ABJD, Israel, Palestina e o Amigo Judeu

"Acredito que quase toda a esquerda e a ABJD fazem um esforço para compreender a questão entre Israel e Palestina, e para assimilar o mesmo caminho pela paz, por meio da insistência do diálogo", diz o colunista Martonio. "É cômoda retórica afirmar que qualquer crítica a Israel é antissemitismo. Não passa de comodismo"

Fumaça sobre a Cidade de Gaza durante ataque aéreo israelense
Fumaça sobre a Cidade de Gaza durante ataque aéreo israelense (Foto: REUTERS/Ahmed Jadallah)
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O chamado campo progressista tem sido cobrado, por todos os lados, a respeito de um posicionamento, sobre o mais recente conflito entre Israel e Palestina, na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental. Creio que todos sabemos os elementos desencadeadores deste conflito com seu número de mortos. O que ainda não se sabe são os impactos futuros às negociações do frágil processo de construção da paz na região. Mais polêmica ainda é a tomada de posição no episódio.

Conheço Mauro Nadvorny da leitura de seus textos. Por me reivindicar homem de esquerda, senti-me positivamente provocado a arriscar uma resposta ao seu instigante texto de 29 de maio de 2021, publicado no Brasil 247: “Meu amigo judeu”. Integro a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – a ABJD - desde sua fundação, pelo viés progressista que a ABJD. Em razão da nota que a ABJD fez publicar sobre o conflito, além do fato de também ter amigos judeus, índios, integrantes do grupo LGBTI, negros, senti-me quase no dever de trocar ideias neste espaço. 

A ideia central do texto de Nadvorny pareceu-me ser aquela de que muitos dos que se definem como esquerda tropeçam quando se manifestam contra o Estado Israel no conflito recente. Para Nadvorny, o argumento de que “não sou antissemita porque tenho amigos judeus” esconde, na verdade, um preconceito antissemita. Neste ponto, Nadvorny tem razão. Assim como os racistas repetem que possuem amigos negros; e homofóbicos abertos bradam que são amigos de gays, lésbicas, transgêneros ou transsexuais, na esperança abstrata e fascista de se apaziguarem com suas consciências intolerantes, e continuarem intocados pela legalidade civilizatória que não tolera a intolerância.

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Por outro lado, prezado Mauro Nadvorny, lembro que suas palavras foram publicadas num sítio da internet que é de esquerda, repito, o Brasil 247. E que está correto ao lhe dar voz permanente com seus textos. Dificilmente seria encontrado espaço tão generoso e regular para suas importantes reflexões em veículos que não tivessem linha editorial progressista.

Acredito que quase toda a esquerda e a ABJD fazem um esforço para compreender a questão entre Israel e Palestina, e para assimilar o mesmo caminho pela paz, por meio da insistência do diálogo. Desde logo deixo claro que todos – absolutamente todos que conheço na ABJD e na esquerda política – reconhecem o direito de existência de Israel e seu direito à autodefesa. No seu texto, somos cobrados por manifestações sobre as tragédias humanitárias da África Ocidental, no Iêmen, Myanmar, Síria, Birmânia, todas a destruir qualquer esperança na capacidade humana de solidariedade. 

Não me parece restar dúvidas que aqui Nadvorny também tem razão. Ocorre que também não nos manifestamos sobre a qualidade da democracia do Egito, da Jordânia ou dos Emirados Árabes Unidos, países que já fizeram acordos de paz com Israel. Tampouco contra a monarquia ditatorial da Arábia Saudita, cuja família aprisiona uns aos outros, proibiu mulheres de votar até 2015, enforcado em praça pública, e aos olhos do ocidente é tolerada até quando um jornalista é assassinado em sua repartição consular no estrangeiro. Tudo em nome de um certo “progresso” que o atual monarca saudita procura realizar, ao permitir que mulheres dirijam carros ou que possam ir a centros comerciais e cinemas. Graças à presença de Bandar bin Sultan al-Saud, embaixador saudita em Washington, por mais de vinte anos, a possibilidade de um acordo entre árabes e israelenses não deve ser subestimada. Bandar al Saud jamais escondeu sua disposição na direção de um acordo com Israel. Sua filha, Reema bin Bandar al-Saud, desempenha atualmente o mesmo cargo que foi do pai em Washington.

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Igualmente, nada falamos quando a Áustria reteve o avião do então Presidente da Bolívia Evo Morales, atendendo pedido dos Estados Unidos à Comunidade Europeia, os quais suspeitavam que Morales trazia Edward Snowden na sua aeronave - diplomaticamente imune perante o Direito Internacional - que voava de Moscou para La Paz. Morales foi obrigado a pousar em Viena, em julho de 2013, onde permaneceu por 4 horas até que seu avião fosse inspecionado. O Professor de Direito Internacional da Universidade de Potsdam, Andreas Zimmermann, não poderia ter sido mais enfático: “Todo Estado dispõe da soberania exclusiva sobre seu território e seu espaço aéreo. E sozinho determina quem entra e quem sai. Quando um Estado diz que uma aeronave não pode sobrevoar seu território, então não pode sobrevoar”. Resta-nos saber o que disse o mesmo Professor sobre o caso recente do pouso forçado de uma aeronave comercial em Minsk, do qual também não falamos.

Parece evidente que qualquer um, até mesmo os liberais mais honestos, reconheceriam o desafio contido em todos os casos que são trazidos no seu texto, e que agora procurei recuperar rapidamente. Estes também têm amigos judeus, porém, como nós da ABJD, não criticaram os acordos com Israel por terem sido celebrados com democracias deficitárias, ou mesmo regimes autoritários. E nisso não vai nenhum apoio a estes regimes. Ao contrário: sabemos que um acordo entre Israel, palestinos e árabes é um passo fundamental para o começo da superação da instabilidade na região e que estes regimes são parte da realidade concreta. Não há como piscar os olhos, e fazer com que desapareçam do cenário.

Sabemos também que tal acordo será praticamente impossível com Benjamin Netanyahu no poder. Desde meados dos anos 90 que grupos israelenses sinceramente comprometidos com a paz da região, liderados por Yitzhak Rabin e Shimon Peres, por exemplo, deram largos passos nesta direção, que se perderam na histeria de Netanyahu. 

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Em todos estes fatos, caro Mauro Nadvorny, não creio que sua ideia tenha sido acertada. Sabemos e convivemos com amigos judeus, por quem temos apreço, assim como temos por palestinos e árabes. Usamos a vital amizade entre seres humanos para a solidariedade, porque nos vemos como iguais. Assim como o holocausto da Segunda Guerra nos diz respeito, também nos diz respeito qualquer sofrimento humano. 

É bastante razoável sua pergunta: porque a esquerda se manifestou, então, sobre o caso com tom contrário a Israel? Porque Netanyahu usa da superioridade bélica de Israel para impor sua concepção de convivência entre dois povos. Porque Netanyahu já deixou claro que não tem interesse em qualquer conciliação, e mantém uma separação entre cidadãos nos territórios ocupados, bem demonstrada recentemente por Nimer Sulatny, leitora em Direito Público da Escola de Estudos Orientais da Universidade de Londres, no insuspeito The Guardian. Porque Netanyahu necessita do Hamas para sobreviver politicamente, uma vez que ele é sabedor de que representa parte da sociedade israelense e árabe que não quer acordo. Há responsabilidade da parte de quem detém o poder e armas. A tentação pelo uso contra o mais fraco, de humilhar o mais desarmado é grande. É aqui que vemos a condição objetiva do povo palestino neste momento.

Não defendemos o Hamas, tampouco sua agressão ao povo de Israel, e é um erro pensar que o Hamas não teve relação, na sua origem nos anos 80, com o serviço secreto israelense. Não se trata de responsabilizar Israel, mas sim de constatar que a contraditoriedade da história não cabe nos costumes fáceis das explicações simplistas. Lembramos que os comunistas da antiga URSS reconheceram Israel como Estado em maio de 1948; os Estados Unidos fizeram-no em janeiro de 1949. O reconhecimento pela então URSS se deveu à visão de que Israel seria o fim da influência das potências imperialistas europeias da região, notadamente França e Inglaterra. A esquerda comunista agiu orientada pelo fim do imperialismo. Creio ser o que ainda hoje nos orienta, em nome da autodeterminação de todos os povos.

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É cômoda retórica afirmar que qualquer crítica a Israel é antissemitismo. Não passa de comodismo! Primeiro, porque basta que se olhe na história do século XX a ampla presença judia nos movimentos de esquerda da Europa, de intelectuais a atores políticos, e que são reverenciados até hoje. Talvez não tenha havido um espectro político que melhor recebeu todas as contribuições dos judeus do que a esquerda política. O catolicismo francês ajudou a produzir o caso Dreyfuss; catolicismo e protestantismo alemães olharam para o lado quando o nazismo avançou sobre judeus e comunistas, e fingiram nada ver.

Judeus encontraram firme apoio na esquerda europeia, perseguida e dizimada por fascismo e nazismo. Para o nazismo, como registra Franz Neumann, o antissemitismo era o substituto da luta de classes. A esquerda jamais poderia ser antissemita nestas circunstâncias, uma vez que a verdadeira energia de compreensão e de ação política de muitos sociais-democratas e comunistas era o conceito central de luta de classes. 

Segundo, pela razão de que esta retórica conduz à sua antípoda. O que diria Yitzhak Rabin disso? Além da tragédia de Rabin ter pagado com a vida por sua posição corajosa, foi esta retórica cínica que o chamou de inimigo do próprio povo, das próprias ideias. A que levou tal raciocínio? A nada, ao vazio. Outra personalidade tida como traidor foi Ariel Sharon. De criticado por árabes e palestinos pela guerra do Líbano em 1982, foi capaz de iniciar, em dezembro de 2004, a desocupação de Gaza por colonos judeus. Quase foi derrotado na votação do parlamento, mas os episódios abriram a porta para Netanyahu. Rabin e Sharon foram israelenses que tiveram a coragem de enxergar além do horizonte político tradicional da política sobre o assunto. São antissemitas por isso?

Quem diz que a esquerda é antissemita porque criticou os episódios recentes de Gaza e Jerusalém Oriental, parece ver na irracionalidade de uma forma de violência permanente a substituição da política. Se o suposto astuto objetivo aqui é criar inexistente proximidade entre esquerda e nazismo, por conta do antissemitismo, é melhor procurar outra freguesia para cantar. A tese dessa proximidade não sustenta dois minutos de prosa. É mais adequada para gente do nível da família Bolsonaro, a qual não tem o menor interesse em verdades históricas.

Tomamos posição, sobretudo, como juristas por outros aspectos que em muito se distanciam de seu argumento do “meu amigo judeu”. Numa excelente reflexão publicada recentemente, a filósofa judia Susan Neiman, enfrenta o tema do holocausto e da escravidão nos Estados Unidos. O livro chama-se Learning from the Germans – race and the memory of evil, publicado em 2019. “Como ousa comparar uma coisa à outra? Escravidão foi um assunto econômico que não poder ser comparado ao assassinato de milhões de judeus”, foram apenas algumas das palavras ouvidas por Neiman. Eis o momento em que Autora explica que os alemães devem insistir na particularidade do holocausto; enquanto os judeus devem insistir na sua universalidade. Alemães que universalizam o holocausto eximem-se de sua responsabilidade. Mesmo com a busca da universalização do holocausto, que também assimilamos como elemento vital para que não se repita, somos obrigados a presenciar as tentativas mundo afora de sua relativização ou mesmo de apoio.

Compartilho inteiramente de seu pensamento, Mauro Nardvony, de que a solução necessariamente terá que ser encontrada principalmente por israelenses e palestinos. Afinal, mais de 42% dos israelenses apoiam um acordo de paz que reconheça os dois Estados. O que não pode ser esquecido é que este acordo não cairá dos céus. E que não se pode agravar as condições de tal acordo. Não se deve incentivar posturas que inviabilizem a retomada da paz, ou melhor, não se deve atravessar o rio e queimar a ponte. Fomentar a já existente desconfiança recíproca, com forte assimetria de poder bélico, reproduz apenas o ambiente de impossibilidade de construção da paz. Não há como se acreditar que alguém, em uso de sua plena razão, creia que pode viver por séculos numa permanente condição de luta tão feroz.

Um elemento imprescindível ainda remanesce como construtor da possível coexistência da região: o reconhecimento do universalismo, uma característica central do pensamento da esquerda. Quem não abdica desta condição somos nós, seus amigos de esquerda. Com quem todos os judeus também sempre contarão. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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