Ação da PF abala relação de Bolsonaro com centrão e atinge gabinete do ódio

"Com certeza, Bolsonaro vai reclamar de que deveria ter sido avisado da operação, (para avisar seus aliados), mas se o diretor-geral tivesse feito isso – e dificilmente não seria descoberto por estar sob milhares de holofotes – poderia incorrer em crime de obstrução de Justiça", observa Alex Solnik, do Jornalistas pela Democracia

Bolsonaro fala com jornalistas ao chegar ao Palácio da Alvorada
Bolsonaro fala com jornalistas ao chegar ao Palácio da Alvorada (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Por Alex Solnik, para o Jornalistas pela Democracia 

Veja como é a vida. Nada como um dia atrás do outro. Ontem Bolsonaro deu os parabéns à Polícia Federal, ou seja, à nova administração da PF, escolhida por ele, por ter metido em maus lençóis (hospitalares) seu principal desafeto, o governador Wilson Witzel. Nem disfarçou o bom humor. Apareceu sorridente no púlpito do Palácio da Alvorada, não gritou, não xingou ninguém e quando isso acontece todo mundo estranha.

Hoje, porém, a Polícia Federal invadiu as casas de Roberto Jefferson, de Luciano Hang e de Allan dos Santos, entre outros aliados, atrás de provas de envolvimento em ameaças e fake News contra ministros do STF, e seu bom humor certamente vai se transformar em ódio e rancor.

Claro que ele vai soltar os cachorros, dessa vez, contra seu apadrinhado da PF, mas o fato é que o diretor-geral não poderia ter feito nada porque os agentes atenderam a determinação do ministro do STF, Alexandre de Moraes, o que são obrigados a fazer, não foram lá porque resolveram ir.

O próprio Moraes já tinha tomado a precaução de proibir a troca desses agentes pela nova administração ao pressentir que Bolsonaro tinha interesse em interferir na investigação. Eles não têm, portanto, ligação alguma com o novo diretor-geral.    

Mais uma vez, com certeza, Bolsonaro vai reclamar de que deveria ter sido avisado da operação, (para avisar seus aliados), mas se o diretor-geral tivesse feito isso – e dificilmente não seria descoberto por estar sob milhares de holofotes – poderia incorrer em crime de obstrução de Justiça.

Agora, o prejuízo de Bolsonaro foi imenso. Mesmo que o caso não dê em nada, ou demore em dar em alguma coisa, Roberto Jefferson ganhou mais um carimbo de criminoso. Um carimbo de muitos. E como é que vai continuar negociando cargos com Bolsonaro? O presidente que prometeu acabar com o crime vai negociar com um sujeito investigado por crime de ameaça a ministros do STF?

Mas o estrago pode ser maior ainda. Jefferson não é o único político com passado tortuoso dentre os homens do centrão. Eles que de certa forma se sentiam protegidos pelas declarações enérgicas de Bolsonaro, que faziam crer que ele controlava as ações da PF devem ter se assustado e, como têm telhados de vidro, vão pensar que o que aconteceu de Jefferson pode acontecer, daqui a pouco, com eles.

E se Bolsonaro não consegue proteger suas negociatas de que serve serem seus aliados? Que vantagem levam? Os cargos que cobiçam só interessam se houver cobertura para que as transações tenebrosas aconteçam sem risco de irem para a cadeia.   

Ou seja, toda a negociação com o centrão pode ir por água abaixo. E o centrão é (ou era) seu principal pilar, é a sua esperança de garantir os votos necessários para permanecer no Planalto.

O outro pilar de sustentação que começa a ruir é o gabinete do ódio, que foi atingido com a busca e apreensão da casa de Allan dos Santos, empurrando mais crimes para a soleira da porta do gabinete presidencial.

O grande erro (ou um dos) de Bolsonaro foi entregar 2500 cargos qualificados do governo, antes ocupados por civis, a militares.

Como os militares não formam um partido nem têm representação no Congresso, não podem retribuir, em votos, as benesses que recebem.

  E, como são da reserva, não têm tanques nem tropas para fechar o STF.

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