Acumulam-se na América Latina fatores de polarização política

Editor internacional do Brasil 247 opina que situação política e social na região é de intensa polarização

www.brasil247.com - Marcha de bolivianos pela pátria e a democracia
Marcha de bolivianos pela pátria e a democracia (Foto: Telesul)


Por José Reinaldo Carvalho, 247 - Há dois aspectos salientes na conjuntura política latino-americana neste início de ano.

1) Em 2021 houve um acúmulo de lutas políticas e sociais, o que enriquece a experiência dos povos e forças políticas progressistas. Não farei aqui um inventário dessas múltiplas lutas, mas assinalar duas campanhas populares que se destacaram pela força da mobilização, o caráter de massas, a combatividade e o elevado grau de politização. Uma delas foi a jornada de lutas dos colombianos nos meses de abril e maio, um verdadeiro levante popular de mais de 50 dias, duramente reprimido pelo governo de extrema direita de Iván Duque. Apesar de toda a brutalidade das forças policiais, o movimento conquistou vitórias políticas, entre as quais a tramitação no Congresso Nacional de um caderno de reivindicações de direitos humanos, civis e sociais, que se constituirão nas linhas programáticas da luta política das forças de esquerda em 2022. 

A outra grande campanha popular latino-americana de 2021 foi a Marcha pela Pátria na Bolívia, que neutralizou e derrotou mais uma intentona golpista da extrema direita do país andino. De todos os cantos do país, marcharam a La Paz centenas de milhares de bolivianos das camadas populares, o que resultou no recuo, ainda que temporário, dos golpistas. Temporário porque certamente estes não vão desistir. Mas a experiência recente, como as jornadas de luta contra o governo golpista de Jeanine Añez, mostra o poder de mobilização do governo boliviano e do MAS - Movimento ao Socialismo, um partido político cuja força deitou profundas raízes no povo e constitui uma garantia da continuidade das transformações políticas, econômicas e sociais no país que levam à consolidação do Estado democrático-popular e plurinacional. 

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2) Igualmente, as forças progressistas latino-americanas conquistaram importantes vitórias eleitorais em países como Nicarágua, Honduras, Peru, Chile e Venezuela. 

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Na Nicarágua, a reeleição de Daniel Ortega por ampla maioria derrotou as manobras intervencionistas do governo Biden, que alegou fraude e anunciou novas sanções. A Frente Sandinista de Libertação Nacional sai consolidada de mais este embate. 

Honduras foi palco de uma luta que resgatou a democracia, 12 anos depois da destituição de Manuel Zelaya da presidência da República. 

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Um professor de escola primária, representante do "Peru profundo", venceu as eleições presidenciais por uma legenda de esquerda, com um programa de transformações em um país marcado pela opressão nacional e social dilacerado pelo domínio neoliberal e ofensivas continuadas das classes dominantes para liquidar a soberania do país. 

No Chile, Gabriel Boric, o candidato da coalizão "Apruebo Dignidad" (Frente Ampla e Partido Comunista), venceu o pleito presidencial com votação consagradora, derrotando de maneira contundente seu adversário da extrema direita. Ecos das jornadas de 2019, quando uma rebelião popular disse não ao neoliberalismo e aos resquícios da ditadura. 

Enquanto isso, na pátria do Libertador Simon Bolívar, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) conquistou em eleições regionais 20 dos 23 governadores do país, além da Prefeitura de Caracas, uma das mais importantes. Uma eleição que contou com a participação de forças oposicionistas e o acompanhamento de observadores internacionais que confirmaram a legitimidade dos procedimentos adotados pelo Conselho Nacional Eleitoral. Mais uma vitória do Chavismo, mais um episódio da acumulação de forças da Revolução Bolivariana e do complexo processo de edificação do socialismo do século 21 com peculiaridades venezuelanas. 

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Em Cuba, a lucidez, a firmeza, a força da Revolução e a unidade do povo em torno do governo e do Partido Comunista derrotaram as intentonas de guerra híbrida do imperialismo estadunidense e seus agentes internos.

As lutas sociais e os embates eleitorais refletem uma crescente polarização entre as aspirações populares e as políticas conservadoras e neoliberais, as correntes democráticas e as de extrema direita. Esta polarização tende a permanecer como o epicentro da luta política e ideológica, mesmo nos cenários em que a esquerda vence. Sobre isso é necessário desfazer as ilusões de que vitórias eleitorais das forças progressistas tendem a amenizar o quadro político, promover distensões, dissuadir conflitos, alcançar por geração espontânea a estabilidade e promover a conciliação nacional.  

Em 2022, a tendência é de polarização ainda maior se as forças progressistas triunfarem nas eleições presidenciais na Colômbia e no Brasil.   

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