fragmentação vivido atualmente pelo campo conservador. O que parecia improvável há poucos meses começa a ganhar densidade política à medida que a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro enfrenta desgaste crescente após a divulgação de conversas envolvendo pedidos de recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o aprofundamento da crise política em torno do Banco Master.

Nas últimos dias, veículos como a Folha de São Paulo, Itatiaia e Gazeta do Povo noticiaram que dirigentes do PSDB, do Cidadania e de setores aliados passaram a discutir reservadamente uma eventual candidatura presidencial de Aécio Neves em 2026. O simples fato de essa hipótese voltar à mesa revela o tamanho da crise de liderança vivida pela direita brasileira. Após anos apostando na força eleitoral do bolsonarismo, parte do establishment conservador começa a demonstrar desconforto com a tentativa de transformar a sucessão presidencial em um projeto essencialmente familiar em torno do sobrenome Bolsonaro.

A trajetória de Aécio Neves sofreu um colapso político dramático a partir de 2017, quando vieram à tona gravações feitas pelo empresário Joesley Batista, da JBS. Em uma das conversas mais devastadoras para sua carreira, Aécio apareceu pedindo R$ 2 milhões ao empresário, afirmando que o dinheiro deveria ser entregue a uma pessoa “que a gente mata antes de fazer delação”. 

Na época da gravação, Aécio Neves era senador da República por Minas Gerais e uma das principais lideranças nacionais do PSDB. Ele havia sido candidato à Presidência da República em 2014, quando perdeu para Dilma Rousseff por margem apertada no segundo turno. 

A crise levou ao afastamento temporário de seu mandato pelo Supremo Tribunal Federal, produziu enorme desgaste público e simbolizou para muitos brasileiros a derrocada moral do antigo PSDB, justamente quando o partido tentava se apresentar como principal defensor do combate à corrupção no país.

 Embora posteriormente parte das acusações tenha sido revista ou anulada no contexto mais amplo de questionamentos à Lava Jato, o dano político e simbólico à imagem de Aécio já estava consolidado.

Agora, porém, setores da direita parecem concluir que a radicalização permanente e as crises sucessivas do bolsonarismo abriram espaço para a recuperação de nomes tradicionais da política brasileira como o do Aécio. 

Isso não significa necessariamente viabilidade eleitoral imediata. A rejeição acumulada por Aécio continua elevada em parcelas importantes do eleitorado, e o PSDB atravessa um longo processo de perda de musculatura política nacional. Ainda assim, o retorno de seu nome ao debate mostra como a direita brasileira permanece sem um eixo claro de reorganização pós-Bolsonaro.

Existe também um componente econômico importante nessa movimentação. Parte expressiva da elite financeira nunca demonstrou entusiasmo pleno com a candidatura de Flávio Bolsonaro. Desde o final de 2025, análises publicadas por veículos internacionais como a Reuters apontavam o desconforto de investidores diante da hipótese de continuidade direta do bolsonarismo sob liderança familiar. Muitos desses grupos preferiam nomes considerados mais previsíveis institucionalmente, como Tarcísio de Freitas.

O problema é que o próprio Tarcísio tem rabo preso ao núcleo duro bolsonarista. Ao optar por defender Flávio Bolsonaro mesmo diante do desgaste crescente do caso Vorcaro-Banco Master, o governador paulista reduz a distância política que parte do empresariado imaginava existir entre ele e a família Bolsonaro. A consequência disso é que setores da direita começam novamente a procurar alternativas fora do círculo bolsonarista mais direto.

Nesse cenário, a reaparição de Aécio Neves simboliza a tentativa de reconstrução de uma direita liberal tradicional, institucionalizada e capaz de dialogar com partidos de centro sem reproduzir permanentemente a lógica de confronto político, tensão institucional e mobilização radical que marcou os últimos anos.

Mas há uma ironia histórica difícil de ignorar. O mesmo sistema político que há pouco mais de uma década assistia ao colapso do PSDB diante da ascensão meteórica do bolsonarismo agora observa parte da direita revisitar antigos quadros tucanos diante das dificuldades de consolidar um herdeiro competitivo de Jair Bolsonaro.

A política brasileira, mais uma vez, parece girar em círculos. E o simples fato de Aécio Neves voltar a ser mencionado como possibilidade presidencial talvez diga menos sobre sua força eleitoral e mais sobre a profunda desorganização estratégica da direita brasileira às vésperas de 2026.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.