Aquiles Lins avatar

Aquiles Lins

Aquiles Lins é colunista do Brasil 247, comentarista da TV 247 e diretor de projetos especiais do grupo.

250 artigos

HOME > blog

Acordo de Trump com Irã lembra Suez e expõe declínio do império estadunidense

Setenta anos depois, Estados Unidos revivem o roteiro que marcou o início do fim do Império Britânico em 1956

Acordo de Trump com Irã lembra Suez e expõe declínio do império estadunidense (Foto: Brasil 247)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

O acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o Irã guarda uma semelhança histórica impressionante com o desfecho da Crise de Suez, em 1956, episódio que marcou o início do fim do Império Britânico. Em ambos os casos, uma potência imperial iniciou uma escalada militar para impor sua vontade no Oriente Médio e terminou reconhecendo, na prática, as principais reivindicações do adversário.

Em 1956, o primeiro-ministro britânico Anthony Eden tentou impedir que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser consolidasse o controle do Egito sobre o Canal de Suez. Em 2026, Donald Trump tentou impedir que a República Islâmica do Irã consolidasse sua posição estratégica no Golfo Pérsico e mantivesse sua autonomia militar, energética e política.

Nos dois casos, os líderes das potências imperiais cometeram o mesmo erro de avaliação. Eden acreditava que Nasser cairia rapidamente diante da pressão militar britânica, francesa e israelense. Trump acreditava que a eliminação do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, abriria caminho para o colapso da República Islâmica.

Nenhuma das previsões se confirmou. Nasser sobreviveu politicamente à crise e saiu fortalecido. Khamenei foi assassinado brutalmente por ataques conjuntos de Israel e Estados Unidos, mas o regime iraniano permaneceu intacto. Seu sucessor e filho, o aiatolá Mojtaba Khamenei, assumiu a liderança sem que houvesse ruptura institucional ou desorganização do Estado iraniano.

O objetivo político das duas operações fracassou. A Grã-Bretanha não conseguiu derrubar Nasser. Os Estados Unidos e Israel não conseguiram derrubar o regime iraniano.

As semelhanças vão além da sobrevivência dos adversários. O Egito consolidou sua soberania sobre o Canal de Suez. O Irã consolidou sua autonomia estratégica sobre o Estreito de Ormuz. Nos dois casos, o conflito terminou fortalecendo exatamente aquilo que as potências ocidentais pretendiam impedir.

A crise revelou que os Estados Unidos possuíam uma capacidade muito mais limitada do que imaginavam para impor seus objetivos estratégicos. Washington e Tel Aviv foram surpreendidos pela capacidade militar iraniana, pela resiliência de suas instituições e pela disposição de Teerã para sustentar o confronto.

Há ainda outro personagem comum aos dois episódios: Israel. Em 1956, Israel participou da ofensiva organizada por Reino Unido e França contra o Egito. Em 2026, Israel praticamente arrastou os Estados Unidos na confrontação com o Irã. Nos dois casos, apostou na capacidade de uma potência imperial aliada para remodelar o Oriente Médio. Nos dois casos, essa aposta fracassou.

Suez entrou para a história como o momento em que ficou evidente que o Reino Unido já não possuía força para determinar sozinho os rumos da política internacional. O império britânico continuou existindo formalmente, mas sua condição de potência dominante havia sido definitivamente comprometida.

Ormuz poderá ser lembrado da mesma forma.

O acordo anunciado por Trump, se for confirmado, prova que os Estados Unidos já não possuem capacidade para transformar sua superioridade militar em resultados políticos decisivos. A distância entre poder militar e poder efetivo tornou-se visível. China e Rússia estão vendo. 

Se Suez simbolizou o início do declínio do Império Britânico, Ormuz simbolizará o início do declínio do império estadunidense.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.