A volta do cipó de aroeira

"É hora, portanto, de ter lado na guerra diante da nova conformação geopolítica do mundo. De estar ao lado da vida, da humanidade, da soberania, do desenvolvimento industrial e tecnológico e dos empregos", escreve o jornalista Fernando Rosa

(Foto: ABr | Reuters)
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O mundo está virado de cabeça para baixo. O Brasil também, e não podia ser diferente. Faz algum tempo que a economia mundial gritava sinais de que um ciclo havia chegado ao fim. 

Nos Estados Unidos, turbinado pela crise, o desastre anunciado contabiliza atualmente 26,5 milhões de desempregados. A Europa está sendo devastada pela pandemia, com destruição de empresas e empregos. Na América Latina, mais exatamente no Chile, o laboratório do neoliberalismo  “explotó”, como dizem por lá.

No Brasil, os indicadores do último trimestre do ano de 2019 deixavam isso claro. Enquanto os bancos registravam um lucro histórico de R$ 81,7 bi, 41% das empresas se encontravam em recessão e o desemprego disparava. Nem o governo insistiu na tese de que sua “galinha” havia sido abatida quando se preparava para levantar voo.

A pandemia elevou a crise a dimensões estratosféricas, inéditas na história moderna do planeta Terra. Se alguém precisa de “medidas”, o tamanho da encrenca é igual a soma das crises de 1929 e 2008, mais as duas guerras mundiais.

Os Estados Unidos enfrentam uma crise sem precedentes, inflada pela lentidão e inoperância no combate a pandemia. Enquanto a China reagiu rapidamente, de forma científica e coletiva, Trump apostou no “negacionismo” e na disputa política em meio aos cadáveres que se amontoavam.

Para piorar a situação, a “trampa” que tentaram armar com a Arábia Saudita para dar um golpe no mercado de petróleo deu com os burros n’água. O resultado, com a queda do consumo mundial, é sua indústria de “shale gas’ à beira da falência, ameaçado levar junto grandes bancos investidores. Situação explosiva, a ponto de se falar em estatizar as empresas.

Por aqui, o neoliberalismo ensaia a sua “saída por cima”, de acordo com os sinas emitidos por seus mestres globais. Em agosto, a Business Roundtable, que reúne 181 CEOs das maiores empresas do mundo, revisou a sua histórica posição. Antes voltada para a maximização dos lucros dos acionistas, passara a defender que empresas devem beneficiar a todos – “clientes, funcionários, fornecedores, comunidades e acionistas”.

Defendendo o “papel do Estado” e outras teses estranhas ao seu manual, os novos neoliberais disputam apenas a salvação da sua lavoura, ou seja, o sistema financeiro, com garantia da “liquidez” dos bancos. O que, aliás, conseguiram com a aprovação do “orçamento de guerra” pelo Congresso Nacional.

Em meio ao tiroteio político, Bolsonaro mantém suas bases de sustentação, são os Estados Unidos, o Exército e as milícias e uma parte da sociedade, ativa e organizada. O governo parece desmanchar a cada dia mas, pode parecer contraditório, é Bolsonaro quem se fortalece, mesmo que temporariamente.

Com iniciativa política, Bolsonaro opera a lógica de manter sua tropa unida no “front” de batalha, mesmo que perdendo alguns soldados. Em menos de dez dias demitiu o ministro da Saúde, Mandetta, e o ministro da Justiça, Moro, o “queridinho” da Globo. Aliás, um parêntesis, Moro trocou de status na relação com a Globo. De “vazador” secreto da Lava Jato para “fonte” pública, mantendo o mesmo padrão operacional.

Embalados pelas demissões de Mandetta e de Moro, com o apoio da Rede Globo, o lavajatismo, inclusive de “esquerda”, tenta um retorno às bases originais que definiram o golpe de Estado, que afastou Dilma do governo. O neoliberalismo aposta em uma saída “por cima”, como se fosse possível conciliar de um lado o lucro histórico e ofensivo dos bancos com a destruição de empresas e o desemprego de milhões de trabalhadores.

São os “criadores” buscando, mais uma vez, no mundo e na história do Brasil, dar meia volta para permanecer no poder. Parafraseando o slogan bufão do atual governo, é o sistema financeiro “acima de todos”, com as “instituições funcionando” e a velha política lustrada pelo “brasso” da hipocrisia.

O “novo mundo” pós-pandemia não comporta mais velhas soluções, nem na economia, nem na política. As atuais instituições estão em cheque, enquanto o “partido” do Exército envereda para a desmoralização.

Já os partidos populares precisam novamente ir até onde o povo está. Mas para mudar alguma coisa de lugar, ainda mais na política, no entanto, é preciso ter outra para substituí-la. Ter o que dizer, principalmente.

O país precisa de um verdadeiro projeto de desenvolvimento, que não resultará de arranjos entre o neoliberalismo “lata-velha” e o servilismo entreguista. Talvez como nunca antes, o Estado é chamado a cumprir seu papel para reconstruir as Nações e, em especial, o Brasil.

As grandes mudanças, e é disso que se trata no momento, impõem ousadia de posturas, de ações e de propostas.

É hora, portanto, de ter lado na guerra diante da nova conformação geopolítica do mundo. De estar ao lado da vida, da humanidade, da soberania, do desenvolvimento industrial e tecnológico e dos empregos. 

É hora da “volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”. O sistema financeiro predatório e criminoso.

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